Apostila UNIJUÍ - Globalização e análise de cenários
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isto não é uma dívida social.
Nesta linha de argumentação, é importante atentar para o fato de que as ações do
governo devem ser balizadas pela existência de um Plano ou Projeto Nacional orientador
do processo de desenvolvimento. Somente assim, as ações de curto prazo podem ser devida-
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 Ter um Governo que o represente e lute pelo desenvolvimento do país é um direito de todo cidadão. Neste sentido, a existência de um
governo não democrático já constitui per se uma dívida social.
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mente avaliadas como coerentes ou não, calculadas quanto ao
sacrifício que requerem para sua execução a bom termo (custos
sociais), etc. Por extensão, um governo que não tenha um proje-
to de futuro, está por isso mesmo, contraindo uma dívida social.
Analogamente, um Projeto Nacional que não atenda aos interes-
ses da população é per se uma dívida social, embora possa ser
concebido tecnicamente de forma brilhante e conduzido politi-
camente de maneira muito habilidosa.
4.1.4 \u2013 NEOLIBERALISMO
Esgotamento do Welfare State (Estado do Bem-Estar Social)
Para os fins aqui propostos, interessa-nos saber que no fi-
nal da década de sessenta, após os anos de ouro de crescimento
da economia mundial sob a hegemonia econômica dos EUA e
sob o regime do Estado do Bem Estar Social o mundo passou a
sofrer o que se convencionou chamar de crise do paradigma
keynesiano. Esta crise não foi homogênea e nem integral, pois
cada país a sentiu em intensidade diferente e em períodos dife-
rentes. Mas como os países centrais se ressentiram, pelos laços
de interdependência, as conseqüências se disseminaram para a
periferia. Podemos até dizer que pelos laços de dependência (Po-
der e Subserviência), as conseqüências da crise dos países cen-
trais foram transferidas para a periferia. Seja qual for a explica-
ção adotada, no entanto, a concepção que se tem é que a crise
foi \u201cda economia internacional\u201d.
O Fator EUA
Os sintomas desta crise foram inicialmente sentidos pelos
EUA: no final dos anos sessenta os EUA já tinham uma noção
muito forte de que não mais estavam conseguindo fazer com que
Paradigma keynesiano
John Maynard Keynes
(Cambridge, 5 de junho de
1883 \u2014 Firle, East Sussex, 21
de abril de 1946) , o criador da
Macroeconomia, foi um dos
mais influentes economistas do
século 20. Suas idéias
intervencionistas chocaram-se
com as doutrinas econômicas
vigentes em sua época e
estimularam a adoção de
polít icas intervencionistas
sobre o funcionamento da
economi a.
Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/
Keynes>.
Acesso em: 21 jun. 2008.
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na economia e na política os rumos do mundo fossem de acordo com seus interesses. No
âmbito externo, já não era mais suficiente a fórmula prática de \u201cdeixar ou intervir\u201d pratica-
da até então como um conjunto incoerente de respostas ad hoc aos acontecimentos: era
necessária uma política consistente não só para correção dos rumos internos da economia
(política doméstica) mas também, e principalmente, para correção dos rumos externos (Re-
lações Internacionais).
A década seguinte foi consumida em meio a instabilidades mundiais que só reforça-
ram a percepção do governo estadunidense e esta encontrou oportunidade de tornar-se
realidade com a chegada à presidência do candidato republicano Ronald Reagan (dois
mandatos consecutivos desde 1980 a 1988). Sob seu governo, o país adotou uma orienta-
ção estratégica de reafirmação da hegemonia absoluta com uma política ativa e agressiva
que uniu o âmbito interno ao externo, sob um mesmo vetor, o econômico. Com isto, a
nova política externa do país pautou-se pelo que chamava de abordagem econômica do
Poder, ou seja, privilegiar os âmbitos financeiros (fluxos de capital), monetário (moedas) e
comercial (fluxos de mercadorias ao qual incluía para efeitos de negociações, os serviços,
tecnologia, ...).
