Leitura para Atividade Estruturada 6
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Leitura para Atividade Estruturada 6

Disciplina:Sociologia Jurídica e Judiciária1.893 materiais15.022 seguidores
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the world of law scholars, even with their presence in the law schools, very unusual in civil law tradition.
Keywords: Law Field - Legal labour division - Civil Law tradition - Symbolic efficacy  
1. Introdução: construindo o personagem 

No filme “O Bebê de Rosemary”, versão cinematográfica de Roman Polanski do livro de Ira Levin, a personagem de Mia Farrow se vê diante de uma conspiração que impregnou no seu ventre o filho do Demônio e anseia pelo nascimento do Falso Profeta. Participam da conspiração seu marido, um casal de simpáticos vizinhos idosos e seus dois obstetras. Um amigo, tentando alerta-la, faz chegar às suas mãos um livro intitulado: “Todos Eles Bruxos”.

Não há paralelo entre o que os bruxos fizeram com a vida de Rosemary e o papel dos juízes no campo jurídico do Brasil de hoje, senão pela hegemonia exercida nos sistemas de referência e nos sistemas simbólicos. O que quer que Rosemary fizesse para intervir na gestão de sua própria vida, eram bruxos que via. De um ponto estabelecido no campo jurídico brasileiro todo o caminho passa por juízes. O cerne do que se pretende ora demonstrar é o aparentemente contraditório fato de que o direito brasileiro, muito embora produto da tradição do civil law, é hegemonizado pelos juízes, e não pelos acadêmicos.

Nossa observação exclui de todo uma posição pejorativa com relação a esta categoria profissional. Tomamos por base a noção de que o campo jurídico é um campo composto por pessoas e suas práticas profissionais específicas, não por leis, jurisprudência e doutrina. Consideraremos, portanto, como Tribunal, o espaço físico onde o juiz exerce seu ofício, conseqüentemente construindo feixes múltiplos de sociabilidade. Nos interessa aqui examinar os juízes como pessoas praticantes de ações sociais, que apenas formam o “corpo da magistratura” na medida que o complexo destas ações se vasculariza e forma numerosas conexões, compondo o sentido social do que chamamos instituição[1].
O direito de uma forma geral – e também o direito brasileiro – possui uma característica marcante, que força ainda mais nossa ênfase na importância dada às experiências vividas. Esta característica consiste em reiteradas iniciativas no fito de se constituir uma ciência jurídicacapaz de se explicar por seus próprios postulados e afastar constrangimentos sociais, capaz de transformar um corpo de doutores em um corpo de doutrina[2]. Estas iniciativas, que na obra de Kelsen chegam a seu limite, constituem obstáculo para a investigação ora pretendida uma vez que presumem justamente um corpus jurídico capaz de se explicar, produzir e reproduzir independentemente dos agentes envolvidos e dos demais campos da sociedade. Queremos justamente o contrário. O que se pretende é abandonar o esplendor e o majestoso isolamento que cercam o ofício do juiz. Esta descortinação se faz necessária para a compreensão de que a maior parte do poder que ostentam os juízes é de componente simbólico, portanto, é de importância metodológica ímpar o olhar científico – etnológico, diga-se – sobre este componente, para a compreensão de seus efeitos e suas origens.

Para tanto nos valemos de uma série de dados os quais vimos colhendo há aproximadamente dois anos, mercê de técnicas como observação não participante e entrevista em profundidade. Também nos valemos de materiais colhidos em publicações jurídicas (jornais, revistas...) e outros dados de natureza qualitativa colhidos e analisados por pesquisadores da área de antropologia e sociologia do direito.

Um primeiro problema que se colocou é a necessidade de manter no anonimato juízes e “concurseiros” os quais contribuíram para esta pesquisa. Nossa solução foi a seguinte: a criação de um personagem, capaz de emprestar personalidade aos dados da pesquisa, sem, no entanto, comprometer sua cientificidade apenas por emprestar à forma do trabalho uma aparência narrativa.

