Leitura para Atividade Estruturada 6
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Leitura para Atividade Estruturada 6

Disciplina:Sociologia Jurídica e Judiciária1.871 materiais14.930 seguidores
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fator do cotidiano dos “concurseiros” rapidamente saltou aos olhos de Quesalid: o clima de competição. Sonegação de informações, “toques” e matéria eram a forma de efetuar boicotes interpessoais com os “concorrentes”. Quesalid, “pegando a malandragem”, rapidamente organizou um “grupo de mútua-ajuda”, onde os membros se revezavam em uma verdadeira “gincana” de compilação e organização da matéria do concurso. Chegou ao ponto de Quesalid considerar-se verdadeira “central de matéria”. Todos estes artifícios claramente eram parte de um complicado entrelaçar de maneirismos necessários para se tornar um juiz. Porém, aquele que se poderia chamar de ars magna era o “macete da controvérsia”. Quesalid “sacou que os caras se amarravam” no “macete da controvérsia”. Ele consistia em “inventar uma controvérsia sobre um assunto da moda e depois se posicionar a seu respeito”, quando de uma questão do concurso. Dava certo em provas e simulados. Daria também no concurso.

Quando Quesalid foi aprovado na primeira fase do certame, passou a freqüentar o curso intensivo, diretamente voltado para as especificidades da fase seguinte. Noite após noite Quesalid se via tomado de “exaustão intelectual”.

Ao passar para a terceira fase, a prova oral, Quesalid se viu alvo de um sem-número de “toques”. Os mais recorrentes eram referentes à indumentária. Mulheres deveriam se apresentar “com saia até o joelho, meia fina, sapato fechado, cabelos lisos, brincos curtos rente ao lóbulo, unhas curtas e claras e maquiagem leve”. Homens deveriam se apresentar de “terno escuro, barba feita e cabelo curto”. A utilização de indumentária de baixa qualidade era fortemente desaconselhada, porque os “avaliadores velhos sabem o que é bom”. A prática de “dar um toque” estabelecia um “código implícito” entre “concurseiros” e concursados. A prova oral era marcada por algumas peculiaridades. Ao invés do currículo do candidato, o examinador, juiz, exibia e copiosamente folheava um dossiê, a “pasta” do candidato, não seu currículo. Após mais de um ano de dedicação exclusiva na função de “concurseiro”, sem natal, carnaval e finais de semana, Quesalid viu-se exposto ao que chamou de “excrescências da pessoalidade”. Quesalid esteve durante muito tempo movido pela idéia de que parentes de juízes teriam “vantagens” na tentativa de ingresso no Poder Judiciário. É o que pesquisa recente chamou de “recrutamento endógeno”, e efetuou levantamento quantitativo o qual concluiu que 12,4% do recrutamento no Judiciário brasileiro é de filhos, sobrinhos e netos de magistrados, 15,4% de irmãos ou primos e 4,6% de pais ou tios[18]. Em termos qualitativos, Quesalid observou que, ao menos na prova oral, os examinadores “pegavam bem mais leve” quando se tratava de endogenia.

Quesalid passou por examinadores severos, outros nem tanto. Após uma saraivada de “grosserias e foras”, foi indagado por um examinador sobre a existência de duas “correntes” sobre determinado assunto. O examinador, antes de perguntar a Quesalid sua opinião, se reivindicou partidário de uma das correntes. Como que ungido repentinamente, a saída encontrada por Quesalid foi a de citar um exemplo – ilustrado por uma metáfora – sobre a “controvérsia”, justamente dado por aquele examinador quando de aula sua na Escola da Magistratura. A resposta do examinador foi: “você ouviu a minha fita?!?” Quesalid jamais foi demovido da idéia de que aquela “iluminação” exerceu papel “crucial” no sentido de sua aprovação no concurso, o que somente fez reforçar o papel da “malandragem” na trajetória de um “concurseiro”. 

