Apostila UNIJUÍ - Globalização e análise de cenários
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desta escala de Integração Econômica a simples integração co-
mercial se aprofundada, exige uma integração econômica no sentido completo do termo:
integração de comércio, monetária e de capital tanto financeiro quanto produtivo e com
isto o grau de institucionalização também cresce. Mas conforme cresce o nível de integração
econômica entre os países cresce também o grau de sua interdependência e, portanto, de-
cresce o patamar das respectivas Autonomia/Soberania. Esta maior interdependência en-
tre as economias pode ser visualizada em uma escala de quatro graus:
O primeiro e mais baixo nível é a simples troca de informações. Visando uma melhor
convivência os países passam a informar sobre suas intenções de condução macroeconômica
e, em reciprocidade, consultam também ao parceiro sobre suas Políticas domésticas;
Um pouco mais elaborado é o nível de congruência de objetivos que serão o resultado
da aplicação das políticas domésticas. Obtém-se esta convergência ao se reduzir ao mínimo
as diferenças de grau de alcance de tais políticas;
A harmonização de políticas macroeconômicas é obtida com acordos sobre a adoção
de regras complementares para a implementação de políticas econômicas. Tais acordos vi-
sam essencialmente reduzir a capacidade de cada país individualmente decidir conforme
seu próprio parecer sobre a condução macroeconômica doméstica, ou seja, tais acordos
objetivam conduzir a uma maior uniformidade das estruturas econômicas;
O nível mais alto é chamado de coordenação de políticas discricionárias de curto pra-
zo. Aqui é exigido um consenso entre os países participantes com relação a valores mutua-
mente coerentes das metas de curto prazo e decisões comuns quanto à seleção e modalida-
de dos instrumentos disponíveis para tais políticas.
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O fenômeno de aumentar a complexidade de relações entre os países conforme cresce
sua integração econômica e com isto reduzir sua margem de manobra segundo seu próprio
juízo de valor (maior interdependência), explica porque um nível muito alto de integração
econômica exige uma certa simetria entre os países do bloco ou pelo menos uma posição
relativa dentro do conjunto muito clara e objetiva e ao mesmo tempo metas a serem
alcançadas em prazos fixos. Já os baixos níveis de integração mantêm intacto o nível de
autonomia e soberania entre companheiros simétricos e, entre os ass imétricos, eleva a
interdependência assimétrica, ou seja, aumenta o poder dos mais poderosos e a dependên-
cia dos mais fracos.
Mas convém atentar que a questão da formação de Blocos gira em torno do comércio
e, por extensão, das tarifas. A História tem demonstrado que não apenas os países centrais
lutam pelo livre comércio através da rebaixa de tarifas como boicotam o livre comércio atra-
vés do neoprotecionismo. Assim, os países que se utilizaram largamente deste expediente de
proteção tarifária (protecionismo) para fortalecerem seus mercados internos e através de
tais práticas aumentarem sua importância no cenário internacional são os mesmos que
atualmente são os mais poderosos do planeta e devido ao seu poder já acumulado podem
atualmente dispensar a proteção de seus mercados internos através de tarifas e fazê-la por
intermédio de outras barreiras agrupadas sob a denominação comum de Barreiras Não-
Tarifárias (Medidas Paratarifárias; Medidas de Restrições Quantitativas; Medidas de Con-
trole de Preços; Exigências Aplicáveis a Importações Específicas; Medidas Internas).
Tais países têm poder de escolha entre construir uma forma de integração econômica
baseada na interdependência simétrica ou na exploração das assimetrias.
III \u2013 ... e um pouco de prática!
Na segunda metade dos anos oitenta, diante da maior aceleração do processo de
integração da Europa (conhecido então como o Projeto Europa 92) e da tentativa de
autonomização parcial em sua área de influência na América do Sul através da cooperação
econômica de Argentina e Brasil, os Estados Unidos lançaram a \u201cIniciativa para as Améri-
cas\u201d. À época, tal projeto ficou conhecido como \u201cIniciativa Bush\u201d em alusão ao então presi-
dente estadunidense.
