CCJ0009-WL-RA-03-TP na Narrativa Jurídica-Características da Narrativa Jurídica _10-08-2012_
13 pág.

CCJ0009-WL-RA-03-TP na Narrativa Jurídica-Características da Narrativa Jurídica _10-08-2012_


DisciplinaTeoria e Prática da Narrativa Jurídica736 materiais3.492 seguidores
Pré-visualização7 páginas
até que, cerca de uma hora 
da madrugada, só restavam dançando autora e réu, este último, a essa altura, completamente embriagado. 
32- Tocado pelo álcool, o réu perdeu o controle de si mesmo e começou a tentar seduzir a autora, com 
palavras eloqüentes ,carregadas de sensualidade imoral. 
33- A autora, é claro, resistiu sempre, até que, finalmente, desvencilhou-se do réu e saiu andando 
apressadamente até seu quarto. 
34- O réu, porém, seguiu-a e, com o pé, impediu-a de trancar a porta, dizendo cruamente, em alto e bom 
som: 
"- Esta noite eu vou dormir aqui com você". 
35- O constrangimento era total e invencível., No silencioso hotel de fim de semana, todos estavam 
recolhidos. O réu, completamente embriagado, deixava desenganadamente claras suas lascivas intenções. 
Somente com grande escândalo, do qual todos os demais hóspedes do hotel e, principalmente, os profissionais 
integrantes do escritório por certo tomariam conhecimento, poderia a autora ter resistido a suas lúbricas 
investidas. 
36- Não restou à autora senão aceder e passar a noite com o réu. Enojada, vencendo a repugnância, por 
várias vezes permitiu que ele a possuísse, sempre para evitar o escândalo. 
37- Manhã bem cedo, retirou-se o réu para seu próprio quarto e, algumas horas depois, de cara lavada, 
como se nada tivesse acontecido, presidia a reunião da manhã de domingo. 
38- A autora cuidava que todo aquele pesadelo não duraria mais que uma noite e que, novamente sóbrio, o 
réu se desculparia ou, pelo menos, tentaria fingir que nada tinha acontecido. 
39- De fato, foi assim que procedeu o réu durante todo o domingo, no hotel, e na viagem de volta. 
40- Na segunda-feira a autora apresentou-se ao trabalho, ainda desconfiada, mas pronta a iniciar esforço 
consciente para relegar o episódio- a merecido esquecimento. O emprego ainda era um bom emprego; a autora 
precisava dele; agora mais que nunca, pois sua mãe, já idosa, estava prestes a submeter-se a uma delicada 
intervenção cirúrgica. O réu, até ali, tinha sido um bom patrão. Tudo afinal não passara de uma noite de 
bebedeira. 
41- Ao final do expediente, porém, o réu chamou a autora, dizendo que precisava conversar com ela e 
oferecendo uma carona. Cuidando, ingenuamente, que receberia o tão esperado pedido de desculpas, a autora 
aceitou o convite. 
42- Mais uma vez, porém, para sua desgraça, enganou-se. O réu desejava, isto sim, reiterar que apreciara 
imenso a noite passada com ela, que insistia em chamar \u201cuma noite de amor"; que não tinha deixado de pensar 
nela um só minuto e que queria repetir a experiência. 
43- Agora não havia mais a desculpa da embriaguez. O réu estava sóbrio e sua voz, firme, decidida; 
simplesmente, com estarrecedor cinismo e despudor, convidava a autora a ser sua amante fixa, a ter \u201cum caso" 
com ele. 
44- A autora não sabia o que. fazer: aceitar não podia; não queria envolver-se com o réu, um homem 
casado e, ao que se dizia, bem casado; por outro lado, estava implícito no convite que a recusa significaria para a 
autora a demissão do emprego. 45- Procurou a autora, em desespero, ganhar tempo. Pediu uma semana para 
pensar, ao que o réu, surpreendentemente, respondeu que esperaria... 
"_ ...porque tinha certeza que ela ia ser 'boazinha' e aceitar sua proposta". 
 
