Leitura para Atividade Estruturada 6
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Leitura para Atividade Estruturada 6

Disciplina:Sociologia Jurídica e Judiciária1.871 materiais14.930 seguidores
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meses de “curso de formação”. Pela manhã, Quesalid assistia a palestras sobre os mais variados assuntos, que, além de filmadas (filmava-se quem assistia, não quem falava) eram supervisionadas por um “juiz fiscal”. À tarde, prática de magistratura, revezando entre juizados especiais, varas cíveis e criminais. Nestas “práticas” é que Quesalid pôde observar como, de um modo geral, todos querem estar próximos do juiz, e quiçá, ser um juiz. A situação foi a seguinte: “A conciliadora conversava ao telefone com uma conhecida dizendo que trabalhava para um deputado e que ‘estava bem vestida, tão arrumada que se o pessoal lá da comunidade me visse vestida assim iria pensar que sou louca; mas é que agora estou com poder, sou juíza conciliadora, minha filha’”[24].

A avaliação geral de Quesalid e seus colegas era rigorosa. A formação era avaliada por quatro juízes. O “juiz fiscal”, já mencionado, um desembargador aposentado, um “juiz supervisor”, que tirava dúvidas por telefone, e o juiz de onde o recém aprovado era designado para a tarde de formação prática. Na ficha de avaliação deste último juiz, também constavam os quesitos “postura” e “aparência”.

Porém o ofício de juiz consiste especificamente em julgar. E julgar também comporta uma série de técnicas a serem socialmente aprendidas. Quesalid aprendeu que, assim como na comparação de Latour, um processo é análogo a um teste laboratorial[25]. O processo visa reconstruir o acontecido assim como nas ciências o laboratório tem a função de reproduzir em ambiente controlado determinado estado do objeto que se visa entender. O juiz coleta provas (documentos, perícias e testemunhos) enquanto o cientista coleta dados e elementos. Porém, como já vimos, a diferença fundamental entre os dois é o controle experimental. Um engenheiro não pode projetar uma ponte mercê de técnicas socialmente aprendidas, mas tecnicamente. Isto porque não há meio social que legitime uma ponte que venha a ruir e despencar. Já o juiz pode aplicar a “melhor doutrina” e mais: ele mesmo resolver o caso, criando a nova realidade e não se curvando aos desígnios do real. E o faz de uma maneira muito específica. Miaille aponta o método cartesiano da lógica formal[26] como de emprego corrente no campo jurídico. A lógica formal é o elemento que de fato cria outra realidade que se encaixe no emaranhado de previsões jurídicas para casos concretos. Quando um conflito é levado à justiça estatal, ele é desmembrado nos seus mais ínfimos pormenores e cada um deles analisado mercê das previsões legais ou decisões anteriores em casos análogos. Ou seja, muitos autores e réus, ao verem sua petição ou defesa, simplesmente não reconhecem no que está escrito a estória contada ao advogado. O que pode haver de pior na lógica formal não é o não-reconhecimento da tradução para o “juridiquês”, mas a real impossibilidade de previsão, por parte dos não-iniciados, acerca de como o campo jurídico tratará suas mais simples ações praticadas em sociedade. Eis aí no julgar verdadeiro exercício de monopólio.

Quesalid, uma certa noite, à mesa de bar com amigos, após narrar sua juridisséia, concluiu: “ainda assim acredito no sistema, o Tribunal tem melhorado muito”, num elogio à “instituição como um todo”. 

5. Conclusão: a desconstrução do personagem 

São duas as matizes pelas quais podemos “medir” o poder dos juízes em cada sociedade: a histórica e a sociológica.

