Tratado da correção do intelecto - Spinoza
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Tratado da correção do intelecto - Spinoza


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acerca das idéias claras e distintas. [80] Além disso, se alguém proceder 
corretamente, investigando o que se deve investigar primeiro, não interrompendo jamais a 
concatenação das coisas, e souber como se devem determinar as questões antes de se chegar a 
seu conhecimento,89 nunca terá senão idéias certíssimas, isto é, cla ras e distin tas, pois a 
dúvida nada mais é que a suspensão da alma no atinente a alguma afirmação ou negação, que 
afirmaria ou negaria se não ocorresse algo que, desconhecido, deixa imperfeito o 
conhecimento dessa coisa. Donde se vê que a dúvida sempre nasce do fato de serem as coisas 
investigadas sem ordem. 
[81] Isto é o que prometi tratar nesta primeira parte do método. Mas, para não omitir 
nada do que pode levar ao conhecimento do intelecto e a suas forças, direi ainda pouca coisa 
da memória e do esquecimento, onde ocorre principalmente considerar que a memória é 
corroborada por meio do intelecto e também sem o auxílio dele. De fato, em relação ao 
primeiro ponto, quanto mais algo é inteligível, mais facilmente se retém, e, ao contrário, 
quanto menos, mais facilmente o esquecemos.90 Por exemplo, se eu transmitir a alguém uma 
porção de palavras soltas, muito mais dificilmente as reterá do que se apresentar as mesmas 
palavras em forma de narração. [82] reforçada também sem auxílio do intelecto, a saber, pela 
força mediante a qual a imaginação ou o sentido a que chamam comum 91 é afetado por 
alguma coisa singular corpórea. Digo singular, pois a imaginação só é afetada por coisas 
singulares. Com efeito, se alguém ler, por exemplo, só uma novela de amor, retê-la-á muito 
bem enquanto não ler muitas outras desse gênero, porque então vigora sozinha na 
imaginação; mas, se são mais do gênero, imaginam-se todas juntas e facilmente são 
confundidas. Digo também corpórea, pois a imaginação só é afetada por corpos. Como, 
portanto, a memória é fortalecida pelo intelecto e também sem ele, conclui-se que é algo 
diverso do intelecto 92 e que não há nenhuma memória nem esquecimento a respeito do 
intelecto visto em si. [83] O que será, pois, a memória? Nada mais do que a sensação das 
impressões do cérebro junto com o pensamento de uma determinada duração 93 da sensação; 
o que também a reminiscência mostra. Realmente, nesta a alma pensa nessa sensação, mas 
não sob uma contínua duração; e assim a idéia desta sensação não é a própria duração da 
sensação, quer dizer, a própria memória. Se, porém, as próprias idéias sofrem alguma 
corrupção, veremos na filosofia. E se isso parece a alguém muito absurdo, bastará para o 
nosso propósito que pense ser tanto mais facilmente retida uma coisa quanto mais for 
singular, como se vê do exemplo da novela que acabamos de dar. Além disso, quanto mais 
uma coisa é inteligível, mais facilmente é retida. Logo, não podemos deixar de reter uma 
coisa sumamente singular e somente inteligível.94 
[84] Assim, pois, distinguimos a idéia verdadeira e as outras percepções, mostrando que 
as idéias fictícias, as falsas e as outras têm sua origem na imaginação, isto é, em certas 
sensações fortuitas e, por assim dizer, soltas,95 que não nascem da própria potência da mente, 
mas de causas exteriores, conforme o corpo, em sonhos ou acordado, recebe vários 
movimentos. Ou, se se preferir, tome-se aqui por imaginação o que se quiser contanto que 
seja algo diverso do intelecto e onde a alma seja paciente; tanto faz que tomes o que quiseres, 
desde que saibamos que é alguma coisa vaga e da qual a alma sofre, sabendo ao mesmo 
tempo como, pelo intelecto, nos livramos dela. Por isso também ninguém se admire de que 
ainda não provei existir um corpo e outras coisas necessárias, e contudo falei da imaginação, 
do corpo e sua constituição, pois, como disse, pouco importa o que suponho, contanto que 
saiba ser algo vago, etc. 
