Leitura para atividase estruturada -aula 3
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Leitura para atividase estruturada -aula 3


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Jurídico Positivo, proporcionando uma interação institucionalizada entre novos sujeitos coletivos de juridicidade e  poder institucionalizado.
Sob este aspecto, para a efetiva participação popular, que pode se dar em qualquer esfera (Executivo, Legislativo e Judiciário), são necessários alguns mecanismos institucionais constitucionalmente previstos como plebiscito, referendum e iniciativa popular[55], embora Dalmo de Abre Dallari, sustente seis medidas: 1) o poder de iniciativa legislativa da comunidade com conseqüente vinculação para os representantes; 2) a prática do plebiscito; 3) o exercício do referendum; 4) o pronunciamento da comunidade através do veto popular sobre determinado projeto de lei; 5) a convocação de audiências públicas com a inscrição prévia da população para deliberar sobre futuros projetos e 6) o ato de revogação do mandato e reconfirmação tanto do representante político como de servidor público comunitário, havendo, também, como formas de participação no Legislativo o voto distrital e os conselhos populares[56].
Na Administração Pública a participação popular pode se dar: 1) no planejamento; 2) em consultas à comunidade sobre propostas ou projetos orçamentários (como o \u201corçamento participativo\u201d) ; 3) representação da comunidade em órgão consultivos e na direção de entidades de administração descentralizada e 4) a participação da população no exercício de um poder de controle para facilitar o direito à informação. Já no Judiciário, a participação popular no âmbito administrativo pode se dar através de comissões de apelação e arbitragem, comitês de conciliação e mediação, criação de tribunais distritais de habilitação e de consumidores etc.[57]. Há, ainda, outra forma importante de participação pertinente à atividade judiciária propriamente dita, que o povo pode lançar mão para participar da administração pública, como o controle da legalidade dos atos administrativos através de ação popular, mandado de segurança, ação civil pública etc.
Todos estes instrumentos tornam possível a construção de um novo espaço político e, conseqüentemente, são armas para a solidificação deste novo paradigma. Esta reordenação passa necessariamente pela implementação efetiva da Democracia Participativa, meio de se buscar o pleno exercício da cidadania e a possibilidade de efetivação de justiça social através da participação popular comunitária, o que faz com que a legitimidade política passe a emanar do próprio cidadão erguido às últimas instâncias do poder, capaz de controlar e coadjuvar na gestão dos governos, num processo que pode denominar-se de \u201crepolitização da legitimidade\u201d.
Visto o terceiro aspecto, deve-se adentrar agora no quarto fundamento paradigmático, qual seja, a ética concreta da alteridade.
Parte-se da constatação de que se vive também um momento de crise moral e ética na sociedade moderna, que se estabelece com vários fatores causais como a exacerbação do individualismo; a desumanização; a intolerância à diversidade; a tecnização instrumental da razão; a alienação política, cultural e social; a fragmentação do sujeito; a massificação da informação; a reificação da sexualidade e do afeto e a mercantilização das relações pessoais e sociais como efeito da expansão desenfreada da sociedade de consumo.
Buscando-se solucionar esta crise, duas propostas filosóficas importantes se configuraram \u201cpelo pragmatismo analítico\u201d e pelo \u201cracionalismo discursivo\u201d. A primeira corrente é desenvolvida por teóricos como Richard Rorty, e nega a existência de uma ética universal, numa \u201cpostura marcada por um etnocentrismo pragmático e por um relativismo cultural\u201d acabam apenas justificando \u201cuma ética regional de dominação inerente ao ethos de legitimação nacional norte-americana\u201d[58]. Esta postura leva à desqualificação de éticas surgidas de contextos culturais, como as éticas de libertação periféricas.
