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EM MONITORAMENTO E AVALIAÇÃO DE AÇÕES DE SAÚDE DO SERVIÇO DE SAÚDE COMUNITÁRIA 
 
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3. A primeira consulta do recém-nascido 
Maria Lucia Medeiros Lenz 
\u201cO que eu mais queria dessa primeira consulta é 
que o médico a examinasse bem. Queria ter 
certeza que estava tudo bem com ela. Essa 
consulta não pode ser apressada. Acho 
importante receber orientação sobre a 
amamentação. A primeira consulta da minha filha 
foi muito importante pra mim, mesmo não sendo 
mãe de primeira viagem\u201d 
 
Luciana, 36 anos, mãe de Marina, 1 ano. Moradora da área 
de atuação da US Floresta 
 
A possibilidade de acompanhar famílias ao 
longo do tempo mantém os profissionais da atenção 
primária em uma situação privilegiada no 
reconhecimento de situações que necessitam ser mais 
bem entendidas e acompanhadas1. 
Em serviços de atenção primária, como o 
Serviço de Saúde Comunitária, o profissional que realiza o pré-natal freqüentemente é o que 
seguirá acompanhando a família durante a puericultura. Sendo assim, o fundamental vínculo entre 
equipe de saúde e a família do recém-nascido2 [D] para o acompanhamento da criança vem 
ocorrendo pelo menos desde o pré-natal. 
O nascimento de um bebê é um momento de transição-chave do ciclo de vida da família3, 
e o surgimento de dúvidas, inseguranças e questionamentos são extremamente comuns4. A 
família deverá reconhecer a equipe de saúde como um ponto de apoio para a superação desta 
etapa2,4 [D], que se constitui na necessidade de adaptação à presença de um novo ser no sistema 
familiar, da representação de novos papéis e do realinhamento de relacionamentos3 . 
3.1 A época ideal para a primeira consulta 
A primeira consulta do recém-nascido, segundo recomendação do Ministério da Saúde4 e 
da Sociedade Brasileira de Pediatria5, deverá acontecer antes dos quinze dias de vida [D], 
momento propício para estimular e auxiliar nas dificuldades do aleitamento materno exclusivo, 
orientar e realizar imunizações, verificar a realização do teste do pezinho, reforçar a realização do 
teste da orelhinha e para estabelecer ou reforçar rede de apoio à família. 
3.2 O conteúdo da consulta 
Os cuidados com a saúde do bebê e sua família devem ser sempre individualizados2,4,6 
[D]. No entanto, as recomendações descritas a seguir são extensivas a todos os recém-nascidos 
durante sua primeira consulta. 
Recomendamos a utilização de formulários específicos para o registro das consultas 
(anexos 2 e 3 ). Esses formulários vêm sendo atualizados a partir de material produzido e utilizado 
pelas equipes desde a implantação do Programa da Criança no SSC (1992) e de sua 
ATENÇÃO À SAÚDE DA CRIANÇA DE 0 A 12 ANOS 
 
