Leitura para atividase estruturada - aula 3a
4 pág.

Leitura para atividase estruturada - aula 3a

Disciplina:Sociologia Jurídica e Judiciária1.853 materiais14.768 seguidores
Pré-visualização3 páginas
Esse trabalho coletivo pretendia questionar as idéias aceitas sobre o Direito em nossa sociedade, assim como as formas como ele é ensinado na Universidade. Os mais conhecidos representantes dessa associação são Michel Miaille e Antoine Jeammaud. A associação logo se estendeu para Bélgica, Alemanha, Portugal, Espanha e Inglaterra, tendo, na América Latina, seus principais ecos no México, Brasil, Venezuela e Argentina.

            De acordo com Wolkmer [11], a teoria jurídica crítica representa:

            A formulação teórico-prática que se revela sob a forma do exercício reflexivo capaz de questionar e de romper com o que está disciplinarmente ordenado e oficialmente consagrado (no conhecimento, no discurso e no comportamento) em dada formação social e a possibilidade de conceber e operacionalizar outras formas diferenciadas, não repressivas e emancipadoras, de prática jurídica.

            Nesta linha de pensamento, podemos então conceber e operacionalizar práticas de pluralidade alternativa, a exemplo da resolução dos conflitos por via não-institucionalizada, forma diferenciada e emancipatória de prática jurídica.

            Na medida em que o órgão de jurisdição do modelo de legalidade estatal convencional torna-se funcionalmente incapaz de acolher as demandas e de resolver os conflitos inerentes às necessidades engendradas por novos atores sociais, nada mais natural do que o poder societário instituir instâncias extrajudiciais assentadas na informalidade, autenticidade, flexibilidade e descentralização. A constituição de outro paradigma da política e do jurídico está diretamente vinculada ao surgimento comunitário-participativo de novas agências de jurisdição não-estatais espontâneas, estruturadas por meio de processos de negociação, mediação, conciliação, arbitragem, conselhos e tribunais populares. [12]
            Com esta leitura, o pesquisador da UFSC aposta no poder de ação e de tomada de decisões da sociedade civil, aproximando-se da leitura crítica habermasiana.

            De acordo com o pensamento habermasiano, a legitimação pelo procedimento é diversa da legitimação pelo consenso. Isto significa que não basta que uma lei ou ato administrativo sejam produzidos conforme a circulação oficial do poder político Estatal, esse poder, tem que manter íntima conexão com o poder comunicativo gerado fora da circulação oficial para ser legítimo, isto é, depende da participação dos atores sociais no espaço público, do entendimento recíproco e consciente face ao processo de construção das normas, bem como do consenso em torno do conceito universal do justo, o que se dá por meio da linguagem e da razão comunicativa. [13]
            Resta evidente que uma teoria jurídica crítica busca um novo paradigma para a resolução de conflitos que emergem da vida sócio-comunitária; e se assim procede, é justamente para contestar o modelo caduco e superado de legalidade estatal convencional, um modelo insuficiente para resolver os conflitos que brotam das necessidades populares.

            Tomando emprestada esta definição, convém, nesta oportunidade, declinarmos as principais propostas de uma Teoria Crítica no Direito. Warat [14], por exemplo, aponta algumas propostas:

            a) mostrar os mecanismos discursivos a partir dos quais a cultura jurídica converte-se em um conjunto fetichizado de discursos;

            b) denunciar como as funções políticas e ideológicas das concepções normativistas do Direito e do Estado encontram-se apoiadas na falaciosa separação do Direito e da Política e na utópica idéia da primazia da lei como garantia dos indivíduos;

            c) rever as bases epistemológicas que comandam a produção tradicional da ciência do Direito, demonstrando como as crenças teóricas dos juristas em torno da problemática da verdade e da objetividade cumprem uma função de legitimação epistêmica, através da qual pretende-se desvirtuar os conflitos sociais, apresentando-os como relações individuais harmonizáveis pelo Direito;

            d) superar os bizantinos debates que nos mostram o Direito a partir de uma perspectiva abstrata, forçando-nos a vê-lo como um saber eminentemente técnico, destinado à conciliação de interesses gerais (...) Desta forma, a teoria crítica tenta recolocar o Direito no conjunto das práticas sociais que o determinam (...).

