O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade
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O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade


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pilar cósmico ao poste sagrado, e da casa cultual ao Universo, entre os Nad\u2019a de 
Flores. O poste de sacrifício chama se \u201cPoste do Céu\u201d, e acredita se que o Céu seja 
sustentado por ele. 
 
O \u201cCentro do Mundo\u201d 
 
O grito do neófito kwakiutl: \u201cEstou no Centro do Mundo!\u201d, revela nos, de imediato, 
uma das mais profundas sigilificações do espaço sagrado. Lá onde, por meio de uma 
hierofania, se efetuou a rotura dos níveis, operou se ao mesmo tempo uma 
\u201cabertura\u201d em cima (o mundo divino) ou embaixo (as regiões inferiores, o mundo 
dos mortos). Os três níveis cósmicos \u2013 Terra, Céu, regiões inferiores \u2013 tornaram-se 
comunicantes. Como acabamos de ver, a comunicação às vezes é expressa por meio 
da imagem de uma coluna universal, Axis mundi, que liga e sustenta o Céu e a Terra, 
e cuja base se encontra cravada no mundo de baixo (que se chama \u201cInfernos\u201d). Essa 
coluna cósmica só pode situar-se no próprio centro do Universo, pois a totalidade do 
mundo habitável espalha se à volta dela. Temos, pois, de considerar uma seqüência 
de concepções religiosas e imagens cosmológicas que são solidárias e se articulam 
num \u201csistema\u201d, ao qual se pode chamar de \u201csistema do Mundo\u201d das sociedades 
tradicionais: (a) um lugar sagrado constitui uma rotura na homogeneidade do 
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espaço; (b) essa rotura é simbolizada por uma \u201cabertura\u201d, pela qual se tornou 
possível a passagem de uma região cósmica a outra (do Céu à Terra e vice-versa; da 
Terra para o mundo inferior); (c) à comunicação com o Céu é expressa 
indiferentemente por certo número de imagens referentes todas elas ao Axis mundi: 
pilar (cf. a universalis columna), escada (cf. a escada de Jacó), montanha, árvore, 
cipós etc.; (d) em torno desse eixo cósmico estende se o \u201cMundo\u201d (\u201cnosso mundo\u201d) 
\u2013 logo, o eixo encontra-se \u201cao meio\u201d, no \u201cumbigo da Terra\u201d, é o Centro do Mundo. 
Um grande número de mitos, ritos e crenças diversas deriva desse \u201csistema do 
Mundo\u201d tradicional. Não é o caso de citá-los aqui. Parece nos mais útil limitar nos a 
alguns exemplos, escolhidos entre civilizações diferentes, e que podem nos fazer 
compreender o papel do espaço sagrado na vida das sociedades tradicionais \u2013 
qualquer que seja, aliás, o aspecto particular sob o qual se apresente esse espaço: 
lugar santo, casa cultual, cidade, \u201cMundo\u201d. Encontramos por toda a parte o 
simbolismo do Centro do Mundo, e é ele que, na maior parte dos casos, nos permite 
entender o comportamento religioso em relação ao \u201cespaço em que se vive\u201d. 
Comecemos por um exemplo que tem o mérito de nos revelar, de imediato, a 
coerência e a complexidade de um tal simbolismo: a Montanha Cósmica. Acabamos 
de ver que a montanha figura entre as imagens que exprimem a ligação entre o Céu e 
a Terra; considera-se, portanto, que a montanha se encontra no Centro do Mundo. 
Com efeito, numerosas culturas falam nos dessas montanhas \u2013 míticas ou reais \u2013 
situadas no Centro do Mundo: é o caso do Meru, na Índia, de Haraberezaiti, no Irã, 
da montanha mítica \u201cMonte dos Países\u201d, na Mesopotâmia, de Gerizim, na Palestina, 
que se chamava aliás \u201cUmbigo da Terra\u201d. Visto que a montanha sagrada é um Axis 
mundi que liga a Terra ao Céu, ela toca de algum modo o Céu e marca o ponto mais 
alto do mundo; daí resulta, pois, que o território que a cerca, e que constitui o \u201cnosso 
mundo\u201d, é considerado como a região mais alta. É o que proclama a tradição 
israelita: a Palestina, sendo a região mais elevada, não foi submersa pelo Dilúvio. 
Segundo a tradição islâmica, o lugar mais elevado da Terra é a kâ\u2019aba, pois \u201ca 
estrela polar testemunha que ela se encontra defronte do centro do Céu\u201d. Para os 
cristãos, é o Gólgota que se encontra no cume da Montanha cósmica. Todas essas 
crenças exprimem um mesmo sentimento, que é profundamente religioso: \u201cnosso 
