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ATENÇÃO À SAÚDE DA CRIANÇA DE 0 A 12 ANOS 
 
APOIO TÉCNICO EM MONITORAMENTO E AVALIAÇÃO DE AÇÕES DE SAÚDE DO SERVIÇO DE SAÚDE COMUNITÁRIA 
 
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metabólicas42. Isso sugere que o dano sofrido no início da vida leva à incapacidade permanente, e 
que pode afetar também as gerações futuras. Sua prevenção provavelmente irá trazer importantes 
benefícios de saúde, educação e econômicos41 [D]. Doenças crônicas são particularmente comuns 
em crianças subnutridas que experimentam rápido ganho de peso após a infância41. 
8.1.5 Particularidades do crescimento durante a puberdade: 
A OMS, em 1995, define a adolescência como o período do desenvolvimento humano 
entre 10 e 19 anos, caracterizado pelo processo de transição entre a infância e a vida adulta, com 
mudanças somáticas, psicológicas e sociais. Compreende também a puberdade, em que se 
observa crescimento somático acelerado, com a ocorrência do pico de crescimento estatural 
(estirão) e de maturação biológica (óssea e sexual)43. O crescimento e desenvolvimento de 
adolescentes nem sempre é padrão, mas vai depender do estágio puberal em que o adolescente 
se encontra. Assim, é importante, para a avaliação do crescimento e ganho de peso, além do uso 
das curvas de crescimento da OMS, identificar o estágio puberal no qual o adolescente se 
encontra. 
Nos meninos, o primeiro sinal de puberdade é o aumento do volume testicular (acima de 
3ml), seguido do aumento de pêlos pubianos e do tamanho do pênis. A ejaculação representa a 
maturidade reprodutiva, e, ao contrário do que ocorre no sexo feminino, o estirão de crescimento é 
mais tardio e duradouro, permanecendo após a maturação dos órgãos sexuais primários e 
secundários. Os pêlos axilares e faciais surgem mais tardiamente. 
Nas meninas, o broto mamário (telarca), uni ou bilateral, é o primeiro sinal da puberdade e 
coincide com o início do estirão de crescimento. Segue-se então o desenvolvimento de pêlos 
pubianos (pubarca) e posteriormente a menstruação (menarca). Cerca de 12-24 meses após a 
telarca, inicia a desaceleração do crescimento. Considera-se atraso puberal nos meninos a 
ausência de sinal de puberdade após os 14 anos e/ou ausência de sinal de pubarca e volume 
testicular de 3ml ou menos. Nas meninas, a puberdade tardia é definida como ausência de 
caracteres secundários até os 13 anos de idade, ou ausência de menarca até os 16 anos. Em 
situação de atraso puberal, a equipe deve encaminhar para consulta médica para melhor 
avaliação e investigação complementar44. 
8.2 O desenvolvimento da criança 
O conceito de desenvolvimento é amplo e refere-se a uma transformação complexa, 
contínua, dinâmica e progressiva, que inclui, além do crescimento, maturação, aprendizagem e 
aspectos psíquicos e sociais¹ [D]. 
Costuma-se falar em desenvolvimento de forma distinta entre desenvolvimento físico, 
cognitivo e psicossocial, como uma forma de facilitar o estudo do desenvolvimento humano. Mas 
cabe apontar que estes aspectos estão interligados e influenciam-se mutuamente durante a vida 
do indivíduo² [D]. 
8.2.1 Acompanhando e avaliando o desenvolvimento infantil 
O acompanhamento do desenvolvimento da criança na atenção primária objetiva sua 
promoção, proteção e detecção precoce de alterações passíveis de modificação que possam 
AVALIAÇÃO DO CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO 
 
