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VIOLÊNCIA: PREVENÇÃO, MANEJO E IDENTIFICAÇÃO DE VULNERABILIDADE NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA 
 
APOIO TÉCNICO EM MONITORAMENTO E AVALIAÇÃO DE AÇÕES DE SAÚDE DO SERVIÇO DE SAÚDE COMUNITÁRIA 
 
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Devem-se observar: 
Lesões não compatíveis com a idade ou desenvolvimento psicomotor da criança: 
\u2022 Fraturas em crianças menores de um ano e meio15 [C]. 
Lesões não justificáveis pelo acidente relatado: 
\u2022 Fraturas de fêmur em crianças menores de dezoito meses16 [B]. 
\u2022 Fraturas de crânio em relato de quedas de berço. Fraturas de perna em quedas de bicicleta 
em crianças abaixo de quatro anos 17. 
Lesões bilaterais: 
\u2022 Hemorragia bilateral de retina18 [A]. 
Lesões em várias partes do corpo: 
\u2022 Lacerações, equimoses, hematomas, cortes, perfurações ou queimaduras que lembram 
objetos, como fios, cintos, fivelas, mãos, solado; 
\u2022 Lesões circulares em pescoço, punhos ou tornozelos são indícios de tentativa de 
enforcamento ou de que esta sendo mantida amarrada;17 
\u2022 Ausência de cabelo e ou presença hemorrágica no couro cabeludo indicam puxões vigorosos 
dos cabelos e encobrem lesões internas mais comprometedoras, como fraturas 19 [B]. 
\u2022 Edema subdural 20 [C]. 
\u2022 Lesões que envolvem regiões usualmente cobertas do corpo, como grandes extensões de 
dorso, região interna de coxa, genitália, dentes amolecidos ou fraturados 17. 
\u2022 Lesões em estágios diferentes de cicatrização ou cura são características de maus tratos, 
indicando injurias repetidas que podem culminar com a morte da criança14. 
\u2022 Queimaduras por imersão ou escaldadura, em luva, em meia, com limites bem definidos, 
envolvendo todo membro ou parte dele, em região genital e de nádegas, ou ainda com forma 
do objeto, como ponta de cigarro17. 
\u2022 Lesões abdominais em crianças maiores e adolescentes, decorrentes de espancamentos, 
socos ou pontapés podem levar a ruptura ou sangramento de vísceras ou síndromes 
obstrutivas de intestino delgado, por formação de hematomas de parede17. 
14.2.2 Indicadores de violência sexual1 
O quadro 1 apresenta os indicadores físicos, comportamentais e os sentimentos 
freqüentes das crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. 
ATENÇÃO À SAÚDE DA CRIANÇA DE 0 A 12 ANOS 
 
APOIO TÉCNICO EM MONITORAMENTO E AVALIAÇÃO DE AÇÕES DE SAÚDE DO SERVIÇO DE SAÚDE COMUNITÁRIA 
 
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Quadro 1. Indicadores físicos, comportamentais e sentimentos freqüentes da violência sexual. 
Indicadores Físicos Indicadores Comportamentais* Sentimentos 
Freqüentes 
-Traumatismos e lesões diversas na 
genitália e/ou ânus (vermelhidão, 
inchaço, mordida); 
- dilatação himenal; 
- sangramentos (vagina, ânus); 
- secreções vaginais (\u201ccorrimentos\u201d); 
- infecções urinárias; 
- DST; 
- gravidez; 
- infecções de garganta (crônicas) - 
deve-se fazer diagnóstico diferencial, 
podendo se dar pela prática do sexo 
oral (pensar em gonorréia); 
- doenças psicossomáticas (dor de 
barriga, dor de cabeça, dor nas pernas, 
nos braços, na vagina, no ânus); 
- dores abdominais; 
- enurese; 
- encoprese; 
-distúrbios na alimentação (perda ou 
ganho excessivo de peso). 
 