Saída que nos colocou um segundo problema: qual personagem? Rosemary já tem o crédito de ter inspirado o título do trabalho. Gregor, que certo dia acordou estupefato por ter assumido a forma física de uma barata, poderia ser o protagonista de estória onde um não-iniciado se aventura pelo campo jurídico? Ou mesmo o Sr. K., que teve seu chá matinal interrompido pela notícia de que respondia a um processo, do qual jamais soube outra notícia senão a de que ele era o réu? Enfrentaríamos, com estes dois, um problema incontornável por um trabalho desta natureza: o olhar extremamente particular que Kafka lança sobre o direito. Deixaremos esta empresa, quem sabe, para outra oportunidade.

Nesta, nosso personagem é: Quesalid! Sem pretensões de com este artifício tornar a leitura mais lacônica, reitera-se que o motivo essencial é a preservação do anonimato dos interlocutores que nos forneceram os dados. Há um outro motivo, que fica para a conclusão.   

2. Quesalid na faculdade de direito 

“O SENHOR MINISTRO NELSON JOBIM – (...) peço a V.Exa., Ministro Marco Aurélio, que, junto aos outros colegas, ouça um dado histórico. (...) Surge então o primeiro momento da reedição de medida provisória. O Senador Nelson Carneiro – o Ministro Maurício Correia está começando a lembrar disso -  resolve levar, em questão de ordem, à sessão do Congresso Nacional o problema da reedição da medida provisória. Decidiu, ainda, o Senador constituir uma comissão especial, composta de três Senadores e três Deputados. Os Senadores indicados para a comissão foram Afonso Arinos de Mello Franco – que foi o Presidente – o Senador Maurício Correia e havia um terceiro Senador do qual não estou me recordando. Os Deputados eram Plínio de Arruda Sampaio, Paes Landim e havia um terceiro Deputado. Eu fui designado o Relator. E foi esta comissão que primeiro emitiu um juízo sobre a reedição de medida provisória, admitindo-a.

O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO -  Vejam o que o ministro disse: para se julgar é preciso um estágio no Congresso Nacional.

O SENHOR MINISTRO NELSON JOBIM – Eu não disse isso”. (...)[3]   

Foi assistindo à “TV Justiça”, especialmente ao diálogo acima, que Quesalid, membro da classe média de algum centro urbano brasileiro dos nossos dias, decidiu se tornar juiz. Aquelas pessoas discutiam a república, do topo. E foi assim que Quesalid foi aprovado no vestibular e se matriculou em uma faculdade de direito de renome no seu estado.

O início das aulas demonstrou a Quesalid uma realidade muito parecida com a experimentada por Kant de Lima[4], quando também acadêmico de direito:

“No curso de Direito a didática se resumia a aulas expositivas, dadas pelos professores de maneira bastante formal, sendo muito claro para meus colegas que a profissão de advogado, sua técnica, deveria ser aprendida em estágios, à época informais, em escritórios de advocacia, obtidos mediante recomendações pessoais. À faculdade restava o papel de formar bacharéis, constituindo-se o diploma em requisito necessário, mas não suficiente para a prática da advocacia. O verdadeiro aprendizado ficava por conta de mecanismos, processos e práticas informais a serem socialmente (e não tecnicamente) aprendidos. Assim, opunham-se relações distantes e formais com os professores à interação intensa e informal com colegas de curso e com profissionais da área. (...)”.   

Porém, ainda faltava a Quesalid perceber o que deveriam fazer aqueles que desejavam, após o bacharelado, ingressar em um cargo público. Descobriu que a faculdade de direito segue uma lógica muito diferente das demais. Não é um espaço voltado em maior grau para a formação de professores e pesquisadores na área, mas de alimentação de bacharéis formalmente aptos a tentar suas chances no ingresso, também formal, nos quadros da advocacia ou nas carreiras públicas. Como percebeu Kant, a advocacia deveria ser iniciada em escritórios, na vida forense e no manuseio de processos judiciais, onde muito mais o aspirante deveria adquirir cacoetes e “malandragens” do que aprender direito na prática. Por isso é que Quesalid via desde muito cedo nas aulas colegas seus já apresentados orgulhosamente de paletó