Leitura para atividase estruturada -aula 3
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Leitura para atividase estruturada -aula 3


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Social é anterior a toda organização de grupo e constitui uma associação igualitária de colaboração, sem qualquer hierarquização ou dominação. Os sujeitos jurídicos envolvidos nessa associação são pessoas coletivas complexas, que absorvem a multiplicidade dos membros do grupo na vontade única de uma corporação ou da organização. Assim, o Direito Social nasce \u201cda participação direta dos sujeitos interessados e de relações fundadas num esforço comum\u201d[21].
Gurvitch define da seguinte maneira seu Direito Social: \u201cNós definimos o direito social como um Direito de Integração, oposto tanto ao direito de separação delimitativa quanto ao direito de subordinação ou de dominação (...) produzido por cada fusão parcial para cada interpenetração do \u2018nós\u2019 que esta na base normal da vida de todo grupo\u201d[22].
Deve-se realçar, ainda, que Gurvitch estende estas suas idéias para o campo do pluralismo jurídico, já que atribui à sociedade contemporânea a presença de inumeráveis centros geradores de direito, identificado este pluralismo de Direitos como antiestatal, o que ratifica a postura adotada na concepção do Direito Social. De acordo com Renato Tréves, Gurvitch entende por pluralismo jurídico:
\u201ca doutrina segundo a qual o poder jurídico não reside somente no Estado, mas também em muitos outros entes diferentes e independentes do Estado; o direito do Estado não é o único direito existente, mas existem numerosos ordenamentos jurídicos diferentes e independentes do Estado; a lei do Estado não é a única nem a principal fonte do direito, mas unicamente uma destas fontes e nem sequer a principal (tradução nossa)\u201d[23].
A visão do pluralismo de Gurvitch, pois, é extremamente antiestatal e complexa. O elemento fundamental de sua teoria é a idéia de Direito Social, que tem sua fonte na coletividade organizada, na integração e na colaboração de grupos, que se manifestam em todas as comunidades humanas. Este Direito é o direito da \u201ctranspessoalidade\u201d e da democracia e se contrapõe ao Direito Individual, atrelado às idéias de coordenação que pode implicar na subordinação ou na dominação.
Mas deve-se enfatizar que a importância da doutrina deste autor não está necessariamente na formulação do pluralismo jurídico e do antiestatalismo, mas sim no seu pensamento revolucionário, complexo e denso, que foi arma de combate ao dogmatismo juspositivista em sua época. No entanto, em que pese toda a qualidade de seu trabalho, sua teoria ainda é de caráter conservador porque realiza uma análise positivista e muitas vezes mecanicista, distanciada de análises do funcionamento democrático e de certa forma limitada ao mapeamento histórico do Direito do Trabalho e do sindicalismo europeu das ultimas décadas do século XIX e primeiras décadas do século XX.
Continuador de Gurvitch na França, Henry Lévy-Bruhl adota uma postura de análise de natureza empírica que constata a existência de formas plurais tanto supraestatais como infraestatais, defendendo que \u201cuma simples vista de olhos sobre a vida social permite convencer-nos de que existem prescrições legais, ou pelo menos jurídicas, fora das que foram impostas pela autoridade política. Existiram, e existem hoje, direitos que não emanam da competência dos órgãos da sociedade global. Há direitos supranacionais e direitos infranacionais\u201d[24]. Cita como exemplos os direitos religiosos, os direitos das organizações internacionais e os direitos criados em agrupamentos humanos, mesmo nos Estados Modernos, quando legitimamente alteram as normas estatais vigentes, podendo permanecer em Estado latente, ou ser incorporada ao conjunto do sistema jurídico[25].