            Do exposto, consideramos que a Teoria Crítica é importante na medida em que confere ao Direito um sentido sociopolítico, combate o positivismo jurídico, bem como contesta o tipo de justiça apresentado por determinado ordenamento jurídico.

�
3 MONISMO E PLURALISMO JURÍDICO NA EUROPA
            O Direito, como se sabe, não foi sempre monista. Na tradição européia, o pluralismo jurídico tem suas raízes no Império Romano, já que os romanos não impuseram rigidamente seu Direito às populações conquistadas [15], permitindo uma certa liberdade para que as jurisdições locais e estrangeiras continuassem a aplicar seu Direito autóctone.

            De acordo com a pesquisa sociológica de Ehrlich [16], os romanos já conheciam e utilizavam fontes jurídicas não-estatais, representadas basicamente no chamado Direito costumeiro dos juristas. Duas fontes jurídicas romanas existiam naquela época: a privada e a pública. Esta representa o Direito elaborado pelo Estado, embora não seja propriamente uma lei estatal, ao passo que aquela representa o costume e a convicção popular.

            Na Idade Média, temos o fenômeno do pluralismo de jurisdições, isto é, nenhum grupo possui o controle de todos os aspectos da vida civil.

            Lima Lopes [17], na obra O Direito na História, fala sobre o pluralismo de jurisdições, quando faz considerações acerca da experiência do Direito Português do século XII.

            Havia em Portugal quatro sistemas jurisdicionais. O primeiro a) o comunitário-concelhio das comunidades camponesas. Sobreviveu nas zonas de fronteira sobretudo. Depois foi oficializado pelos forais e conviveu com o segundo sistema, b) o senhorial, tendo eles a primeira instância e os senhores a jurisdição de recurso ou apelação. O sistema senhorial originava-se do poder dos senhores sobre a sua própria casa (domus). Julgava vassalos e oficiais do senhor. Como Portugal se forma tanto enfeudando-se ao papa quanto no momento histórico de renascimento e crescimento do direito canônico, encontra-se também ali o sistema c) eclesiástico. Finalmente, existia o sistema d) régio, que se crê no direito de julgar os costumes e eliminar os que não são razoáveis.

            Atualmente, temos na Europa, a União Européia enquanto Estado-supranacional, qual seja uma ordem jurídica autônoma que convive e interage com as ordens jurídicas dos Estados Nações.

            Na Idade Moderna, aos poucos, o "monismo" foi se firmando. [18] Porém, a estatização do Direito se consolidaria de modo efetivo com o surgimento da racionalização política centralizadora, isto é, com a idéia hobbesiana da subordinação da justiça à vontade do monarca soberano.

            O certo é que, ao longo dos séculos XVII e XVIII, pouco a pouco o absolutismo monárquico e a burguesia vitoriosa emergente desencadearam o processo de uniformização burocrática que eliminaria a estrutura medieval das organizações corporativas, bem como reduziria o pluralismo legal e judiciário. Ainda que se possa encontrar as bases teóricas iniciais da cultura jurídica monista na obra de autores como Hobbes e no desenvolvimento do Estado-Nação unificado, foi com a República Francesa pós-revolucionária que se acelerou a disposição de integrar os vários sistemas legais sob a base da igualdade de todos perante uma legislação comum. [19]
            Antes de designarmos o "pluralismo", convém, previamente, falarmos brevemente sobre o "monismo".

            A Modernidade burguês-capitalista adotou um modelo burocrático, jurídico, ideológico, econômico e político, de acordo com os seus valores e interesses.

            Basicamente, portanto, temos os seguintes paradigmas: a sociedade burguesa, a economia