mundo\u201d é uma terra santa porque é o lugar mais próximo do Céu, porque daqui, 
dentre nós, pode se atingir o Céu; nosso mundo é, pois, um \u201clugar alto\u201d. Em termos 
cosmológicos, essa concepção religiosa traduz se pela projeção do território 
privilegiado que é o nosso no cume da montanha cósmica. As especulações 
posteriores tiraram toda sorte de conclusões, por exemplo a que acabamos de ver a 
propósito da Palestina: que a Terra Santa não foi submersa pelo Dilúvio. 
O mesmo simbolismo do Centro explica outras séries de imagens cosmológicas e 
crenças religiosas, entre as quais vamos reter as mais importantes: (a) as cidades 
santas e os santuários estão no Centro do Mundo; (b) os templos são réplicas da 
Montanha cósmica e, conseqüentemente, constituem a \u201cligação\u201d por excelência 
entre a Terra e o Céu; (c) os alicerces dos templos mergulham profundamente nas 
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regiões inferiores. Alguns exemplos serão suficientes. Em seguida trataremos de 
integrar todos esses diversos aspectos de um mesmo simbolismo; veremos então 
mais claramente como são coerentes essas concepções tradicionais do Mundo. 
A capital do soberano chinês perfeito encontra-se no Centro do Mundo: aí, no dia do 
solstício do verão, ao meio dia, o gnomo não deve ter sombras. É surpreendente 
encontrar o mesmo simbolismo aplicado ao Templo de Jerusalém: o rochedo sobre o 
qual se erguia o templo era o \u201cumbigo da Terra\u201d. O peregrino islandês Nicolau de 
Thvera, que visitara Jerusalém no século XIII, escreveu acerca do Santo Sepulcro: 
\u201cÉ ali o meio do Mundo; ali, no dia do solstício do verão, a luz do Sol cai 
perpendicular do Céu\u201d. A mesma concepção no Irã: a região iraniana (Airyanam 
Vaejab) é o centro e o coração do Mundo. Tal como o coração se encontra no meio 
do corpo, \u201co país do Irã é mais precioso que todos os demais países porque está 
situado no meio do Mundo\u201d. É por isso que Shiz, a \u201cJerusalém\u201d dos iranianos (por 
se encontrar no Centro do Mundo), era reputada como o lugar original do poder real 
e, ao mesmo tempo, a cidade onde Zaratustra nascera\u201d. 
Quanto à assimilação dos templos às Montanhas cósmicas e à sua função de 
\u201cligação\u201d entre a Terra e o Céu, testemunham no os próprios nomes das torres e dos 
santuários babilônios: chamam-se \u201cMonte da Casa\u201d, \u201cCasa do Monte de todas as 
Terras\u201d, \u201cMonte das Tempestades\u201d, \u201cLigação entre o Céu e a Terra\u201d etc. A ziqqurat 
era, propriamente falando, uma Montanha cósmica: os sete andares representavam 
os sete céus planetários; subindo os, o sacerdote ascendia ao cume do Universo. Um 
simbolismo análogo explica a enorme construção do templo de Barabudur, em Java, 
erigido como uma montanha artificial. Sua escalada equivale a uma viagem extãtica 
ao Centro do Mundo; atingindo o terraço superior, o peregrino realiza uma rotura de 
nível; penetra numa \u201cregião pura\u201d, que transcende o mundo profano. 
Dur-na-ki, \u201cligação entre o Céu e a Terra\u201d, era um nome que se aplicava a vários 
santuários babilônios (em Nippur, Larsa, Sippar etc.). Babilônia tinha inúmeros 
nomes, entre os quais \u201cCasa da base do Céu e da Terra\u201d, \u201cLigação entre o Céu e a 
Terra\u201d. Mas é ainda em Babilônia que se fazia a ligação entre a Terra e as regiões 
inferiores, porque a cidade havia sido construída sobre bâbapsú, \u201ca Porta de Apsü\u201d, 
designando apsâ as Águas do Caos anterior à Criação. Encontra-se a mesma tradição 
entre os hebreus: o rochedo do templo de Jerusalém penetrava profundamente o 
tebôm, o equivalente hebraico de apsú. E tal como na Babilônia havia a \u201cPorta de 
Apsú\u201d, o rochedo do templo de Jerusalém tapava a \u201cboca de tebóm\u201d. 
O apsú, o tehôm simbolizam ao mesmo tempo o \u201cCaos\u201d aquático \u2013 a modalidade 
pré-formal da matéria cósmica \u2013 e o mundo da Morte, de tudo o que precede a vida e 
a sucede. A \u201cPorta de Apsú\u201d e o rochedo que oculta a \u201cboca de tehôm\u201d designam 
não somente o ponto de intersecção \u2013 e portanto de comunicação \u2013 entre o mundo 
inferior e a Terra, mas também a diferença de regime ontológico