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Esta iniciativa resumia-se em \u201cajuda, não. Comércio!\u201d e coadunava-se com a política
externa dos Estados Unidos implementada desde o início da década apoiada no binômio
comércio e finanças. Entre outras coisas, a Iniciativa para as Américas trazia um tratamen-
to para a Dívida Externa (Plano Baker) e a formação de uma Área de Livre Comércio coinci-
dindo geograficamente com o território Americano e Caribenho.
Operacionalmente, a então chamada Área de Livre comércio para as Américas deveria
começar apenas pelos países da América do Norte, ou seja, Canadá, EUA e México e
gradativamente expandir-se para todo o território americano mediante a incorporação de
mercados estratégicos. Por isto foi criada a Área de Livre Comércio da América do Norte
(Nafta \u2013 North American Free Trade Area).
Após o embate inicial entre a efetiva Nafta da Iniciativa Bush e o Pice de Argentina e
Brasil, este último foi esvaziado embora não anulado. Com a entrada de novos presidentes
de orientação mais pró-estadunidenses tanto na Argentina quanto no Brasil (Menén e Collor
de Melo), a resultante do processo no Hemisfério Sul pendeu para a formação de um Merca-
do Comum (como queria a diplomacia brasileira) mas que na prática permaneceu durante
muito tempo apenas como um cronograma automático e linear de rebaixa de tarifas, ou
seja, a construção de uma Zona de Livre Comércio. Este foi o início do Mercosul (Mercado
Comum do Sul) que aos dois países iniciais agregou ainda Paraguai e Uruguai.
A Argentina, durante toda a década seguinte, buscou aproximar-se e manter-se junto
aos Estados Unidos e isto não só dificultou a transformação do Mercosul realmente em um
Mercado Comum, mantendo-o na prática como pouco mais que uma Área de Livre Comér-
cio (pois até a TEC foi extremamente difícil de negociar), mas também facilitou a cristaliza-
ção do processo de uma Área de Livre Comércio sob a égide dos EUA. Esta então deveria
chamar-se Afta \u2013 American Free Trade Area, ou seja, o Nafta sem o \u201cN\u201d. Ocorre que tanto
em inglês quanto em português \u201cafta\u201d significa \u201culcerações bucais\u201d e não ficaria muito
elegante jantares, almoços e reuniões em prol de \u201cferidinhas na boca\u201d de todos os habitan-
tes do território desde o sul da Argentina até o norte do Alasca.
Assim, o que era Nafta para a América do Norte virou Afta e depois FTAA para todo o
continente americano. Em tradução já incorporada no vocabulário: Alca.
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Finalmente, com o novo presidente dos Estados Unidos buscando credibilidade e apro-
veitando o episódio de 11 de setembro de 2001, a iniciativa Bush pôde ser retomada e acele-
rada por seu filho que incorporou à política externa de privilegiar o binômio Comércio-
Finanças sob o slogan \u201cajuda não, comércio!\u201d um complemento significativo: \u201cQuem não
estiver com os EUA está contra ele e será tratado como terrorista\u201d. (Ah, convém não esque-
cer que a CNN também transmitiu algo a respeito de perseguição, prisão e punição...).
IV \u2013 Algumas razões concretas
a) Para os EUA desejarem uma ZLC
\u2022 Uma Zona de Livre Comércio exige que todos os produtos sejam livremente transacionados
entre os parceiros do Bloco, ou seja, todos sem tarifas de importação;
\u2022 em uma ZLC o Neoprotecionismo não é discutido;
\u2022 uma ZLC não pressupõe que exista uma TEC;
\u2022 em uma ZLC a triangulação é obstaculizada por um Certificado de Origem;
\u2022 em uma ZLC as controvérsias são resolvidas por negociação direta;
\u2022 em uma ZLC não existe \u201ccessão de soberania/autonomia\u201d.
b) Para o Brasil desejar um Mercado Comum
\u2022 Mais comércio com os EUA;
\u2022 maior interdependência simétrica;
\u2022 garantia de margem de manobra externa (institucionalização de relações exteriores no
bloco);
\u2022 universalidade de Produtos e Fatores de Produção;
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