A matriz histórica diz respeito não ao sistema jurídico de determinado país, mas a sua tradição. Como observa Merryman[27], ao contrário do que se poderia pensar, a tradição do civil law não é protagonizada pelos legisladores, mas pelos professores-acadêmicos, ou juristas-doutrinadores. Isto porque é um direito baseado na interpretação de textos os quais induzem preceitos e princípios gerais, à luz dos quais a legislação positiva vai sendo interpretada e reinterpretada. Analogamente à moda dos glosadores e pós-glosadores da idade média, quecriavam o direito a partir da aplicação de técnicas de interpretação (hermenêutica, exegética...) ao Corpus Iuris Civilis do imperador Justiniano, um ordenamento jurídico representativo de uma ordem social e política extinta. Os juízes do civil law seriam portanto, simplesmente, “seres inanimados (...) a boca pela qual fala a lei”, no dizer de Montesquieu. Por outro lado, a tradição do common law teria o juiz como protagonista, uma vez que reconhece no costume (ou seja, nas práticas e usos do que se configura como a moral social) a regra jurídica aplicável às condutas[28]. O julgamento de caso a caso, e conseqüentemente a formação de um complexo corpo jurisprudencial, é a fonte criadora de direito no mundo do common law.

Recorrentemente a análise da tradição jurídica a qual pertence uma sociedade, deve-se examiná-la no ponto específico em que as relações sociais, materializadas em práticas profissionais, delimitam o que podemos chamar de campo jurídico. Seria o campo jurídico formado por agentes e regido por normas, as quais basicamente delimitam um capital a ser disputado e conseqüentemente induzem uma clivagem entre os agentes. A hegemonia é de quem detém maior quantidade de capital. Bourdieu, autor da teoria dos campos, identifica que no campo jurídico, assim como em diversos outros campos, a elaboração das regras é fruto de uma peculiar divisão do trabalho, entre frentes antagônicas e ao mesmo tempo complementares entre si, e a dinâmica própria de seu embate delimita qual o capital a ser disputado. O autor identifica que as posições em disputa são as de “teórico” e a de “prático”[29]. Por sua vez, o capital em disputa no campo é o poder de dizer o que é o direito. Bourdieu induz em seu leitor uma disputa constante entre a Universidade e os Tribunais pelo acúmulo da legitimação simbólica de dizer o que é o direito.

Nossa conclusão não seria simples ao ponto de afirmar que na tradição do civil law os acadêmicos teriam a hegemonia sobre o capital jurídico e na common law a teriam os juízes. Não teríamos escrito tanto para concluir tão pouco.

De fato, o que ocorre no Brasil é uma colonização da academia pelos práticos. E isto não significa afirmar que cada vez mais juízes estão fazendo as vezes de acadêmicos, pois é justamente o contrário. É comum no Brasil hoje o acadêmico de profissão que escreve manuais de doutrina absolutamente voltados para a satisfação das demandas oriundas do campo prático. É progressiva a necessidade de tomada de posições ou filiação a determinada “corrente”. E o campo prático, evidentemente permeado pelo pragmatismo e pelo positivismo normativista, pauta as discussões jurídicas não em cima do costume – o que seria próprio do direito dos juízes, o common law – ou mesmo de questões teóricas ou científicas, mas faz reproduzir a “ciência jurídica” a partir de um entendimento próprio e isolado da realidade social ou mesmo dos fatos discutidos no processo. Sentenças e acórdãos cada vez mais se parecem com os tradicionais livros de doutrina. Não exprimem uma solução jurídica para um caso concreto, mas a adesão a uma determinada “corrente” do pensamento jurídico, formando uma verdadeira doutrina de julgados, o que legitima situações como a narrada anteriormente, no caso do prazo perdido em função de uma descontinuidade entre a página eletrônica do Tribunal e o Diário Oficial.

Esta é a forma pela qual os juízes hoje hegemonizam todo o espaço do campo jurídico, o que, nunca é demais repetir, ocorre independentemente das suas vontades, é uma dinâmica atual do campo, o que vem sendo progressivamente por alguns confundida como uma convergência de tradições. Porém, o direito brasileiro nada tem de common law. Aqui a cultura do precedente é deveras depreciada, principalmente porque num mesmo Tribunal o mesmo fato pode ser passível de duas soluções distintas, dependendo do “entendimento” do julgador.

Mas e a institucionalização e o arsenal simbólico? São armas poderosíssimas nesta empreitada hegemonizadora, mas não seu cerne. Apenas ajudam a fazer pender para o lado do juiz a balança do controle do capital do