Leitura para Atividade Estruturada 6
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Leitura para Atividade Estruturada 6


DisciplinaSociologia Jurídica6.491 materiais51.719 seguidores
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fator do cotidiano dos \u201cconcurseiros\u201d rapidamente saltou aos olhos de Quesalid: o clima de competição. Sonegação de informações, \u201ctoques\u201d e matéria eram a forma de efetuar boicotes interpessoais com os \u201cconcorrentes\u201d. Quesalid, \u201cpegando a malandragem\u201d, rapidamente organizou um \u201cgrupo de mútua-ajuda\u201d, onde os membros se revezavam em uma verdadeira \u201cgincana\u201d de compilação e organização da matéria do concurso. Chegou ao ponto de Quesalid considerar-se verdadeira \u201ccentral de matéria\u201d. Todos estes artifícios claramente eram parte de um complicado entrelaçar de maneirismos necessários para se tornar um juiz. Porém, aquele que se poderia chamar de ars magna era o \u201cmacete da controvérsia\u201d. Quesalid \u201csacou que os caras se amarravam\u201d no \u201cmacete da controvérsia\u201d. Ele consistia em \u201cinventar uma controvérsia sobre um assunto da moda e depois se posicionar a seu respeito\u201d, quando de uma questão do concurso. Dava certo em provas e simulados. Daria também no concurso.
Quando Quesalid foi aprovado na primeira fase do certame, passou a freqüentar o curso intensivo, diretamente voltado para as especificidades da fase seguinte. Noite após noite Quesalid se via tomado de \u201cexaustão intelectual\u201d.
Ao passar para a terceira fase, a prova oral, Quesalid se viu alvo de um sem-número de \u201ctoques\u201d. Os mais recorrentes eram referentes à indumentária. Mulheres deveriam se apresentar \u201ccom saia até o joelho, meia fina, sapato fechado, cabelos lisos, brincos curtos rente ao lóbulo, unhas curtas e claras e maquiagem leve\u201d. Homens deveriam se apresentar de \u201cterno escuro, barba feita e cabelo curto\u201d. A utilização de indumentária de baixa qualidade era fortemente desaconselhada, porque os \u201cavaliadores velhos sabem o que é bom\u201d. A prática de \u201cdar um toque\u201d estabelecia um \u201ccódigo implícito\u201d entre \u201cconcurseiros\u201d e concursados. A prova oral era marcada por algumas peculiaridades. Ao invés do currículo do candidato, o examinador, juiz, exibia e copiosamente folheava um dossiê, a \u201cpasta\u201d do candidato, não seu currículo. Após mais de um ano de dedicação exclusiva na função de \u201cconcurseiro\u201d, sem natal, carnaval e finais de semana, Quesalid viu-se exposto ao que chamou de \u201cexcrescências da pessoalidade\u201d. Quesalid esteve durante muito tempo movido pela idéia de que parentes de juízes teriam \u201cvantagens\u201d na tentativa de ingresso no Poder Judiciário. É o que pesquisa recente chamou de \u201crecrutamento endógeno\u201d, e efetuou levantamento quantitativo o qual concluiu que 12,4% do recrutamento no Judiciário brasileiro é de filhos, sobrinhos e netos de magistrados, 15,4% de irmãos ou primos e 4,6% de pais ou tios[18]. Em termos qualitativos, Quesalid observou que, ao menos na prova oral, os examinadores \u201cpegavam bem mais leve\u201d quando se tratava de endogenia.
Quesalid passou por examinadores severos, outros nem tanto. Após uma saraivada de \u201cgrosserias e foras\u201d, foi indagado por um examinador sobre a existência de duas \u201ccorrentes\u201d sobre determinado assunto. O examinador, antes de perguntar a Quesalid sua opinião, se reivindicou partidário de uma das correntes. Como que ungido repentinamente, a saída encontrada por Quesalid foi a de citar um exemplo \u2013 ilustrado por uma metáfora \u2013 sobre a \u201ccontrovérsia\u201d, justamente dado por aquele examinador quando de aula sua na Escola da Magistratura. A resposta do examinador foi: \u201cvocê ouviu a minha fita?!?\u201d Quesalid jamais foi demovido da idéia de que aquela \u201ciluminação\u201d exerceu papel \u201ccrucial\u201d no sentido de sua aprovação no concurso, o que somente fez reforçar o papel da \u201cmalandragem\u201d na trajetória de um \u201cconcurseiro\u201d. 
