Leitura para Atividade Estruturada 6
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Leitura para Atividade Estruturada 6

Disciplina:Sociologia Jurídica e Judiciária1.871 materiais14.930 seguidores
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ou tailleur.

Mas e quanto àqueles que ambicionavam a carreira de juiz, procurador autárquico ou promotor de justiça? Havia apenas uma saída: o “cursinho”. Também muito antes da formatura muitos colegas de Quesalid já cursavam algum “módulo” preparatório. Alguns até já ocupavam cargos os quais não exigiam o nível superior, em maioria os de técnico-judiciário, mas também chegou Quesalid a tomar cerveja com alguns policiais civis. Uma minoria praticamente imperceptível exercia atividades de pesquisa ou monitoria. Porém, em regra, quem não fazia estágio ou “cursinho” não estava aí para o direito.

De sua parte, ingressou cedo num destes “cursinhos” e também em estágio público, ou seja, em algum órgão público de caráter jurídico. A primeira vez que foi tirar cópias no fórum, de paletó e gravata, Quesalid ficou abismado ao ser reiteradamente tratado de “doutor”. Ele, que tão se julgava reles, percebeu que, no direito, precisa-se muito pouco para se tornar um “doutor”. E percebeu mais: a tal “transformação de um corpo de doutores em um corpo de doutrina” referia-se a “doutores” como ele. Diferente de outras áreas, o “doutor” no direito não necessita defender uma tese de doutorado, mas aderir a uma série de práticas e símbolos.

Percebia Quesalid que na faculdade não era diferente. Nunca um colega seu se importou com a tese de doutorado do professor, ou mesmo se ele tinha o título. Seja título de doutor ou de mestre. Parecia importante e era a medida do respeito e da freqüência às aulas o “cargo” que o professor ocupava.

Cedo Quesalid descobriu que a tradição jurídica brasileira, francesa e alemã chamava-se civil law, e a dos Estados Unidos e Inglaterracommon law. Porém, como seria lógico, aquilo que ele percebia como um esvaziamento do curso de graduação em direito em detrimento do aprendizado prático e dos “cursinhos” seria típico da tradição common law, onde os práticos exercem hegemonia. Já no civil law deveria ser predominante um direito justamente de caráter universitário, onde o juiz “não é mais que um instrumento, o servidor, de uma multidão de textos e regulamentações”. (...) Onde “a doutrina exerce uma influência considerável, tanto sobre o legislador, o juiz, o advogado e o estudante”[5].

Mas então, que se ensina na faculdade de direito? Em primeiro lugar, lei, jamais direito. Quesalid começou a fazer um exercício interessante: comparou o fluxograma do curso com os Códigos vigentes. Disciplinas como Direito Civil, Penal, Comercial e Processos Civil e Penal seguem a mesma divisão que o respectivo Código estabelece. Em segundo lugar, jurisprudência, mas de uma forma muito curiosa. A jurisprudência no Brasil parece doutrina. Geralmente explicita uma posição dos juízes sobre as leis ou o direito, muito pouco sobre os fatos que são objeto do julgamento. Lembrou-se Quesalid da vez que visitou uma sessão de Tribunal do Júri, onde o réu e os jurados assistiam estupefatos a uma discussão entre o defensor e o promotor. Discutiam algum aspecto “doutrinário” acerca da legítima defesa. Reivindicavam, de um lado, um jurista italiano e de outro, alemão. O réu, torcendo para que estivesse certo aquele que o favorecia, torcia mais ainda para que os jurados fossem convencidos disto. A um ponto, ele não sabia mais se tinha realmente agido em legítima defesa ou simplesmente praticado homicídio.