4. S.Exa. Quesalid 

Quando Quesalid ouviu lido seu nome na lista de aprovados, foi às lágrimas. “Pessoas que cagavam pra ele passaram a ser amigas”. Temia, entretanto, que muitos “casos” célebres contados em mesas de bar fossem por ele reproduzidos. Dentre os mais famosos estavam os de “carteiradas” dadas por juízes, ou seja, situação onde se valiam de sua função para demonstrar sua hierarquia e status social. E os casos iam desde o que deu voz de prisão ao guarda de trânsito que o multara até o que reservava vaga para si na rua onde residia. Ser juiz no Brasil não é ocupar uma função pública. O juiz é muito mais servido que servidor. Isto porque vivemos em uma sociedade absolutamente marcada pela formação de uma “esfera moral” em torno da pessoa, balizada pelo grau de relações pessoais que esta mantém com os demais, ainda que apenas presumido[19]. Portanto, a pessoa, para tornar-se indivíduo, necessita sempre estabelecer relações com os demais mediadas pelo “sabe com quem está falando”; onde sempre haverá alguém disposto a obedecer e outro disposto a exercer poder. Frise-se que isto não ocorre em função das prerrogativas legais ou poderes de Estado, mas pela real ou presumida vascularização da pessoa num emaranhado de relações pessoais privilegiadas que a permitem ostentar toda uma instituição no seu cotidiano, o chamado “corpo da magistratura”. É por isto que o juiz não é juiz apenas quando julga, mas ser juiz é identidade que faz rodear o indivíduo, ao menos, da presunção de que ele conhece outros juízes, promotores, delegados de polícia entre outras “autoridades”, e com elas mantém relações privilegiadas e revividas pelo cotidiano da profissão, construindo assim um “espírito de corporação”. E a expressão “carteirada” quer dizer exatamente “mostrar a carteira de identidade”, ou, a carteira funcional, que passa a ser a nova comprovação pública acerca de quem se é. Como já dissemos, “Tribunal” não existe senão como a materialização de uma série de relações sociais altamente vascularizadas e simbolicamente representadas. O juiz é um dos indivíduos de quem se presume um peso organizacional enorme, e daí vem o seu poder. Em diferente grau podemos atribuir o mesmo efeito aos militares, policiais e políticos. Quesalid pôde experimentar este poder pela primeira vez quando esteve presente em evento ocorrido no Tribunal regional Federal da 2aRegião, no Rio de Janeiro. Ao chegar, recebeu do cerimonial um “crachá de autoridades”[20], onde deveria preencher com seu nome e cargo.

À aprovação seguiram-se três dias de curso de “coisas institucionais”, onde Quesalid aprendeu sobre as suas prerrogativas funcionais, benefícios, plano de saúde e associações regionais e nacionais de magistrados.

Outro componente que contribui para o poder simbólico dos juízes é a auto-referenciação. Claude Lévi-Strauss, ao descrever as três fontes de resistência ao desenvolvimento nos fornece ponto de partida para esta descontinuidade cultural, aqui concebida em um campo específico de práticas profissionais. Afirma o autor que três são estas fontes: a vontade de unidade, o respeito pela natureza e a negação da história[21]. Aqui nos interessa particularmente a reiterada negação dos Tribunais em si como fruto de um devir histórico e social. No dizer de Lévi-Strauss, a modernidade foi construída para mudar, para a transformação, enquanto os tribunais têm um espírito que manca. Esta relação patológica com a história, se de um lado agrega valores eficazes à instituição, de outro a afasta e torna impermeável e estranha ao contexto da vida presente. Latour relata que quando esteve presente na comemoração do bicentenário do Conselho de Estado Francês, em 1999, a figura de Napoleão Bonaparte foi a escolhida para ilustrar o aniversário da instituição. Sua estranheza vem do fato de que a separação de uma jurisdição administrativa da judiciária tem gerado um sem número de polêmicas e protestos na França, e mesmo assim o Conselho escolhe o símbolo de alguém que encarna em sua pessoa o próprio Estado[22]. Após um longo ensaio sobre o ritual judiciário, Garapon afirma que “Foi através do espetáculo, (...) de uma delimitação do espaço e de uma suspensão do tempo, de uma renúncia ao imediatismo, que assistimos a passagem de uma vingança arcaica para o Direito”[23]. E conclui pela enorme disfunção simbólica que se deparam hoje os tribunais, uma vez que a democracia é inimiga dos símbolos.

Após o curso de “coisas institucionais”, seguiram-se quatro