Leitura para atividase estruturada -aula 3
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Leitura para atividase estruturada -aula 3


DisciplinaSociologia Jurídica6.471 materiais51.667 seguidores
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preferem chamar de pós-modernidade ou transmodernidade) e, logo, rompe com sua análise.
Tal vertente representa um tipo de pluralismo que se articula com a lógica universalizante da lex mercatoria, \u201cresultando do surgimento de normas que regulam o comportamento das corporações internacionais, criadas por elas mesmas para resolver seus conflitos de competição comercial ou territorial (...)\u201d[33] e que ganha reforço em \u201cfunção das transformações engendradas pela transmodernidade\u201d[34], principalmente as que atingem o Estado, minimizando sua soberania tanto interna quanto externamente. Assim, com a emergência de novos centros de poder e decisão que não são absorvidos pelo direito positivo, passa a existir, com bastante força, um ordenamento jurídico paralelo ao ordenamento estatal.
Uma das características desse novo ordenamento é o de descredenciamento da coerção como característica essencial do direito, o que implica uma reviravolta na própria forma de se conceber o Direito e o Estado.
Além de um pluralismo transnacional institucional, constituído de regras de obrigação, um \u201cdireito material\u201d transnacional, verifica-se, ainda, a existência de um pluralismo transnacional de caráter jurisdicional, representado pela criação de instâncias solucionadoras de conflitos além do judiciário estatal (como o Tribunal Penal Internacional). O futuro destas instâncias é estabilizar-se como uma instituição de mesmo grau que as jurisdições nacionais de justiça, concretizando-se em cortes internacionais ou outros órgãos internacionais de justiça dotados de poder judicante.
Visto isto, passa-se à discussão sobre as teorias pluralistas emancipatórias ou progressistas, que se alicerçam em categorias sociológicas, políticas e jurídicas referentes ao Estado Moderno, e, portanto, ao Direito Moderno, de modo que em suas teorizações as idéias de emancipação dos sujeitos de direitos e simultaneidade de direitos extra-estatais e Direito Oficial aparecem permanentemente.  
4. As teorias Pluralistas Progressistas do Direito
Como dito, as tendências englobadas na corrente do pluralismo jurídico progressista, embora tenham várias posições doutrinárias diferentes, possuem em comum o fato de tratarem de uma produção normativa à margem do Direito Oficial, e até mesmo contra ele, fomentada a partir de uma perspectiva emancipatória, que busca soluções alternativas para a crise do Direito Positivo, se institucionaliza na medida em que adquire certa estabilidade e tem como agentes atores que passam a participar ativamente da própria criação e reivindicação de direitos. Por outro lado, os próprios operadores do direito passam a ter papel fundamental no combate ao direito hegemônico, tudo numa atividade libertária de luta e construção de direitos.
Podem ser enquadradas nesta vertente como seus principais representantes teóricos Jesus de La Torre Rangel,  Oscar Correas; German Palacio, Carlos Cárcova, Roberto Lyra Filho e  Antônio Carlos Wolkmer.
Jesus de La Torre Rangel advoga a causa de uma prática jurídica militante, com intenção política e ética a favor do \u201cpobre\u201d[35]. Para este autor, a pluralidade jurídica das comunidades não pode ser negada, pois entende que \u201cos pobres criam suas próprias normas, reapropriando-se do poder normativo monopolizado pelo Estado\u201d[36].
Já Oscar Correas define pluralismo jurídico como o fenômeno de \u201ccoexistência no tempo e no mesmo território, de dois ou mais sistemas normativos eficazes\u201d, sendo que para ele sistema é a \u201corganização ao redor de uma norma de reconhecimento ou fundante\u201d e normativo é o \u201cdiscurso prescritivo autorizado que organiza sanções e é reconhecido ou eficaz\u201d[37], sendo ele \u201cum dos principais teóricos do pensamento crítico latino americano\u201d, que \u201cfaz uma crítica contundente ao Direito moderno\u201d[38].
