Leitura para atividase estruturada -aula 3b
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4 DOUTRINA DO PLURALISMO JURÍDICO NA AMÉRICA LATINA
            Na América Latina, pudemos identificar teóricos que tratam da questão do pluralismo jurídico. No México, por exemplo, temos Jesus Antonio de la Torre Rangel e Oscar Correas. Rangel [24] opta por uma juridicidade assentada nos fundamentos de uma Filosofia da Libertação, e tece críticas aos diversos modelos de normativismo formal que predominam na cultura ocidental burguesa, defendendo a existência de uma normatividade paralela e plural no bojo das comunidades indígenas e pobres.
            Já Correas [25], argentino radicado no México, é considerado como um dos principais teóricos do pensamento crítico latino-americano e um dos responsáveis pelo sucesso das publicações de Crítica Jurídica. Correas [26] também reconhece a coexistência de vários sistemas normativos em um determinado território, e cita como exemplo as comunidades indígenas da América Latina e os grupos ciganos da Espanha; define o pluralismo jurídico como "a coexistência de dois ou mais sistemas normativos que pretendem validez no mesmo território."
            Calcado em idéias marxistas, reconhece a existência de um conflito entre a ordem jurídica hegemônica e o sistema alternativo paralelo, sendo que neste entrechoque de instâncias normativas, pode ocorrer a redução ou extinção da eficácia das normas do Estado face a forte reação revolucionária da ordem jurídica paralela. Para tanto, oautor menciona a guerrilha dos zapatistas no México, entre 1994-1995, em que os revolucionários buscaram amodificação da ordem jurídica oficial. [27]
            O pluralismo jurídico também foi objeto de análise de juristas críticos na Colômbia e na Argentina, destaque para o colombiano German Palacio e para o argentino Carlos Cárcova, autor de A Opacidade do Direito. Palacio pesquisou sobre os serviços legais populares, as práticas jurídicas alternativas, a administração da justiça e os influxos da globalização na esfera da legalidade. [28] Neste último aspecto, trabalha com a crise do monismo jurídico, relacionando-a com o fenômeno da fragmentação jurídica.
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            A pluralidade é marcada pela porosidade e inter-relação, onde o Estado é substituído ou complementado por múltiplas instituições: a corporação transnacional, o mercado internacional, a localidade, a comunidade, a família, o grupo religioso e a organização não-governamental. [29]
            Já o argentino Carlos Cárcova deu grande contribuição nas investigações sobre: marxismo e Direito,Teoria Crítica, Direito alternativo, Direitos humanos e multiculturalismo; vale consignar que, para o jusfilósofoargentino, o Direito é ao mesmo tempo opressão e emancipação.
            Na A Opacidade do Direito, levanta a existênciade novas práticas de pluralismo, todas elas relacionadas aprocessos de migrações, aculturação e multietnias. [30]
            No Brasil, temos alguns nomes importantes aconsiderar: Oliveira Vianna, André Franco Montoro, Joaquim deArruda Falcão, José Geraldo de Souza Jr., Luiz Fernando Coelho, Eliane B. Junqueira, Edmundo de L. Arruda Jr., José Eduardo Faria, Roberto Lyra Filho, Luís Alberto Warat e Albano Marcos Bastos Pêpe.
            Por derradeiro, vale registrar que Wolkmer [31]aponta quatro vertentes da crítica jurídica brasileira: asistêmica, a dialética, a semiológica e a psicanalítica. Aperspectiva dialética, tem como objeto de estudo o fenômeno do pluralismo jurídico, sendo que seu maior representante foi Roberto Lyra Filho. Temos ainda a pessoa de José Geraldo de Souza, que trabalha a questão do pluralismo nestaperspectiva.
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5 PLURALISMO JURÍDICO E TEORIA CRÍTICA
            Basicamente, o "pluralismo jurídico" está relacionado ao reconhecimento da existência de outras fontes de produção jurídica ao lado do Estado.
            Aos olhos de uma Teoria Crítica, reconhece-se a existência de um Direito não oficial que emerge das práticas sociais, um Direito "paralelo", "achado na rua" ou "insurgente". Nessa linha de raciocínio, o Direito é legítimo não em função da autoridade competente ou dos mecanismos procedimentais do Estado quanto à criação das normas, mas é válido porque a comunidade reconhece como tal. Assim, a Comunidade Local, a exemplo da Associação dos Moradores de Bairro de uma favela [32], não só reconhece a legitimidade das normas informais, mas também asaplicam, solucionando, dessa forma, os conflitos.
            De que adianta uma norma do Estado ser formalmente válida, se os membros da sociedade civil não areconhece como legítima, nem mesmo acreditam na ação das instituições do Estado?
            Se inúmeras dimensões podem ser encontradas no pluralismo filosófico, sociológico ou político, o pluralismo jurídico não deixa por menos, pois compreende muitas tendências com origens distintas. Essa situação de complexidade não impossibilita admitir que o principal núcleo para o qual converge o pluralismo jurídico é a negação de que o Estado seja a fonte única e exclusiva de todo o Direito. Trata-se de uma visão antidogmática e interdisciplinar queadvoga a supremacia de fundamentos ético-sociológicos sobre critérios tecnoformais. Assim, minimiza-se ou exclui-se alegislação formal do Estado e prioriza-se [grifo nosso] a produção normativa multiforme de conteúdo concreto geradapor instâncias, corpos ou movimentos organizados semi-autônomos que compõem a vida social. [33]
            Numa leitura de viés positivista, há autores que preferem a expressão pluralismo normativo.
            "Se todas as normas sociais são "direito", então o termo perde sua utilidade e mesmo seu significado! Por tais motivos, consideramos que os sistemas de regras não oficiais, mesmo tendo um grau de obrigatoriedade, não possuem o atributo da juridicidade." [34]
            Portanto, para um positivista, o pluralismo que existe é apenas normativo, e não jurídico, já que as normas informais não possuem o atributo da juridicidade.
            Embora não negue a existência da multiplicidade de regras de comportamento, Sabadell [35] consideraextremamente arriscado reconhecer o caráter de "direito" aos sistemas normativos informais (Igrejas, Associação de Moradores de um Bairro, etc.).
            Primeiro, porque tais sistemas são extremamente fluidos e mudam de modo informal. As regras podem ser alteradas facilmente e muitas vezes os membros do grupo não sabem exatamente quais são as regras válidas.Assim, não é possível distinguir entre direito, preceitos morais, regras de convivência e a pretensão de poder de determinados membros do grupo. Isto nos leva a colocar uma questão: é correto afirmar que qualquer norma social é "direito"? (...) A segunda razão contra o reconhecimento do pluralismo jurídico é que a existência de sistemas normativos paralelos, não exclui a atuação do Estado neste campo. Se existe vontade política, o Estado pode recuperar o espaço, que devido à sua ausência, foi tomado, por exemplo, pelos "chefes" da máfia. Além disso, os indivíduos que obedecem ao direito informal sabem que existe também um direito oficial que possui validade, e que pode ser invocadoa qualquer momento. Em outras palavras, todos sabem que o verdadeiro direito é o estatal.
            Carbonnier prefere empregar os termos "infradireto" ou "fenômenos infrajurídicos", a empregar os termos "direito alternativo", "informal" ou "espontâneo". [36]
            Convém consignar que, nos fins do século XIX, primórdios e meados do século XX, o "monismo" foi muito questionado por alguns pensadores europeus, que demonstraram insatisfação em relação à expansão do capitalismo industrial, ao domínio do individualismo filosófico, ao liberalismo político-econômico,