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repercutir em sua vida futura. Isso ocorre principalmente por meio de ações educativas e de 
acompanhamento integral da saúde da criança³ [D]. 
Estudo de revisão da prática da puericultura concluiu que testes formais para detecção de 
problemas de desenvolvimento apresentam baixo valor preditivo e que há controvérsias sobre os 
benefícios efetivos do diagnóstico precoce de distúrbios de desenvolvimento4 [D]. No entanto, a 
identificação e intervenção precoces são consideradas fundamentais para o prognóstico das 
crianças com distúrbios de desenvolvimento6 [D]. Desta forma, é de relevância a monitorização do 
desenvolvimento de crianças e jovens, sendo que, os principais protocolos preconizam a avaliação 
objetiva de habilidades motoras, comunicação, interação social e cognitivas nas consultas de 
supervisão de saúde5,4,7,8,9 [D]. 
As avaliações do desenvolvimento da criança são realizadas através das informações e 
opiniões dos pais sobre o desenvolvimento do filho3,4,10 [D]. Há estudos mostrando que a opinião 
em relação ao desenvolvimento do filho em mães com maior escolaridade é potencialmente útil 
como subsídio para identificar crianças com atraso no desenvolvimento3 [D]. Recomenda-se 
procurar ouvir, informar e discutir assuntos que dizem respeito às habilidades desenvolvidas e à 
maneira como a criança as explora, relacionando-as aos riscos de lesões não intencionais e 
medidas para sua prevenção3 [D]. Há consenso na literatura de que os pais são bons 
observadores e detectores das deficiências apresentadas por seus filhos, mostrando alta 
sensibilidade, especificidade e valor preditivo10, 6 [D]. 
Para facilitar a identificação e avaliação dos marcos e aspectos do desenvolvimento da 
criança durante as consultas preconizadas neste protocolo, apresentamos o quadro 7. 
8.2.2. Distúrbios no desenvolvimento 
Em relação à prevalência de distúrbios de desenvolvimento, a literatura refere a não 
existência de estudos consistentes, em crianças abaixo de três anos15. Os fatores de risco para 
problemas de desenvolvimento podem ser classificados como genéticos (ex: síndrome de Down), 
biológicos (ex: prematuridade, hipóxia neonatal, meningites) e/ou ambientais (familiares, ambiente 
físico, sociais)10,6 [D]. No entanto, a maior parte dos traços de desenvolvimento da criança é de 
origem multifatorial e representa a interação entre a herança genética e os fatores 
ambientais13,16,17 [D]. Estudo de coorte realizado em Pelotas identificou fatores de risco para atraso 
no desenvolvimento aos doze meses, são eles: pobreza, baixo-peso ao nascer, prematuridade, 
mais de três irmãos morando juntos, desmame precoce e baixo peso para a idade. Considerando 
também que o acúmulo de fatores de risco potencializaram o surgimento de atraso nestas 
crianças15 [B]. 
O baixo peso ao nascer e a prematuridade são eventos que podem retardar o 
desenvolvimento da criança13,19 [D]. Os recém-nascidos prematuros e de baixo peso apresentam 
um fator de risco maior para o surgimento de alterações globais em seu desenvolvimento, como 
linguagem, motricidade, aprendizagem e atraso neuropsicomotor, podendo, contudo, evoluir 
durante os primeiros dois anos de vida para padrões da normalidade na maioria dos casos. No 
entanto, as maiores taxas de deficiência ocorrem nas menores faixas de peso e idade gestacional, 
tendo correlação com a incidência de complicações no período neonatal18 [B]. Estudo de coorte 
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evidenciou que as crianças com baixo peso ao nascer tiveram quatro vezes mais chance de 
apresentar problemas em relação àquelas com maior peso, e o fator prematuridade teve mais 
chance (60%) de evidenciar problemas no desenvolvimento15 [B]. 
Conforme estudo descritivo realizado em um hospital Público de Porto Alegre, a 
prematuridade e baixo peso baixo ao nascer caracterizam risco ao desenvolvimento da criança. 
Entre as crianças com baixo peso ao nascer e prematuras estudadas, 49,4 % apresentaram atraso 
em seu desenvolvimento, sendo que, a maior freqüência de atraso ocorreu nas áreas motora 
(77,9%), comunicativa (58,4%), pessoal social (57,1%)19 [D]. 
A manifestação dos distúrbios de desenvolvimento é muito variável e pode predominar a 
deficiência mental, física, auditiva, visual ou relacional. A deficiência mental caracteriza-se por um 
estado de redução notável do funcionamento intelectual significativamente inferior à média, que se 
inicia durante o período de desenvolvimento