CCJ0009-WL-RA-03-TP na Narrativa Jurídica-Carac. da Narrativa Jurídica (10-08-2012)
13 pág.

CCJ0009-WL-RA-03-TP na Narrativa Jurídica-Carac. da Narrativa Jurídica (10-08-2012)

Disciplina:Teoria e Prática da Narrativa Jurídica711 materiais3.528 seguidores
Pré-visualização6 páginas
respondeu que esperaria...

"_ ...porque tinha certeza que ela ia ser 'boazinha' e aceitar sua proposta".

46- Durante uma semana, o réu nada disse. Manteve-se discreto, absolutamente frio, com o cinismo impávido e arrogante do conquistador profissional.

47- Não deixou, porém, de sinalizar, indireta e ofensivamente, as vantagens que adviriam para a autora de aceitar suas propostas indecorosas; interessou-se mais por seu trabalho, sugeriu a contratação de um auxiliar para suas funções, acenou com a perspectiva de um aumento de seus vencimentos.

48- Passada a semana de prazo, voltou o réu novamente à carga de modo direto: perto do final do expediente, como sete dias antes, ofereceu à autora uma carona, que esta não teve como recusar.

49- Conversavam no trajeto; a autora, hesitante, relutante, com medo de negar, sentindo-se coagida, ameaçada de perder o emprego. O réu, gentil, polido, falsamente sedutor, mas deixando clara a opção: ou a autora se transformava em sua amante fixa ou teria que procurar rapidamente um novo emprego.

50- A autora, nervosa, entretida na conversa difícil, não observava para onde estavam se dirigindo. De repente, em uma curva, o réu saiu com o carro da estrada e entrou em um motel, pedindo imediatamente a chave da suíte presidencial.

51- Novamente o constrangimento; novamente o envolvimento, as insinuações, a criação de situações sem saída. E novamente a autora é forçada a aceder aos caprichos sexuais do réu.

52- F0rmava-se assim uma situação irreversível. autora e réu, agora, eram amantes. Não havia como voltar atrás.

53- Irremediavelmente enredada pelo patrão, era agora prostituída, obrigada a entregar seu corpo para não perder o emprego. Nada mais restava agora à autora senão manter as aparências e associar-se ao réu no negregando esforço de manter desconhecido o espúrio conúbio.

54- A rel.ação, vivida às ocultas, durou alguns meses. A autora, porém, sofria muito; não saía mais de casa. Sua condição de amante fixa de um homem casado, ainda por cima seu patrão, tornava-a uma pessoa amarga, dissimulada.

55- O único lugar que freqüentava, além do trabalho, era o motel, sempre o mesmo, uma ou duas vezes por semana pelo menos, ao final do expediente. De vez em quando, quando o réu tinha o.pretexto de alguma viagem, exigia que a autora o acompanhasse ou que, antes ou depois, passasse com ele uma noite inteira, o que a obrigava a inventar mentiras constrangedoras para sua velha mãe, com quem ainda morava.

56- Mas não paravam aí os sofrimentos. Também por um outro particular a situação era cruel: além de seus sonhos profissionais, a autora evidentemente tinha também sonhos como mulher, os sonhos de toda moça: ter uma relação afetiva normal, sólida, casar-se, gerar e criar os próprios filhos.

57- Aos poucos esses sonhos iam se frustrando. Como poderia ela, sentindo-se como se sentia, uma prostituta, entregando-se a práticas sexuais com um homem que não amava, conseguir desenvolver um outro tipo de relação, mais puro e mais saudável?

58- Um dia, porém, apesar de tudo, a autora apaixonou-se por um rapaz solteiro, um jovem médico, dois anos mais velho que ela, que conheceu na festa de casamento de sua irmã.

59- Sua paixão, para sua felicidade ou desgraça, foi correspondida e logo iniciava ela, cheia de esperanças, um namoro saudável.

60- Estava, porém, carregada de culpas. Não podia continuar nem mais um minuto levando uma vida dupla: amando com pureza o jovem médico, ao mesmo tempo em que mantinha com o patrão uma relação adúltera e pecaminosa. O rompimento com o réu, nas circunstâncias, tornou-se inevitável.

61- O réu, porém, inconformado, insistia, prometia, ameaçava, gritava; chegou mesmo, certa vez, a agredir fisicamente a autora.

62- Finalmente, deixou-a ir. Mas, no dia seguinte, como era de se esperar, a autora estava demitida.

63- Não parou aí a baixeza do réu. Vingativo, contou ao namorado da autora o caso que tivera com ela, mostrando-lhe, inclusive, fotografias suas em posições obscenas.

64- A mãe da autora, por sua vez, mal recuperada da cirurgia a que se submetera, não resistiu à sucessão de crises emocionais da filha e faleceu pouco depois.

65- A própria autora adoeceu seriamente. Não conseguia arranjar emprego; tinha vergonha. O réu, pessoa conhecida e influente na sociedade, cuja separação recente era assunto das crônicas de intrigas, provavelmente denegrira seu nome.

66- Poderia a autora alongar-se ainda, por páginas e páginas no relato de seus tormentos. Não o faz. Não é preciso. V. Exa. saberá, com sua sensibilidade de magistrado, avaliar com precisão quão duros foram esses tempos de tormento e humilhação que o comportamento reprovável do réu causou à autora.

Questões

a) Resuma, em até cinco linhas, qual a versão narrada pela parte autora.

b) Identifique, na transcrição desse segmento, pelo menos três informações que a parte ré não teria narrado. Justifique por quê.

C) Identifique pelo menos dois recursos linguísticos que visem a valorar os fatos a favor da parte autora.

==XXX==

	Capítulo: Características da Narrativa Jurídica
Livro: Interpretação e Produção de Textos Aplicadas ao Direito
(Néli Luiz Cavalieri Fetzner)

	

==XXX==

	Capítulo: Narrativa Jurídica Simples e Narrativa Jurídica Valorada
Livro: Interpretação e Produção de Textos Aplicadas ao Direito
(Néli Luiz Cavalieri Fetzner)

	

==XXX==

� Barros, Orlando Mara. Comunicação & Oratória. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2001, p. 138.

� LACERDA, Gabriel. Em segredo de justiça. Rio de Janeiro: Xenon, 1995, p. 10-20.

MD/Direito/Estácio/Período-02/CCJ0009/Aula-003/WLAJ/DP
MD/Direito/Estácio/Período-02/CCJ0009/Aula-003/WLAJ/DP