Isto por si só reforçava a fé de Quesalid no poder dos juízes, quando, pouco depois, começou a perceber que também publicavam livros jurídicos e ocupavam importantes fatias da vida universitária do direito. Não apenas juízes, evidentemente, mas não se podia negar que dentre todos os “operadores do direito”, estes eram os que hegemonizavam a área, eis que co-autores nesta “jurisdoutrina”. A faculdade também mostrou a Quesalid outros aspectos curiosos, como os inúmeros Códigos Comentados e Anotados, bem à moda dos milenares glosadores. É também comum aos juristas atribuir a origem das instituições a documentos de natureza arqueológica, como o Código de Hammurabi, Manu, as Leis Mosaicas ou mesmo a lei de Talião. Porém o ponto mais contraditório que experimentou Quesalid foi a reprodução do formato das batalhas judiciais no trabalho “doutrinário” do Direito. No direito o que se escrevem são libelos, não teses. Aliás, costuma se designar por “tese” uma estratégia processual, um conjunto de argumentos, que levarão a causa à vitória. O autor de qualquer argumento, no direito, o constrói justamente como se estivesse construindo uma defesa de caso, e a solução geralmente é dada como uma opção entre teses, que, sem qualquer recurso ao “real”, se presta muito mais à função de uma sentença. Luciano Oliveira percebe este fenômeno como “reverencialismo”, ou o recurso a autores na busca de argumentos de autoridade, que se condensam e denunciam em expressões do tipo “na melhor doutrina”, “como preleciona fulano de tal”, ou “segundo o magistério de sicrano”...[6]. É assim que se formam as ditas “correntes”, que variam sobre os diversos temas. É curioso como um autor pode se filiar a mais de mil “correntes”, pois, sobre, por exemplo, se um prazo é de quinze ou dez dias, podem haver duas correntes ou mais. Não paramos por aí: todas as correntes, de uma forma geral, estão corretas e embasam suficientemente uma decisão jurídica. Portanto, ao juiz cabe dizer qual a “melhor doutrina” e com base nela julgar... e de forma legitimamente reconhecida pelos demais juristas! Quando para escrever outro trabalho, sobre informatização dos Tribunais brasileiros, descobri algo bastante interessante. Se um advogado consultar um prazo recursal pela página do Tribunal, e vir a perde-lo em virtude de uma descontinuidade entre a página e o Diário Oficial, o que pode fazer? Se seu recurso Especial for distribuído para a primeira ou terceira turmas do Superior Tribunal de Justiça, ele perde o prazo mesmo. Mas, se tiver “sorte” e seu recurso “cair” na segunda ou quarta turmas, o prazo lhe será devolvido[7]. Portanto, no direito são legitimadas as mais diferentes posições, basta que embasadas por uma “corrente”. É justamente isto que possibilita o surgimento do que se chama de “ativismo judicial, ou “república de juízes”, ou ainda “protagonismo judicial”. É quando os juízes optam entre uma ou outra “corrente” no sentido de alterar a realidade social[8]. Situação que se vê potencializada na resenha bibliográfica de Boaventura, demonstrando estudos de Shubert, Treves e Grossman, pesquisadores que puseram a nu a concepção de neutralidade dos magistrados nos Estados Unidos e Europa, comprovando que a ideologia, “conservadora” ou “liberal”, determina de maneira significativa sua produção de decisões[9]. No mesmo quadro de pensamento, Mayhew afirma que, em maior ou menor grau, a estrutura do Poder Judiciário reflete o grau de estratificação da comunidade que o entorna, seja pela seleção do júri, pela forma de recrutamento dos profissionais da carreira ou mesmo pela escolha dos direitos que serão discutidos em juízo[10].

Lévi-Strauss é quem responde a esta questão sob uma clivagem científica. Na comparação entre xamãs e psiquiatras, afirma que nas atividades não sujeitas a um controle científico o pensamento normal e o patológico não se distinguem, mas ao contrário, se completam. E parece falar do direito o autor na seguinte passagem sobre a experiência vivida pelos demais membros da sociedade onde o xamã cura e o psiquiatra trata: “Na ausência de todo o controle experimental, que não é necessário e nem mesmo exigido, é esta experiência só, e sua riqueza relativa em cada caso, que pode permitir a escolha entre diversos sistemas possíveis, e acarretar a adesão a tal escola ou a tal prático”[11].

Quesalid chegou a se indagar sobre uma possível correlação entre o direito e a religião. Seja pelas liturgias, pelo caráter “doutrinário” do pensamento, pela forma dogmática de interpretar os textos ou mesmo pela indumentária ou arquitetura. Garapon afirma ser o direito atividade rígida no sentido de ter hora e lugar. E este lugar é carregado de significações e marcas religiosas