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iniciar esta investigação é através do entendimento da fisiopatologia. 
Há quatro etiologias básicas para a criança estar com o crescimento abaixo do esperado:23 
\u2022 Ingestão calórica inadequada: preparação incorreta da fórmula láctea, hábitos alimentares 
inadequados, consistência da alimentação, problemas comportamentais que afetem a 
alimentação, pobreza e falta de alimentos, negligência, relacionamento conflituoso entre pais 
e filhos, dificuldades mecânicas de alimentação (dano ao sistema nervoso central, anomalias 
congênitas). Leia mais sobre a alimentação adequada da criança no item 9. 
\u2022 Absorção inadequada: doença celíaca, fibrose cística, atresia biliar, alergia ao leite de vaca, 
deficiência de vitaminas ou minerais (escorbuto), enterocolite necrotizante 
\u2022 Metabolismo aumentado: hipertireoidismo, infecções crônicas (doença renal, neoplasias, 
imunodeficiências), hipoxemia (cardiopatia congênita, doença pulmonar) 
\u2022 Utilização defeituosa: anormalidades genéticas (Down), infecções congênitas (Rubéola), 
desordens metabólicas (mucopolisacaridoses). 
Através de uma anamnese minuciosa e de um atento exame físico, levando em conta a 
classificação fisiopatológica acima, é possível realizar o diagnóstico da maioria das causas de 
baixo peso, sem haver necessidade de solicitar exames complementares24 [B]. 
Quando já se esmiuçou as diversas possibilidades e não se encontra uma causa para o 
baixo ganho de peso, alguns exames que se pode utilizar são: hemograma completo e EQU23 [D]. 
 
ATENÇÃO À SAÚDE DA CRIANÇA DE 0 A 12 ANOS 
 
APOIO TÉCNICO EM MONITORAMENTO E AVALIAÇÃO DE AÇÕES DE SAÚDE DO SERVIÇO DE SAÚDE COMUNITÁRIA 
 
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8.1.3.2 Criança obesa (IMC \u2265 97) 
Da mesma forma que na criança de baixo peso, é necessária a investigação do hábito 
alimentar e perfil de atividade física desta criança.25 
É importante levar em conta que, após os 6 anos de idade, a probabilidade de a criança 
persistir obesa é de mais de 50%, e que 70 a 80% dos adolescentes obesos permanecerão 
obesos na vida adulta.26 
O diagnóstico e acompanhamento precoce ajudam a evitar a progressão da doença e 
suas comorbidades, enfatizam hábitos de vida saudáveis em crianças e suas famílias, descartam 
causas genéticas e impactam na auto-estima.26 
A obesidade pode ser de causa idiopática ou endógena, conforme quadro 6, que auxilia na 
sua diferenciação:27 
Quadro 6. Características da obesidade idiopática e endógena 
Obesidade Idiopática Obesidade Endógena 
> 90% casos < 10% casos 
Estatura alta (acima P50) Estatura baixa (abaixo P5) 
História familiar de obesidade é comum História familiar de obesidade é incomum 
Desenvolvimento cognitivo normal Desenvolvimento cognitivo prejudicado 
Idade óssea normal Idade óssea atrasada 
Exame físico normal Exame físico com estigmas 
 
As causas mais comuns de obesidade endógena são o hipotireoidismo e a Síndrome de 
Cushing (em geral iatrogênica pelo uso de corticóides sistêmicos).26 
Levando em consideração que mais de 90% das causas de obesidade são idiopáticas 
recomendamos primeiramente uma avaliação clínica mais cuidadosa, antes da solicitação de 
exames complementares. 
Sugerimos que esta criança seja vista com uma freqüência regular pelo profissional que a 
acompanha e que sejam traçadas metas a longo prazo para este acompanhamento, visto que é 
uma doença crônica de difícil adesão ao tratamento. 
8.1.4 Particularidades da criança prematura ou com crescimento intra-uterino inadequado 
O acompanhamento do crescimento de crianças prematuras ou com peso inadequado 
para a idade gestacional exigem um cuidado maior, pois elas não tiveram seu crescimento intra-
uterino adequado. Aproximadamente 10% das crianças nascidas no SSC são prematuras28. 
O ideal acompanhamento das crianças prematuras exige a utilização de curvas 
específicas 29 ou que se corrija a idade cronológica até que completem 2 anos de idade para a 
utilização das curvas padrão. A idade corrigida (idade pós-concepção) traduz o ajuste da idade 
cronológica em função do grau de prematuridade. Considerando que o ideal seria nascer com 40 
semanas de idade gestacional, deve-se descontar o número de semanas que faltaram para atingir 
essa idade gestacional30, ou seja, uma criança nascida com 36 semanas, o peso aos dois meses 
será registrado na idade de um mês. A maioria dos autores recomenda utilizar a idade corrigida na 
avaliação do crescimento e desenvolvimento de pré-termos no mínimo até os 2 anos de idade, 
AVALIAÇÃO DO CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO 
 