4. S.Exa. Quesalid 
Quando Quesalid ouviu lido seu nome na lista de aprovados, foi às lágrimas. \u201cPessoas que cagavam pra ele passaram a ser amigas\u201d. Temia, entretanto, que muitos \u201ccasos\u201d célebres contados em mesas de bar fossem por ele reproduzidos. Dentre os mais famosos estavam os de \u201ccarteiradas\u201d dadas por juízes, ou seja, situação onde se valiam de sua função para demonstrar sua hierarquia e status social. E os casos iam desde o que deu voz de prisão ao guarda de trânsito que o multara até o que reservava vaga para si na rua onde residia. Ser juiz no Brasil não é ocupar uma função pública. O juiz é muito mais servido que servidor. Isto porque vivemos em uma sociedade absolutamente marcada pela formação de uma \u201cesfera moral\u201d em torno da pessoa, balizada pelo grau de relações pessoais que esta mantém com os demais, ainda que apenas presumido[19]. Portanto, a pessoa, para tornar-se indivíduo, necessita sempre estabelecer relações com os demais mediadas pelo \u201csabe com quem está falando\u201d; onde sempre haverá alguém disposto a obedecer e outro disposto a exercer poder. Frise-se que isto não ocorre em função das prerrogativas legais ou poderes de Estado, mas pela real ou presumida vascularização da pessoa num emaranhado de relações pessoais privilegiadas que a permitem ostentar toda uma instituição no seu cotidiano, o chamado \u201ccorpo da magistratura\u201d. É por isto que o juiz não é juiz apenas quando julga, mas ser juiz é identidade que faz rodear o indivíduo, ao menos, da presunção de que ele conhece outros juízes, promotores, delegados de polícia entre outras \u201cautoridades\u201d, e com elas mantém relações privilegiadas e revividas pelo cotidiano da profissão, construindo assim um \u201cespírito de corporação\u201d. E a expressão \u201ccarteirada\u201d quer dizer exatamente \u201cmostrar a carteira de identidade\u201d, ou, a carteira funcional, que passa a ser a nova comprovação pública acerca de quem se é. Como já dissemos, \u201cTribunal\u201d não existe senão como a materialização de uma série de relações sociais altamente vascularizadas e simbolicamente representadas. O juiz é um dos indivíduos de quem se presume um peso organizacional enorme, e daí vem o seu poder. Em diferente grau podemos atribuir o mesmo efeito aos militares, policiais e políticos. Quesalid pôde experimentar este poder pela primeira vez quando esteve presente em evento ocorrido no Tribunal regional Federal da 2aRegião, no Rio de Janeiro. Ao chegar, recebeu do cerimonial um \u201ccrachá de autoridades\u201d[20], onde deveria preencher com seu nome e cargo.
À aprovação seguiram-se três dias de curso de \u201ccoisas institucionais\u201d, onde Quesalid aprendeu sobre as suas prerrogativas funcionais, benefícios, plano de saúde e associações regionais e nacionais de magistrados.
Outro componente que contribui para o poder simbólico dos juízes é a auto-referenciação. Claude Lévi-Strauss, ao descrever as três fontes de resistência ao desenvolvimento nos fornece ponto de partida para esta descontinuidade cultural, aqui concebida em um campo específico de práticas profissionais. Afirma o autor que três são estas fontes: a vontade de unidade, o respeito pela natureza e a negação da história[21]. Aqui nos interessa particularmente a reiterada negação dos Tribunais em si como fruto de um devir histórico e social. No dizer de Lévi-Strauss, a modernidade foi construída para mudar, para a transformação, enquanto os tribunais têm um espírito que manca. Esta relação patológica com a história, se de um lado agrega valores eficazes à instituição, de outro a afasta e torna impermeável e estranha ao contexto da vida presente. Latour relata que quando esteve presente na comemoração do bicentenário do Conselho de Estado Francês, em 1999, a figura de Napoleão Bonaparte foi a escolhida para ilustrar o aniversário da instituição. Sua estranheza vem do fato de que a separação de uma jurisdição administrativa da judiciária tem gerado um sem número de polêmicas e protestos na França, e mesmo assim o Conselho escolhe o símbolo de alguém que encarna em sua pessoa o próprio Estado[22]. Após um longo ensaio sobre o ritual judiciário, Garapon afirma que \u201cFoi através do espetáculo, (...) de uma delimitação do espaço e de uma suspensão do tempo, de uma renúncia ao imediatismo, que assistimos a passagem de uma vingança arcaica para o Direito\u201d[23]. E conclui pela enorme disfunção simbólica que se deparam hoje os tribunais, uma vez que a democracia é inimiga dos símbolos.
Após o curso de \u201ccoisas institucionais\u201d, seguiram-se quatro