A segunda proposta, que tem como expoentes Apel e Habermas, ao contrário da primeira, constrói um modelo universal de ética racional dialógica a partir da pragmática transcendental/universal  (respectivamente). Contudo, também este modelo é incapaz de corresponder à realidade da periferia, uma vez que enquanto teorias normativas não encontram eco de cumprimento dos seus pressupostos, tais como a argumentação livre, sincera e desinteressada dos falantes e a situação de igualdade em todos os níveis de todos os atores participantes. Na situação \u201creal\u201d de fala, no entanto, o que ocorre é que inexistindo igualdade entre falantes, \u201c\u2018o outro\u2019 (o sujeito espoliado e dominado do mundo periférico), que deveria ser a condição fundante, na verdade é ignorado, silenciado e excluído, porque não é livre nem competente para participar da consensualidade discursiva e do jogo lingüístico argumentativo\u201d[59].
Daí que também esta proposta fundamentadora da ética racional discursiva, ainda que rompa com o formalismo positivista e apresente uma potencialidade universal, dialógica  e intersubjetiva, não atinge pontualmente a realidade periférica latino-americana, como assinala Wolkmer, sendo necessário recorrer-se à formulação de uma \u201cética concreta da alteridade\u201d, que se  revela como \u201cexpressão autêntica dos valores culturais e das condições histórico-materiais do povo sofrido e injustiçado da periferia latino-americana e brasileira\u201d[60].
Esta ética da alteridade tem em seu núcleo a expressão dos valores emancipação, autonomia, solidariedade e justiça emergentes das situações materiais, das práticas sociais e das necessidades dos marginalizados, tendo como condições essenciais a práxis e a história das estruturas sócio-econômicas oprimidas e as categorias teóricas e os processos de conhecimento da própria cultura teológica, filosófica e sócio-política latino-americana, representada por um pensamento de vanguarda na Filosofia, Teologia e nas Ciências Sociais[61].
Nesse sentido, Wolkmer pontua as características e os fundamentos teóricos que aproximam sua teoria à Ética da Libertação de Enrique Dussel:
\u201cA \u2018ética da alteridade\u2019 é uma ética antropológica da solidariedade que parte das necessidades dos segmentos humanos marginalizados e se propõe gerar uma prática pedagógica libertadora, capaz de emancipar os sujeitos históricos oprimidos, injustiçados, expropriados e excluídos. Por ser uma ética que traduz os valores emancipatórios de novas identidades coletivas que vão afirmando e refletindo uma práxis concreta comprometida com a dignidade do \u2018outro\u2019, encontra seus subsídios teóricos não só nas práticas sociais cotidianas e nas necessidades históricas reais, mas igualmente em alguns pressupostos da chamada Filosofia da Libertação.\u201d[62]
Tomando alguns marcos referenciais da obra dusseliana, como a \u201ctotalidade\u201d e a \u201cexterioridade\u201d, Wolkmer adota a primeira enquanto possibilidade ontológica de ruptura com o pensamento moderno europeu, de modo que uma \u201cnova totalidade\u201d torna-se \u201ccomprometida com uma reflexão que parte do mundo e da realidade, exigindo justiça e emancipação dos oprimidos de todos os tempos e lugares\u201d[63].
A categoria dusseliana \u201cexterioridade\u201d, paradigma originário da \u201cmetafísica da alteridade\u201d, \u201cengloba o espaço do outro, da alteridade de uma nova subjetividade\u201d, \u201crompe com a injustiça e com a negação do ser do outro\u201d e concretiza, na práxis, \u201cum nova lógica de convivência humana\u201d[64]. Neste aspecto, a fundamentação aproximativa da proposta dusseliana apresenta certa preocupação \u201cem historicizar o abstracionismo metafísico-teológico da exterioridade em Dussel. A exterioridade, nesse entendimento, não seria uma realidade em si, construída a partir de uma razão metafísica, mas, sim, uma realidade social, gerada nos processos de lutas e conflitos de interesses\u201d[65].
Conclui Wolkmer que na realidade latino-americana, em que há uma pluralidade de culturas e de valores próprios, \u201cé mister reconhecer (...) as possibilidades de uma nova ética de teor pedagógico e libertário, gerado no bojo de relações conflituosas e de práticas cotidianas configuradas, quer por sujeitos coletivos, indistintamente, quer especificamente pelos