- distúrbios do sono (sonolência, 
pesadelos, cansaço, recusa em ir para 
cama, insônia) ou do apetite (bulimia, 
anorexia); 
-sintomas obsessivos compulsivos, 
como preocupação exagerada com 
limpeza; 
- ansiedade extrema; 
- comportamento muito agressivo ou 
apático; 
- imagem corporal distorcida; 
- baixa auto-estima, insegurança; 
- dificuldade de concentração e 
aprendizagem; 
- relutância em voltar para casa; 
- faltas freqüentes à escola; 
- dificuldades para participar de 
atividades físicas; 
- afastamento, isolamento social, poucos 
amigos da mesma faixa etária; 
- choro sem motivo aparente; 
- medos constantes; medo de adultos; 
medo de ser atraente (repulsa ao 
contato físico); 
- comportamento tenso, hipervigilância 
(\u201cestado de alerta\u201d); 
- desconfiança; 
- tristeza, abatimento profundo, 
depressão (em razão de sentimento de 
culpa, de sentir-se \u201cmau\u201d); 
- conduta regressiva com 
comportamento muito infantilizado; 
- comportamento sexualmente explícito 
(ao brincar demonstra conhecimento 
detalhado sobre sexo, inapropriado para 
idade); 
- masturbação excessiva, brincadeiras 
sexuais agressivas; 
- comportamento sedutor; 
- fugas; 
- automutilação; 
- comportamentos anti-sociais; 
- uso de álcool e drogas; 
- agressões sexuais; 
- promiscuidade, \u201cprostituição\u201d; 
- tentativas ou fantasias suicidas, 
suicídio. 
- Culpa; 
- vergonha; 
- impotência; 
- confusão; 
- ambivalência; 
- tristeza; 
- medo; 
- insegurança; 
- desamparo. 
*Não podemos considerar nenhum indicador isoladamente, pois cada um deles pode caracterizar diferentes etapas do 
desenvolvimento normal ou de outros fatores desencadeantes de problemas físicos e/ou psicológicos. Devemos observar a 
ocorrência concomitante de vários sintomas e sinais ou surgimento inapropriado para a idade da criança. 
*Esses indicadores podem estar presentes em outras formas de violências. 
 
14.3 Manejo dos casos 
14.3.1 Ampliando a rede profissional de apoio para o diagnóstico e a tomada de decisões. 
Freqüentemente, o profissional de saúde se depara com situações de difícil diagnóstico e 
não sabe qual encaminhamento deve ser feito para os casos de maus-tratos. Sempre que 
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possível, é importante que a avaliação seja feita por uma equipe multiprofissional, que pode 
compartilhar da decisão diante de cada caso1,6,7 [D]. 
Deve-se manter uma atitude de isenção e procurar esclarecer ou confirmar as suspeitas 
de maus-tratos sem julgamento de valores, acusação ou censura dos pais6,7 [D]. 
14.3.2 Interromper a violência 3,6,7,20,21,22,23,36 
Situações de violência são \u201cpara parar\u201d, como evoca o nome do Programa de Vigilância da 
Violência Secretaria Municipal da Saúde de Porto Alegre. 
Eticamente, é necessário conversar com a família, explicar que, mesmo que não tenha 
havido intenção de ferir ou negligenciar, a criança está em situação de risco, e o profissional tem 
obrigação legal de comunicar o que está acontecendo às instituições de proteção. Além disso, 
deverá salientar que ela se beneficiará de ajuda competente. Desta forma, mantém-se uma atitude 
de ajuda, pois esta família precisará de amparo e de reorganização de vínculos durante o 
processo de atendimento.7 
É importante orientar a família quanto ao seu papel de proteção, explicando as graves 
conseqüências da situação para o crescimento e desenvolvimento da criança 7,22 [D]. 
A proteção da criança deve nortear todo o atendimento prestado, objetivando seu bem 
estar e de seus familiares, sua segurança. Esta visão auxilia o profissional a acolher a família e 
adotar uma atitude empática com os pais.21 
A notificação e o adequado registro dos casos de violência são as medidas iniciais para o 
atendimento de proteção às vítimas e para o apoio às suas famílias e visa a interromper as 
atitudes e comportamentos violentos no âmbito da família e por parte de qualquer agressor.22 A 
notificação dos casos suspeitos e confirmados à autoridade competente (Conselho Tutelar) é 
obrigatória e de responsabilidade do profissional de saúde, conforme a Lei nº 8.069/1990 - 
Estatuto da Criança e do Adolescente, artigo 245, e Lei nº1.968. MS/GM/2001, que dispõe sobre 
notificação de casos suspeitos e confirmados de maus-tratos contra crianças e adolescentes 
atendidos pelo Sistema Único de Saúde.20 
A Ficha de Notificação de Violências tem como escopo construir um relato claro e 
compreensivo sobre o ato da violência, dando informações às autoridades de saúde e outras 
instâncias legais. 22 
É fundamental que também se registre em prontuário dados de anamnese, relato de 
exames físico e complementar, uma vez que o sistema judiciário poderá solicitá-los à unidade de 
saúde. 3 
A notificação ao Conselho Tutelar não é uma ação policial, objetiva desencadear