Direito Romano
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todos, 
foi preciso de um lado preencher as lacunas da lei das XII Tábuas e, de 
outro lado, adaptar a lei às necessidades em permanente modificação pela 
prática. Este trabalho de acomodação é a interpretatio, obra de 
jurisconsultos, iurisprudentes ou, simplesmente, prudentes. 
 
O termo jurisprudência (iurisprudentia) designava, em Roma, a ciência 
do direito. Modernamente o termo jurisprudência tem um significado muito 
diferente: designa um conjunto de decisões continuadas dos tribunais 
superiores. O conceito romano corresponde, então, mais ao moderno 
conceito de doutrina. 
 
História da interpretatio prudentium. \u2013 Podemos dividir a história da 
jurisprudência romana em três fases. 
 
1º. \u2013 A ciência dos pontífices. \u2013 Fase esotérica. \u2013 Até o século IV a.C. a 
ciência do direito é monopólio do colégio dos pontífices, que a guardam em 
segredo, isto é, é esotérica. Sem dúvida, o direito teórico era conhecido de 
todos desde a publicação das XII Tábuas. Mas o que continuava 
desconhecido do vulgo era a prática do direito. Para praticar os atos 
jurídicos ou demandar em juízo era preciso conhecer o calendário e saber 
quais os dias fastos, dies fasti (dias permitidos pelos deuses). As ações 
exigiam o pronunciamento de fórmulas, conhecidas somente pelos 
pontífices. Cabia a eles a interpretação das leis, bem como a condução dos 
ritos da prática jurídica negocial e processual. Neste mister, os pontífices 
mantiveram-se conservadores, sem acompanhar as necessidades da nova 
economia, que se tornava cada vez mais baseada no mercado internacional 
e na expansão territorial. 
 
2º - A divulgação da ciência dos pontífices. \u2013 Fase de vulgarização. Um 
certo Cneus Flavius, escriba do patrício Appius Claudius Caecus, em 
aproximadamente 300 a.C., divulgou, em uma coleção chamada ius 
Flavianum, as fórmulas das ações da lei, até então guardadas em segredo 
pelos pontífices, assim como o calendário que estabelecia os dias fasti para 
pleitear em juízo. Os plebeus puderam assim se dedicar, como os patrícios, 
ao estudo do direito, bem como dar consultas em público. Tibério 
Coruncânio foi o primeiro a dar consultas públicas, cinqüenta anos após a 
publicação do ius Flavianum. 
 
A função dos jurisconsultos. \u2013 Segundo Cícero, o jurisconsulto deve ser 
ad respondendum et ad agendum et ad cavendum peritus; isto é, ele deve 
estar apto a: 
 
1º Respondere: dar consultas orais ou escritas; as consultas dos juristas 
se chamam responsa prudentium. 
 
2º Agere: assistir o cliente nos processos. 
 
3º Cavere: assistir o cliente na redação dos atos jurídicos. 
 
 
3º - Fase de sistematização da ciência do direito. \u2013 Com Quintus Mucius 
Scaevola, cônsul em 95 a.C., começa o período de sistematização do 
direito. Este jurista, o mais célebre da época, deixou um ius civile, em 18 
volumes, a primeira exposição metódica do direito civil, o qual foi 
freqüentemente comentado pelos juristas imperiais. 
 
Outros juristas famosos do final da República foram Sextus Aelius Peto 
Catus (o mais antigo, cônsul em 198 a.C., autor de um ius Aelianum e de 
uma coleção em três partes, tripertita, sobre as XII Tábuas, a interpretatio 
prudentium e as legis actiones), M. Manilius (cônsul em 149 a.C.), P. Mucius 
Scaevola (cônsul em 133 a.C.) e M. Iunius Brutus, os quais são 
apresentados como os três fundadores do direito civil, autores de obras 
puramente práticas, sem finalidade de sistematização. Depois, Quintus 
Mucius Scaevola, cônsul em 95 a.C., com o qual se inicia o período de 
sistematização do direito. Seu discípulo Aquilius Gallus (pretor em 66 a.C.) 
e Servius Sulpicius Rufus, cônsul em 51 a.C. e autor do primeiro livro de 
comentários ao Edito, foram contemporâneos e amigos de Cícero. Estes 
juristas foram chamados, pelos de época posterior, de veteres, i.e., os 
antigos. 
 