Curso de Direito 
Turma A \u2013 Manhã - 2012.1 
Teoria e Prática da Narrativa Jurídica 
Prof.: Francysco Pablo Feitosa Gonçalves 
Disciplina: 
CCJ0009 
Aula: 
003 
Assunto: 
Características da Narrativa Jurídica 
Folha: 
12 de 13 
Data: 
10/08/2012 
 
MD/Direito/Estácio/Período-02/CCJ0009/Aula-003/WLAJ/DP 
46- Durante uma semana, o réu nada disse. Manteve-se discreto, absolutamente frio, com o cinismo 
impávido e arrogante do conquistador profissional. 
47- Não deixou, porém, de sinalizar, indireta e ofensivamente, as vantagens que adviriam para a autora de 
aceitar suas propostas indecorosas; interessou-se mais por seu trabalho, sugeriu a contratação de um auxiliar para 
suas funções, acenou com a perspectiva de um aumento de seus vencimentos. 
48- Passada a semana de prazo, voltou o réu novamente à carga de modo direto: perto do final do 
expediente, como sete dias antes, ofereceu à autora uma carona, que esta não teve como recusar. 
49- Conversavam no trajeto; a autora, hesitante, relutante, com medo de negar, sentindo-se coagida, 
ameaçada de perder o emprego. O réu, gentil, polido, falsamente sedutor, mas deixando clara a opção: ou a 
autora se transformava em sua amante fixa ou teria que procurar rapidamente um novo emprego. 
50- A autora, nervosa, entretida na conversa difícil, não observava para onde estavam se dirigindo. De 
repente, em uma curva, o réu saiu com o carro da estrada e entrou em um motel, pedindo imediatamente a chave 
da suíte presidencial. 
51- Novamente o constrangimento; novamente o envolvimento, as insinuações, a criação de situações sem 
saída. E novamente a autora é forçada a aceder aos caprichos sexuais do réu. 
52- F0rmava-se assim uma situação irreversível. autora e réu, agora, eram amantes. Não havia como voltar 
atrás. 
53- Irremediavelmente enredada pelo patrão, era agora prostituída, obrigada a entregar seu corpo para não 
perder o emprego. Nada mais restava agora à autora senão manter as aparências e associar-se ao réu no 
negregando esforço de manter desconhecido o espúrio conúbio. 
54- A rel.ação, vivida às ocultas, durou alguns meses. A autora, porém, sofria muito; não saía mais de casa. 
Sua condição de amante fixa de um homem casado, ainda por cima seu patrão, tornava-a uma pessoa amarga, 
dissimulada. 
55- O único lugar que freqüentava, além do trabalho, era o motel, sempre o mesmo, uma ou duas vezes por 
semana pelo menos, ao final do expediente. De vez em quando, quando o réu tinha o.pretexto de alguma viagem, 
exigia que a autora o acompanhasse ou que, antes ou depois, passasse com ele uma noite inteira, o que a 
obrigava a inventar mentiras constrangedoras para sua velha mãe, com quem ainda morava. 
56- Mas não paravam aí os sofrimentos. Também por um outro particular a situação era cruel: além de seus 
sonhos profissionais, a autora evidentemente tinha também sonhos como mulher, os sonhos de toda moça: ter 
uma relação afetiva normal, sólida, casar-se, gerar e criar os próprios filhos. 
57- Aos poucos esses sonhos iam se frustrando. Como poderia ela, sentindo-se como se sentia, uma 
prostituta, entregando-se a práticas sexuais com um homem que não amava, conseguir desenvolver um outro tipo 
de relação, mais puro e mais saudável? 
58- Um dia, porém, apesar de tudo, a autora apaixonou-se por um rapaz solteiro, um jovem médico, dois 
anos mais velho que ela, que conheceu na festa de casamento de sua irmã. 
59- Sua paixão, para sua felicidade ou desgraça, foi correspondida e logo iniciava ela, cheia de esperanças, 
um namoro saudável. 
60- Estava, porém, carregada de culpas. Não podia continuar nem mais um minuto levando uma vida dupla: 
amando com pureza o jovem médico, ao mesmo tempo em que mantinha com o patrão uma relação adúltera e 
pecaminosa. O rompimento com o réu, nas circunstâncias, tornou-se inevitável. 
61- O réu, porém, inconformado, insistia, prometia, ameaçava, gritava; chegou mesmo, certa vez, a agredir 
fisicamente a autora. 
62- Finalmente, deixou-a ir. Mas, no dia seguinte, como era de se esperar, a autora estava demitida. 
63- Não parou aí a baixeza do réu. Vingativo, contou ao namorado da autora o caso que tivera com ela, 
mostrando-lhe, inclusive, fotografias suas em posições obscenas. 
64- A mãe da autora, por sua vez, mal recuperada da cirurgia a que se submetera, não resistiu à sucessão 
de crises emocionais da filha e faleceu pouco depois. 
65- A própria autora adoeceu seriamente. Não conseguia arranjar emprego; tinha vergonha. O réu, pessoa 
conhecida e influente na sociedade, cuja separação recente era assunto das crônicas de intrigas, provavelmente 
denegrira seu nome. 
66- Poderia a autora alongar-se ainda, por páginas e páginas no relato de seus tormentos. Não o faz.