Leitura para atividase estruturada -aula 3
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Leitura para atividase estruturada -aula 3


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participativas, capaz de reconhecer e legitimar novas formas normativas e extra-estatais/informais (institucionalizada ou não), produzida por novos atores titulares de carências e necessidades desejadas\u201d[47].
Desta forma, no pluralismo jurídico emancipador teorizado por Wolkmer, a sociedade assume papel fundamental através dos novos movimentos sociais, formalmente reconhecidos ou não, que a partir das \u201cnovas\u201d e \u201cvelhas\u201d necessidades humanas fundamentais, passam não só a pedir a efetividade de direitos positivados ineficazes socialmente, como também a criar novos direitos, que podem ou não ser absorvidos pelo ordenamento jurídico estatal.
Admite-se, portanto, a existência de um espaço político e jurídico de criação de direitos, em que a democracia, a descentralização e a participação assumem papéis fundamentais. O Estado, pois, deixa de ser o único centro de poder político e fonte exclusiva de produção do Direito, implicando uma perspectiva antidogmática que privilegia fundamentos de natureza ético-políticos e sociológicos.
Na análise de Wolkmer a idéia de Pluralismo Jurídico volta-se à edificação de espaços democráticos emancipatórios, distanciando-se das visões conservadoras que se reproduzem sob a ótica da barbárie neoliberal, e incentivando a participação dos novos sujeitos coletivos.
Daí que o conceito mais adequado para este Pluralismo Jurídico de teor Progressista é aquele que o designa como \u201ca multiplicidade de práticas jurídicas existentes num mesmo espaço sócio-político, interagidas por conflitos ou consensos, podendo ser ou não oficiais e tendo sua razão de ser nas necessidades existenciais, materiais e culturais\u201d[48].
Este novo Paradigma do Direito traz como condições básicas fundamentos de efetividade material, que se expressa na emergência de sujeitos coletivos de direito e na realização das necessidades fundamentais; e de efetividade formal, que se traduzem na consolidação da democracia participativa e na construção de uma racionalidade emancipatória.
O primeiro fundamento, de efetividade material, consiste na emergência de novos sujeitos coletivos concretos de juridicidade, representados pelos novos movimentos sociais, numa ruptura com o modelo liberal-individualista que privilegiava o sujeito individual abstrato formalista.
Concretizados a partir da reformulação da cultura política das décadas de 60/70, estes \u201cnovos movimentos\u201d se caracterizam por novas formas de organização e representação, rompendo com as formas antigas de classes sociais, partidos e sindicatos e atuando de uma maneira reivindicatória, contestatória e participativa. Entre as várias manifestações deste tipo emergente de subjetividade coletiva, pode-se citar como exemplos: sem-terra; desempregados; marginalizados; minorias; indígenas; negros discriminados e comunidades e movimentos sociais reivindicadores de direitos.
Estes movimentos sociais são tidos como \u201cnovos\u201d sujeitos coletivos devido ao fato de se aglutinarem em torno de outros interesses que não os políticos institucionais, com fundamentos na produção e no consumo, rompendo com os canais tradicionais e fomentando-se uma ação consciente e espontânea, que molda uma identidade coletiva e rompe com o paradigma regulatório e opressivo vigente até o momento.
Por isso, na medida em que estes movimentos sociais assumem uma dimensão ampliada de sua cidadania, exercida a partir da prática cotidiana de lutas e reivindicações, são elevados à condição de agentes legitimadores da produção jurídica do paradigma emergente, podendo ser equiparados a novos sujeitos coletivos de Direito.
Decorrendo do aparecimento destes novos sujeitos coletivos eclode o \u201csistema das necessidades humanas fundamentais\u201d, que é o objetivo a ser alcançado pelos novos movimentos sociais. Este segundo fundamento do novo paradigma baseia-se na designação dada ao conceito de \u201cnecessidade\u201d, que se traduz em todas as vontades conscientes que motivam o sujeito para busca de bens essenciais para sua vida, quer materiais, quer imateriais.