Esta nova atitude dos Estados Unidos foi implementada simultaneamente em duas
frentes (países desenvolvidos e países subdesenvolvidos) e dividiu-se cronologicamente em
dois momentos (primeira e segunda metades da década de oitenta):
Primeira metade dos anos 80 no âmbito dos Países Desenvolvidos
Inicialmente os Estados Unidos tentaram junto aos demais países centrais (G-7) a
imposição de políticas comercial e financeira, deixando de lado uma discussão sobre políti-
ca monetária coordenada, pois isto implicaria discutir-se a política fiscal estadunidense e
seus déficits crônicos. Por isto, a orientação foi no sentido de adotar-se uma Convergência
supervisionada sem intervenção nos mercados e não uma Coordenação de políticas
macroeconômicas.
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Segunda metade dos anos 80 no âmbito dos Países Desenvolvidos
A partir de meados dos anos 80 até o final da década, os EUA, pelos resultados insig-
nificantes obtidos com sua postura de convergência macroeconômica supervisionada, con-
venceram-se das idéias dos demais países desenvolvidos da necessidade de uma firme inter-
venção nos mercados. Por volta do segundo mandato presidencial, a orientação externa do
país foi no sentido da imposição de uma coordenação de políticas macroeconômicas. No
entanto, não havia mais clima e nem vontade política dos demais países centrais, então
mais preocupados com seus problemas internos, sem tanto receio do poderoso agente exter-
no e cientes do baixíssimo coeficiente de confiança do parceiro.
Primeira metade dos anos 80 no âmbito dos Países Subdesenvolvidos
Quanto aos países da periferia, estes foram incorporados como \u201cparceiros\u201d, após apro-
ximadamente dois anos sem terem sido alvo de uma política definida \u2013 o que não impediu
que sofressem as conseqüências da elevação das taxas de juros internas dos EUA. Tal fato se
deu porque a frente de negociações com os países centrais não era promissora, porque al-
guns dos problemas dos Estados Unidos exigiam para sua resolução a participação de cer-
tos \u201cpaíses em desenvolvimento\u201d, notadamente seus parceiros comerciais. Segundo os EUA
era preciso que seus companheiros comerciais o auxiliassem a reduzir seu déficit na balança
comercial de produtos manufaturados de baixo valor agregado através da compensação em
Serviços e Investimentos Estrangeiros Diretos (IEDs) bem como pela elevação de seu superávit
em agropecuária e produtos manufaturados de alto valor agregado, intensivos em Pesquisa &
Desenvolvimento.
Segunda metade dos anos 80 no âmbito dos Países Subdesenvolvidos
Para os países da América Latina, além destas razões, uma outra veio corroborar sua
inclusão na política externa dos Estados Unidos: Geoeconomia. Paralelamente à intensifica-
ção do processo de unificação da Europa (Europa-92) e o possível desenvolvimento de uma
integração econômica jamais vista antes, que redundaria em um mercado capaz de proteger-
se e contar com alto poder de penetração nos mercados externos passou a ocorrer um maior
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afastamento em relação aos EUA de Brasil \u2013 e seus projetos de
tornar-se potência regional \u2013 e Argentina \u2013 ressentida com o rom-
pimento unilateral do Tratado Interamericano de Ajuda Recípro-
ca (TIAR) por parte dos Estados Unidos que aliou-se à Grã
Bretanha no conflito das Ilhas Malvinas. A partir do afastamento
em relação aos Estados Unidos (o Brasil já pertencia ao grupo dos
Não Alinhados) os dois países sul-americanos intentaram uma
integração \u201cautonomizante\u201d, ou seja, um processo de integração
e cooperação econômica que fosse capaz de desenvolver a ambos
de maneira independente da política das Super Potências.
Com isso, não só passou a ser imprescindível para os EUA
manter os países da América Latina em sua área de influência agora
não mais ideológica \u2013 pois a então a URSS já não apresentava pos-
sibilidade de via alternativa ao Capitalismo \u2013 mas econômica, como
também obstaculizar uma integração em moldes autonomizantes
entre os dois grandes países da América do Sul. E isto deveria