A interpretatio prudentium era realmente fonte do direito na 
República? \u2013 A interpretatio prudentium não tinha ainda, na República, 
força obrigatória; não vinculava o julgador. Mas as decisões dos 
jurisconsultos adquiriram uma autoridade privada, moral, em razão 
especialmente do eminente prestígio de que gozavam no Estado romano. O 
conjunto de soluções, que os prudentes ofereciam, constituía um direito 
costumeiro novo, que servia de inspiração aos próprios magistrados, na 
redação dos seus editos, bem como aos jurados, nas soluções dos 
processos que eram a eles remetidos. 
 
5º. Os editos dos magistrados. \u2013 Definição \u2013 Os altos magistrados 
romanos, cônsules, censores, pretores, governadores de província, tinham o 
costume de publicar, no momento de sua eleição, as declarações (edicta), 
nas quais apresentavam os seus projetos. Eram geralmente escritos em 
letras negras sobre tábuas pintadas de branco (alba). Os títulos eram 
escritos em letras vermelhas (rubrae), daí a palavra rubrica. 
Dentre os edicta, os únicos que interessam às fontes do direito são os 
dos magistrados judiciários, investidos da função de dizer o direito 
(iurisdictio). Eram, em Roma, os editos dos pretores e dos edis curuis; nas 
províncias, os dos governadores e questores. O edito que teve o papel mais 
importante na formação do direito é o do pretor urbano, edictum urbanum. 
 
Influência do edito do pretor na formação do direito. Para explicar 
a influência do pretor na formação do direito romano, é preciso indicar 
brevemente quais foram as formas sucessivas de procedimento na 
República. 
 
1º Até o II séc. a.C.: o sistema das legis actiones. \u2013 A instância dividia-
se em duas fases sucessivas: a fase in iure e a fase apud iudicem. A função 
judiciária era dividida entre duas pessoas: o magistrado (pretor, edil curul 
etc.) e o juiz (iudex), um simples particular escolhido para uma 
determinada causa. 
 
Papel passivo do magistrado. \u2013 O magistrado dirige e organiza a 
instância, mas não julga a causa. Ele participa apenas da primeira fase da 
instância. Perante ele as partes apresentam, de forma solene, as suas 
pretensões contraditórias. O magistrado assegura-se de que foram 
rigorosamente observadas as formalidades previstas na lei e que não 
podem ser modificadas por ele. Nestas condições é compreensível que o 
pretor não podia exercer, naquele período, qualquer influência na solução 
do processo, nem sobre a formação do direito. 
 
2º A partir do II séc. a.C.: o procedimento formulário. Na metade do II 
séc. a.C. (ca. 149 a.C.) a lex Aebutia introduziu um novo sistema de 
procedimento, o procedimento por fórmula escrita, que permitiu ao 
magistrado de assumir um papel considerável na formação do direito. 
 
Papel ativo do magistrado. \u2013 As partes expõem ao magistrado, sem 
qualquer formalismo, suas pretensões contraditórias. Se entender correto, o 
pretor concede a eles uma fórmula escrita (formula), no qual se estabelece 
uma ordem ao juiz de condenar ou absolver, depois de analisar se os fatos 
dão fundamento às alegações do autor. A fórmula é um programa rígido 
que o juiz (iudex) deve seguir ao pé da letra. 
 
Importância do papel do pretor. \u2013 O pretor poderia recusar-se a entregar 
uma fórmula, mesmo quando as pretensões do autor estavam em 
conformidade ao direito civil. Ele também poderia conceder uma fórmula 
mesmo no caso de o direito civil não reconhecer ao autor qualquer direito. 
Enfim, ao confeccionar a fórmula, ele poderia até paralisar o efeito de um 
direito civil, outorgando uma exceção. 
Por isso é freqüente dizer que os pretores confirmam, complementam e 
corrigem o direito civil. 
 
O imperium do pretor. \u2013 Como o pretor, encarregado de aplicar a lei, 
pode ter o poder de alterá-la e de fazer nascer um direito novo? O pretor 
possuía, como todos os magistrados judiciários, a iurisdictio, o poder de 
dizer o direito, mas tinha também, como todos os magistrados superiores e 
outrora os reis, o imperium, o poder de tomar,