A contribuição de Boaventura de Sousa Santos ao pluralismo jurídico deu-se através de pesquisa realizada em favela no Rio de Janeiro, por ele denominada \u201cPasárgada\u201d, em que constata a vigência oficial ou não, num mesmo espaço geopolítico, de mais de uma ordem jurídica[26]. Nas palavras do autor:
\u201cO problema do pluralismo jurídico pode formular-se do seguinte modo. A construção teórica do presente trabalho assenta numa comparação/contraste entre o direito de Pasárgada e o direito estatal brasileiro enquanto expressão representativa do direito do estado capitalista contemporâneo. Pressupõe-se, desse modo, que no mesmo espaço geo-político, neste caso o estado-nação brasileiro haja mais do que um direito ou ordem jurídica. Mais concretamente, pressupõe-se que o direito de Pasárgada seja um autêntico direito\u201d.[27]
O  fundamento que o autor dá a este pluralismo jurídico é a questão da posse da terra e o direito de construção, bem como os conflitos daí decorrentes[28], isso tudo a partir de uma leitura tópica-retórica. As relações desenvolvidas a partir da necessidade interna do locus de regulamentar a posse de terra e outros conflitos a ela relacionados criou um sistema interno de normas que eram eficazes ali, principalmente no caso de homologação pela Associação de moradores. Desse modo, criou-se uma Justiça, que não a do Estado, mas a dos moradores.
A população local, consciente de seu estado de ilicitude, ao mesmo tempo que não tinha qualquer acesso estrutural aos mecanismos oficiais de ordenação e controle viam-se vetados a recorrer à polícia e aos tribunais por entenderem-se \u201cilegais\u201d e também por que a realidade Jurisdicional era-lhes bastante diferente da sua própria realidade. A partir disso, tornou-se possível a criação de um Direito paralelo ao Estatal, criando-se questões fundamentais referentes à maneira de se conceber o direito e à própria idéia de pluralismo jurídico.
Já Miranda Rosa enfocou a formação extralegislativa com força coativa, \u201cadvinda de associações e organizações sindicais, bem como advinda de regras e dos acordos entre grandes corporações industriais\u201d[29]. Também neste caso vê-se que o mapeamento do pluralismo jurídico está ligado ao movimento sindical e trabalhista (assim como na obra de Georges Gurvitch), o que impossibilita a discussão da pluralidade que extrapola esta seara, com fundamentação na participação ativa e emancipada de todos os sujeitos de direito na construção e resolução de qualquer forma jurídica.
Todas estas correntes iniciais que discutiram o pluralismo jurídico, todavia,  apresentaram teorias apenas \u201cperfilhando um pluralismo difuso e genérico\u201d[30], sem maiores formulações capazes de delinear um novo paradigma no direito, que evidenciasse a crise do paradigma dominante.
3. Pluralidade do direito nas perspectivas antropológica e transnacional
Divergindo dos enfoques anteriores, a partir dos anos sessenta houve um forte desenvolvimento das pesquisas de cunho antropológico do pluralismo jurídico, como  \u201ca tese de Leopold Pospsil sobre os \u2018níveis jurídicos\u2019 dos subgrupos constituídos, a teoria de Sally Falk Moore sobre os \u2018campos sociais semi-autônomos\u2019 e as formulações críticas mais recentes de John Griffiths\u201d.[31]
Dentre todos, destaca-se o trabalho mais atual de John Griffiths, de 1986, em que apresenta uma crítica às mais destacadas formulações do pluralismo jurídico que não rompem com o paradigma dominante do monismo estatal, entendendo este como um mito, que prejudica o desenvolvimento da moderna teoria do Direito.  O autor distingue duas modalidades de pluralismo jurídico, uma permitida pelo próprio Estado e outra independente deste, o qual ele considera \u201crealmente autêntico\u201d[32].
Este viés antropológico, no entanto, não possibilita a classificação das suas teorias na dualidade tradicional/progressista, pois ambas pressupõe a contextualização da Modernidade Central Européia e das formas jurídicas que são seus produtos. Nessa medida, quando a diversidade cultural passa a ser o critério de definição do direito (como o direito de sociedades tribais, por exemplo, em contraposição ao direito estatal), o pluralismo jurídico acaba sendo extremamente relativizado ou o monismo é satanizado, criando-se um vácuo na análise do fenômeno pluralista do direito nas sociedades modernas.
Isso também ocorre com o que denominamos \u201cpluralismo jurídico transnacional\u201d, já que este pressupõe novas dimensões da modernidade (que alguns