Importante também destacar o trabalho de German Palacio, que busca compreender os motivos do ressurgimento das teses pluralistas nas décadas de 80 e 90, destacando como fatores fundamentais: a \u201ccrise do regime fordista-keynesiano de acumulação do capital pela globalização, enfraquecimento do Estado-nação e conseqüente reformulação dos modelos de regulação, o que engloba o Direito\u201d; a reconstrução da \u201chegemonia do Estados Unidos da América e tendência à crescente subordinação do Direito estatal e do Direito internacional ao Direito e instituições dos EUA\u201d; a reorganização dos Estados-nação com base na alterações trazidas pela globalização, integração, neoliberalismo, privatizações e descentralizações administrativas\u201d; e a \u201ccrise do sindicalismo e o surgimento dos novos movimentos sociais\u201d[39].
Para Carlos Cárcova \u201ca existência ou não de pluralismo jurídico numa determinada formação social é basicamente uma questão de fato\u201d[40], constatada normalmente em sistemas sociais complexos. Esta pluralidade deve ser vista como uma unidade descontínua e fragmentada, uma operação para desenvolver valores emancipatórios, em decorrência das promessas não cumpridas da modernidade.
Imprescindível, ainda, falar de Lyra Filho, um dos primeiros defensores do pluralismo jurídico emancipador no Brasil. Seu trabalho \u201cincorpora premissas pluralistas em sua análise dialética da sociedade e do Direito\u201d[41]. Nesta sua teoria conceitua o fenômeno da juridicidade como um processo dialeticamente inserido no processo social: \u201cdireito é processo, dentro de processo histórico: não é uma coisa feita, perfeita e acabada\u201d[42].
Para desenvolver seu conceito dialético de direito, Lyra Filho, inicialmente, faz uma análise crítica dos modelos positivistas e jusnaturalistas de fundamentação do direito, para, posteriormente, realizar uma operação dialética de continuação e superação de tais modelos, já que eles não correspondem à realidade porque incapazes de dar conta da totalidade e dialética que a mesma contém. São apenas visões parciais, incompletas, ou distorcidas, do todo.
Sua análise do direito a partir da visão dialética aponta-o como um \u201cfenômeno dinâmico, como totalidade inserida na totalidade social, caracterizada pelas suas próprias contradições e mediações\u201d[43]. O direito surge, para Lyra Filho, em sua essência, na dialética social, existindo direito não só interna, mas internacionalmente; não somente na superestrutura, mas na infraestrutura; não apenas sendo produzido pela classe dominante, mas também pelos dominados etc. O autor responde à pergunta \u201co que é direito\u201d sem se limitar à visão legalista, positivista, remetendo a questão à práxis, \u201cporque o Direito não é uma coisa \u2018fixa\u2019, parada, definitiva e eterna, mas um processo de libertação permanente\u201d[44]. É aí que está a visão pluralista de Lyra Filho, que embora não abordada diretamente, tem em seus trabalhos uma fonte muita fecunda, já que o autor \u201cadvoga um projeto jurídico alternativo\u201d[45] .
Por fim, a perspectiva de Antônio Carlos Wolkmer do Pluralismo Jurídico Comunitário-Participativo representa a teorização mais completa do pluralismo jurídico progressista, de caráter emancipatório no Brasil. Sua reflexão teórico-jurídica \u201cé sumamente sugestiva, já que permite colocar bases teóricas sólidas a este fenômeno cada vez mais freqüente de juridicidades plurais\u201d (trad. nossa)[46] e apresenta fundamentos para a construção de um novo paradigma societário do Direito, face à insuficiência e crise do paradigma dominante, não só pelo desgaste do modelo epistemológico da Dogmática Jurídica, mas também e principalmente pelos seus reflexos e conseqüente ineficácia social. Nesse sentido, a emergência de um novo Paradigma do Direito torna-se inevitável e imprescindível. É sobre ele que o próximo item se propõe a discorrer.
5. O principal marco teórico da Teoria Pluralista do Direito no Brasil
Como citado anteriormente, a teorização do Pluralismo Jurídico Emancipador  surge como uma possibilidade de preencher o vazio epistemológico deixado pelas incongruências do do paradigma dominante em crise (a dogmática e o monismo jurídico), assim como ratificar as conquistas democráticas e pluralistas da modernidade:
\u201ca existência de um pluralismo jurídico fundado no espaço de práticas sociais