CCJ0009-WL-AMMA-03-Narrativa jurídica simples e narrativa jurídica valorada
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DisciplinaTeoria e Prática da Narrativa Jurídica738 materiais3.487 seguidores
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salário igual ao que então percebia como secretária.
9- A autora, de início, manifestou surpresa, chegando a duvidar do que julgava ser tanta sorte. O Sr. Alencar, porém, tranqüilizou-a: tinha um amigo - o Sr. Ranulfo Azevedo - homem sério, advogado conceituado, que procurava justamente uma administradora profissional para seu escritório de advocacia.
10- Como se tratava de firma ainda pequena, não fazia questão o Sr. Ranulfo de um ou de uma profissional experiente: queria alguém que tivesse um diploma, bom senso, disposição para trabalhar, e, sobretudo, vontade de crescer junto com a organização.
11- Lembra-se a autora de que, já naquela ocasião, comentara com o Sr. Alencar que \u201cpobre quando vê muita esmola, desconfia" e que estava achando a oportunidade "boa demais para ser \u201cverdade\u201d.
12-	O Sr. Alencar disse	, contudo, que já tinha conversado a respeito com o Sr. Ranulfo e que tinha sido, aliás, o próprio Sr. Ranulfo o primeiro a dizer que estava procurando alguém para administrar seu escritório e que se manifestara entusiasmado, ao saber que ela, autora, a secretária de seu amigo Alencar, tinha recentemente se formado em administração.
13- O ex-chefe da autora chegou' até a acrescentar que fora o próprio Sr. Ranulfo que, ao mesmo tempo em que elogiava os atributos físicos da autora, perguntara quanto ela ganhava e pedira permissão ao Sr. Alencar para convidá-la para trabalhar com ele, Ranulfo.
14- Por aí já se vê, desde o primeiro momento, quais fossem as intenções do réu, misturando indevidamente, como qualificações para preencher o cargo vago em sua empresa, dotes de beleza física e aptidões profissionais.
15- Permite-se a autora, nesse passo, a bem da precisão da narrativa dos fatos, transcrever a expressão exata que teria sido usada pelo réu: de fato, segundo o Sr. Alencar, seu amigo Ranulfo teria dito:
\u201c_ você quer me dizer que sua secretária é formada em administração? Mas ela é 'gostosa demais'! Você ia ficar muito chateado se eu convidasse ela para trabalhar comigo?"
16- A frase desrespeitosa foi transmitida ipsis litteris à autora pelo Sr. Alencar. A autora, porém, infelizmente, não a tomou devidamente em conta.
17- A oportunidade que se apresentava era excepcional: atendia rigorosamente àquilo com que a autora vinha sonhando, desde que ingressara na faculdade. O réu, além disso, era amigo de longa data do Sr. Alencar, um profissional conhecido, muito bem sucedido na profissão, tinha reputação de homem sério. Usara por certo apenas por troça, "de brincadeira\u201d, em conversa com um amigo, a expressão chula, mas certamente, em seu escritório, jamais ousaria ultrapassar os limites do respeito e da conveniência.
18- Assim pensando, e encorajada por seu chefe, a autora aceitou a oferta e, em fevereiro de 1990, foi contratada para o cargo de gerente administrativa da firma: "Escritório de Advocacia Ranulfo Azevedo".
19- Os primeiros meses foram gratificantes. A autora dedicava-se com afinco .às tarefas que lhe eram cometidas. Sua posição era especialmente. delicada, cabendo-lhe gerenciar um grupo que incluía profissionais de nível superior, sobre os quais não tinha qualquer ascendência hierárquica.
20- Mas a autora: parecia vencer o desafio: organizou novas rotinas, mudou a decoração do ambiente, pôs em dia e modernizou a cobrança de honorários aos clientes, imaginou e implantou métodos modernos e eficientes de administração.
21- Em verdade, a despeito de sua pouca idade, a autora logo se impôs no ambiente de trabalho, ganhando o respeito e a consideração das cerca de trinta pessoas que trabalhavam na firma, entre advogados, estagiários, secretárias e funcionários.
22- O próprio réu, de início, parecia encantado, mais com a competência profissional que com os alegados atributos físicos da autora, comportando-se geralmente de forma respeitosa, formal,quase cerimoniosa.