Segundo esta concepção todas as necessidades se desenvolvem a partir do contexto social em que os sujeitos estão inseridos, ou seja, as necessidades decorrem do modo de produção, de modo que \u201co que realmente difere são os modos de satisfação das necessidades. A produção desses modos gerará, por sua vez, novas necessidades\u201d[49]. Agnes Heller, filósofa que estudou a \u201cTeoria das necessidades\u201d,  classifica os diversos tipos de necessidades existentes, enfatizando as necessidades alienadas e não-alienadas, núcleo da análise filosófica de Marx, sendo estas últimas as propriamente humanas e de caráter qualitativo, enquanto as primeiras seriam de caráter eminentemente quantitativo, visando a acumulação infinita de valor[50].
De qualquer forma, ambos os aspectos de efetividade material do novo Paradigma do Direito representam a concretização da dialética histórica, em que novas condições capazes de legitimar a emergência do Direito Comunitário-Participativo surgem dos conflitos, das contradições e das lutas por Direitos.
É sobre este espaço de lutas que se edifica o terceiro fundamento do paradigma, \u201cestratégia de efetividade formal\u201d, que busca \u201cviabilizar as condições para a implementação de uma política democrática  que direcione e ao mesmo tempo reproduza um espaço comunitário e participativo\u201d[51].
A participação política democrática comunitária, a ser conquistada através de um longo processo de luta estratégica que rompa com as tradicionais estruturas centralizadoras do Estado, deve colocar em evidência novas formas políticas com ênfase na participação de base, descentralização, controle da comunidade e poder local. É a ênfase a ser dada na participação popular como caminho de ampliação da democracia.
É importante ratificar-se que a defesa da participação popular não significa buscar-se a extinção da democracia representativa, mas apenas a busca por uma forma de se complementar a representatividade a partir da introdução de alguns mecanismos que viabilizem a participação direita do povo conjuntamente com a sua representação política. O desenvolvimento da democracia participativa só se justifica com os resultados decorrentes da participação popular, ou seja, onde é possível atingir-se a vontade geral através da tomada de decisão dentro de um processo participativo. Neste contexto, participar significa tomar parte pessoalmente, ou seja, um movimento próprio de cada sujeito. Assim, nesta forma de democracia \u201ca participação refere-se à participação (igual) na tomada de decisões, ou seja, a capacidade institucionalizada de colocar em prática o princípio democrático básico: o da igualdade política\u201d[52].
Os novos movimentos sociais têm sido a maior expressão dessa participação, emergindo como novos sujeitos coletivos de juridicidade capazes de se organizar em comunidades conscientes de seu  papel fomentador  mudanças:
\u201cDaí a obrigatoriedade de se pensar a alternativa comunitária como espaço público pulverizado pela legitimação de novas forças sociais (movimentos sociais) que, em permanente exercício de alteridade, implementam suas necessidades fundamentais e habilitam-se como instâncias produtoras de um Direito Comunitário autônomo. (...) No bojo da pluralidade de interações das formas de vida, empregar processos comunitários significa adotar estratégias de ação transformadora com a participação consciente e  ativa de sujeitos de juridicidade\u201d[53].
Este processo de participação redefine os próprios horizontes da cidadania e da democracia, articulando descentralização administrativa, poder local, controle comunitário, co-gestão e autogestão local, setorial e municipal e  expressões das necessidades coletivas, possibilitando \u201ca implementação e o alargamento da sociedade democrática\u201d, pois viabiliza \u201ca efetiva participação e controle por parte dos movimentos e grupos comunitários\u201d[54].
A ruptura com os moldes clássicos da democracia formal e representativa ocorre, no entanto, na medida de sua própria insuficiência. Modelos complementares são incorporados pelo Estado através do Ordenamento