APOIO TÉCNICO EM MONITORAMENTO E AVALIAÇÃO DE AÇÕES DE SAÚDE DO SERVIÇO DE SAÚDE COMUNITÁRIA 
 
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reestruturação em 1996\u2217. Instrumentos como estes são reconhecidos como facilitadores da 
comunicação entre pais e profissionais2 [C]. 
3.2.1 Anamnese 
Procura-se avaliar principalmente as condições do nascimento (tipo de parto, local do 
parto, peso ao nascer, idade gestacional, índice de Apgar, intercorrências clínicas na gestação, 
parto, período neonatal e tratamentos realizados)2,4,6 [D] e os antecedentes familiares (condições 
de saúde dos pais e irmãos, número de gestações anteriores, número de irmãos) 4,6 [D]. 
Índice de Apgar no quinto minuto entre 7 a 10 é considerado normal. Apgar 4, 5 ou 6 é 
considerado intermediário e relaciona-se, por exemplo, a prematuridade, medicamentos usados 
pela mãe, malformação congênita, e não significa maior risco para disfunção neurológica. Índices 
de 0 a 3 no quinto minuto relacionam-se a maior risco de mortalidade e leve aumento de risco para 
paralisia cerebral. No entanto, um baixo índice Apgar, isoladamente, não prediz disfunção 
neurológica tardia7 [D]. 
3.2.2 Exame físico completo 
Um exame físico completo deve ser realizado na primeira consulta de puericultura4 [D]. É 
consenso que o exame físico e seus achados devem ser descritos e compartilhados com os pais, 
como forma de facilitar-lhes a percepção das necessidades do bebê2 [D]. 
O quadro a seguir refere-se a uma adaptação das recomendações do Ministério da 
Saúde4 e do NICE2 para exame físico nas primeiras semanas de vida. 
Quadro 1. Tópicos do exame físico na primeira consulta do recém-nascido2,4 [D]. 
Tópicos do exame 
físico Ações específicas 
Peso, comprimento e 
perímetro cefálico 
Avaliar comprimento e perímetro cefálico. Avaliar o peso em relação ao peso ao nascer. 
Considera-se normal uma perda de peso de 10-15% ao nascer e a sua recuperação após o 
15o dia de vida. O perímetro cefálico com medidas acima ou abaixo a dois desvios padrões, 
pode estar relacionado a neuropatologias como microcefalia (de causa genética ou 
ambiental) e hidrocefalia, necessitando desta forma melhor avaliação e encaminhamento8. 
Desenvolvimento 
social e psicoafetivo 
Observar e avaliar o relacionamento da mãe/cuidador e dos familiares com o bebê: como 
respondem às suas manifestações, como interagem com o bebê e se lhe proporcionam 
situações variadas de estímulo. 
Estado geral Avaliar postura normal do recém-nascido \u2013 extremidades fletidas, mãos fechadas e o rosto, 
geralmente, dirigido a um dos lados. 
Observar padrão respiratório \u2013 presença de anormalidades como batimentos de asas do 
nariz, tiragem intercostal ou diafragmática e sons emitidos. 
Avaliar estado de vigília do recém-nascido \u2013 avaliar o estado de alerta, sono leve ou 
profundo e o choro. 
Identificar sinais de desidratação e/ou hipoglicemia: pouca diurese, má ingestão (não 
consegue mamar ou vomita tudo que mama), hipoatividade e letargia. 
A temperatura axilar normal situa-se entre 36,4o C e 37,2o C. Não necessita ser medida 
rotineiramente em crianças assintomáticas, exceto na presença de fatores de risco, como 
hipertermia materna durante o parto. 
Face Pesquisar assimetria, malformação, deformidade ou aparência sindrômica. 
Pele Observar presença de: 1. edema (se generalizado pensar em doença hemolítica perinatal, 
iatrogenia por uso de colóides ou cristalóides em excesso, insuficiência cardíaca, sepse; se 
localizado, sugere trauma de parto). 2. palidez (sangramento, anemia, vasoconstrição 
periférica ou sinal de arlequim \u2013 palidez em um hemicorpo e eritema do lado oposto, por 
alteração vasomotora e sem repercussão clínica). 3. cianose (se generalizada, pensar em 
patologias cardiorespiratórias graves; se localizada em extremidades ou região perioral, 
pensar em hipotermia). 
Continua 
 
\u2217
 LEITE, W.L. et al. Ações Materno-Infantis: atenção à saúde da criança. Serviço de Saúde Comunitária do Grupo 
Hospitalar Conceição, 1996. 
A PRIMEIRA CONSULTA DO RECÉM-NASCIDO 
 
APOIO TÉCNICO EM MONITORAMENTO E AVALIAÇÃO DE AÇÕES DE SAÚDE DO SERVIÇO DE SAÚDE COMUNITÁRIA 
 
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continuação 
Tópicos do exame 
físico Ações específicas 
 
4. icterícia (considera-se anormal quando iniciada nas primeiras 24h ou depois do 7o dia de 
vida e/ou com duração maior que 1 semana em RN a termo e 2 semanas em pré-termo)9 
Pesquisar assaduras, pústulas (impetigo), bolhas palmoplantares (sífilis). Esclarecer a família 
quanto à benignidade do eritema tóxico. 
Crânio Examinar fontanelas: a fontanela anterior mede de 1-4cm, tem forma losangular, fecha-se do 
9º ao 18o mês e não deve estar fechada ao nascimento. A fontanela posterior é triangular, 
mede cerca de 0,5 cm e fecha-se até o segundo mês. Não devem estar túrgidas, abauladas 
ou deprimidas. Bossa serossanguínea e cefalohematomas (mais delimitado que a bossa e 
involui mais lentamente) desaparecem espontaneamente. 
Olhos Reflexo fotomotor 9 \u2013 projeta-se um feixe de luz em posição ligeiramente lateral a um olho. 
A pupila deve se contrair rapidamente. O teste deve ser repetido no outro olho, devendo ser 
comparado com o primeiro. Avalia basicamente a estrutura anátomo-funcional. 
Teste do reflexo vermelho ou Bruckner Test 9 \u2013 deve ser realizado na penumbra (para a 
pupila ficar mais dilatada), com