[85] Demonstramos, porém, que a idéia verdadeira é simples ou composta de simples e 
mostra como e por que algo é ou foi feito. Demonstramos também que seus efeitos objetivos 
na alma procedem conforme a razão da formalidade do próprio objeto; o que é o mesmo que 
os antigos disseram, a saber, que a verdadeira ciência procede da causa para os efeitos; a não 
ser que nunca, ao que eu saiba, conceberam, como nós aqui, a alma agindo segundo certas 
leis e como que um autômato espiritual. [86] Por conseguinte, quanto era possível no 
começo, adquirimos o conhecimento de nosso intelecto e tal norma da idéia verdadeira que 
não tememos mais confundir as coisas verdadeiras com as falsas ou as fictícias. Nem 
tampouco nos admiraremos de inteligir algumas coisas que de modo algum caem sob a 
imaginação, de que outras, totalmente opostas ao intelecto, este jam na imaginação, ou de que, 
afinal, haja outras que convêm com o intelecto. Com efeito, sabemos que as operações pelas 
quais são produzidas as imaginações se fazem conforme outras leis, inteiramente diversas das 
leis do intelecto, e que a alma se mantém, acerca da imaginação, apenas como paciente. [87] 
Pelo que também se vê com que facilidade podem cair em grandes erros os que não 
distinguem cuidadosamente a imaginação e a intelecção. Nestes, por exemplo: que a extensão 
deve estar em um lugar; deve ser finita, com partes que se distinguem realmente umas das 
outras; que é o primeiro e único fundamento de todas as coisas, e que num tempo ocupa um 
maior espaço que noutro, além de muitas outras coisas do mesmo gênero;96 isso tudo se opõe 
à verdade, como mostraremos no devido lugar. 
[88] A seguir, como as palavras são parte da imaginação, isto é, fingimos muitos 
conceitos na medida em que, vagamente, por alguma disposição do corpo, são compostos na 
memória, não se deve duvidar de que também as palavras, como a imaginação, podem ser a 
causa de muitos e grandes erros, se com elas não tivermos muita precaução. [89] Acrescente -
se que são formadas de acordo com o arbítrio e a compreensão do vulgo, de modo que não 
são senão sinais das coisas como se acham na imaginação, mas não como estão no intelecto; 
o que claramente se vê pelo fato de que a todas as coisas que estão só no intelecto e não na 
imaginação puseram muitas vezes nomes negativos, como sejam, incorpóreo, infinito, etc., e 
também muitas coisas que são realmente afirma tivas exprimem negativamente, e vice-versa, 
como são incriado, independente, infinito, imortal, etc., porque, sem dúvida, muito mais 
facilmente imaginamos o contrário disso, motivo pelo qual ocorreram antes aos primeiros 
homens e usaram nomes positivos. Muitas coisas afirmamos e negamos porque a natureza das 
palavras leva a afirmá-lo ou negá-lo, mas não a natureza das coisas; por isso, ignorando-a, 
facilmente tomaríamos algo falso por verdadeiro. 
190] Evitamos, além disso, outra grande causa de confusão e que faz com que o 
intelecto não reflita sobre si mesmo, a saber, quando, não fazendo distinção entre a 
imaginação e a intelecção, cremos que aquilo que imaginamos mais facilmente é também 
mais claro para nós, e julgamos inteligir o que imaginamos. Por isso, antepomos o que se 
deve pospor, e assim se desfaz a verdadeira ordem do progresso e não se conclui nada 
legitimamente. 
[91]97 Ademais, para que afinal cheguemos à segunda parte deste método, proporei 
primeiro o nosso intuito neste método e a seguir os meios para atingi-lo. O escopo, pois, é ter 
idéias claras e distintas, tais, a saber, que provenham da pura mente e não de movimentos 
fortuitos do corpo. A seguir, para que todas as idéias sejam reduzidas a uma, tentaremos ligá-
las e ordená-las de tal modo que nossa mente, quanto possível, reproduza objetivamente a 
formalidade da natureza, no todo e em cada uma de suas partes. 
[92] Quanto ao primeiro ponto, como já dissemos, exige-se para o nosso último fim que 
a coisa seja concebida por sua essência tão-somente, ou por sua causa próxima. A saber, se a 
coisa é em si, ou, como vulgarmente se diz, causa de si mesma, deverá