23- A seriedade do réu, contudo, era apenas hipócrita máscara, atrás da qual se escondia um verdadeiro e imoral sátiro, um autêntico maníaco sexual.
24- Essa faceta começou a ficar clara em uma ocasião muito marcante.
25- Ao final de junho, o Escritório de Advocacia Ranulfo Azevedo organizou, como fazia todos os anos, uma convenção em um hotel fora da cidade.
26- Era reunião de dois dias, congregando advogados e estagiários e respectivas famílias. Saíam todos do escritório em uma sexta-feira à tarde, em um ônibus fretado. Durante todo o dia de sábado e na manhã de domingo os advogados e estagiários debatiam temas profissionais, ligados à gestão do escritório ou a assuntos propriamente jurídicos. As noites de sexta-feira e de sábado, porém, eram puramente sociais, dedicadas à confraternização.
27- A autora foi convidada para o seminário. De início, teve dúvidas em aceitar o convite. Sabia que era a primeira vez que alguém, não diretamente ligado às atividades profissionais da firma, participava de uma convenção daquele tipo. Finalmente, face à insistência do réu, sentindo-se honrada, aceitou.
28- Não levou, porém, acompanhante. Nem a autora, nem o réu, cuja esposa estava, na ocasião, ao que foi dito, em viagem ao exterior.
29- Na noite de sexta-feira houve de fato uma grande confraternização. Todos conversavam animadamente; o jantar foi agradável e havia muita amizade e alegria. Mas nada de anormal ou grave aconteceu e, por volta das onze horas da noite, já todos estavam recolhidos.
30- Aconteceu, isto sim, na noite de sábado. Nessa noite, após o jantar, um conjunto tocava música de dança. Sem acompanhante, o réu tirou a autora várias vezes para dançar. À medida que a noite se desenvolvia, cada vez mais procurava o réu a proximidade corporal com a autora.
31- Os outros casais aos poucos iam se recolhendo aos respectivos aposentos até que, cerca de uma hora da madrugada, só restavam dançando autora e réu, este último, a essa altura, completamente embriagado.
32- Tocado pelo álcool, o réu perdeu o controle de si mesmo e começou a tentar seduzir a autora, com palavras eloqüentes ,carregadas de sensualidade imoral.
33- A autora, é claro, resistiu sempre, até que, finalmente, desvencilhou-se do réu e saiu andando apressadamente até seu quarto.
34- O réu, porém, seguiu-a e, com o pé, impediu-a de trancar a porta, dizendo cruamente, em alto e bom som:
"- Esta noite eu vou dormir aqui com você".
35- O constrangimento era total e invencível., No silencioso hotel de fim de semana, todos estavam recolhidos. O réu, completamente embriagado, deixava desenganadamente claras suas lascivas intenções. Somente com grande escândalo, do qual todos os demais hóspedes do hotel e, principalmente, os profissionais integrantes do escritório por certo tomariam conhecimento, poderia a autora ter resistido a suas lúbricas investidas.
36- Não restou à autora senão aceder e passar a noite com o réu. Enojada, vencendo a repugnância, por várias vezes permitiu que ele a possuísse, sempre para evitar o escândalo.
37- Manhã bem cedo, retirou-se o réu para seu próprio quarto e, algumas horas depois, de cara lavada, como se nada tivesse acontecido, presidia a reunião da manhã de domingo.
38- A autora cuidava que todo aquele pesadelo não duraria mais que uma noite e que, novamente sóbrio, o réu se desculparia ou, pelo menos, tentaria fingir que nada tinha acontecido.
39- De fato, foi assim que procedeu o réu durante todo o domingo, no hotel, e na viagem de volta.
40- Na segunda-feira a autora apresentou-se ao trabalho, ainda desconfiada, mas pronta a iniciar esforço consciente para relegar o episódio- a merecido esquecimento. O emprego ainda era um bom emprego; a autora precisava dele; agora mais que nunca, pois sua mãe, já idosa, estava prestes a submeter-se a uma delicada intervenção cirúrgica. O réu, até ali, tinha sido um bom patrão. Tudo afinal não passara de uma noite de bebedeira.
41- Ao final do expediente, porém, o réu chamou a autora, dizendo que precisava conversar com ela e oferecendo uma carona. Cuidando, ingenuamente, que receberia o tão esperado pedido de desculpas, a autora aceitou o convite.
42- Mais uma vez,