APOIO TÉCNICO EM MONITORAMENTO E AVALIAÇÃO DE AÇÕES DE SAÚDE DO SERVIÇO DE SAÚDE COMUNITÁRIA 
 
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para não subestimá-los na comparação com a população referência31 [D]. A correção pela idade 
gestacional permite detectar mais precisamente um período de crescimento compensatório, que 
geralmente ocorre próximo do termo, em pré-termos de diversas idades gestacionais32. O 
crescimento compensatório (catch up) é caracterizado por uma velocidade acelerada no 
crescimento que ocorre após um período de crescimento lento ou ausente, o que permite que pré-
termos, que apresentam peso, comprimento e perímetro cefálico abaixo do percentil mínimo de 
normalidade nas curvas de crescimento pós-natal, consigam equiparar o seu crescimento ao de 
lactentes a termo nos primeiros anos de vida. Em geral, ocorre primeiro com o perímetro cefálico, 
seguido pelo comprimento e depois pelo peso33. 
Crianças que além de serem prematuras, apresentaram restrição de crescimento intra-
uterino têm médias inferiores de peso, comprimento e perímetro cefálico aos 2 anos de idade 
corrigida, quando comparados com controles da mesma idade gestacional. A restrição do 
crescimento pós-natal, mais especificamente o menor perímetro cefálico, por sua vez, relaciona-se 
com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor aos 2 anos de idade corrigida34. 
Apesar de toda criança com peso de nascimento inferior a 2.500g ser considerada de 
risco, bebês prematuros (nascidos com menos de 37 semanas de gestação) com peso adequado 
para a idade gestacional têm melhor prognóstico (excetuando-se os de menos de 1000g), 
especialmente aqueles que vivem em condições ambientais favoráveis. Tais crianças apresentam 
crescimento pós-natal compensatório, chegando ao peso normal para a idade ainda durante o 
primeiro ano de vida35. 
Toda a criança com história de baixo peso ao nascer deve ser considerada como criança 
de risco nutricional e acompanhada com maior assiduidade pelos serviços de saúde, 
principalmente no primeiro ano de vida4 [D]. Isso não apenas pelo risco aumentado de 
internações36 [B] e maior mortalidade infantil primeiro ano de vida37 [B], mas também pelo risco 
aumentado de desenvolver doenças crônico-degenerativas na vida adulta, tais como hipertensão 
arterial sistêmica, infarto do miocárdio, acidentes vasculares cerebrais e diabetes, quando ao 
longo da vida há um ganho excessivo de peso3 [D]. 
O peso ao nascer, que é reflexo do desenvolvimento intra-uterino, está inversamente 
ligado a suspeita de atraso no desenvolvimento neuropsicomotor aos 12 meses38 [B]. Da mesma 
forma, o comprimento ao nascer reflete o crescimento intra-uterino e tem sido sugerido que isso 
pode afetar mais tarde a altura9 [D]. Além disso, o crescimento pós-natal também tem sido 
relacionado com a altura alcançada na idade adulta7,39 [B]. Justifica-se, então, um 
acompanhamento especial do desenvolvimento das crianças com baixo peso ao nascer e as 
provenientes de famílias com condições socioeconômicas menos favoráveis durante o primeiro 
ano de vida38 [B]. 
As crianças desnutridas que sobrevivem à idade adulta tendem a ter menor rendimento 
escolar, redução da produtividade econômica, menor altura, e, no caso das mulheres, 
descendentes com menor peso ao nascer 40,41. E como agravante, as crianças que sofreram 
desnutrição intra-uterina ou nos primeiros anos de vida e que mais tarde passaram a ganhar peso 
rapidamente estão particularmente em risco de doenças crônicas cardiovasculares