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DOCÊNCIA EM SAÚDE PRÁTICA PEDAGÓGICA 1 Copyright © Portal Educação 2012 – Portal Educação Todos os direitos reservados R: Sete de setembro, 1686 – Centro – CEP: 79002-130 Telematrículas e Teleatendimento: 0800 707 4520 Internacional: +55 (67) 3303-4520 atendimento@portaleducacao.com.br – Campo Grande-MS Endereço Internet: http://www.portaleducacao.com.br Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - Brasil Triagem Organização LTDA ME Bibliotecário responsável: Rodrigo Pereira CRB 1/2167 Portal Educação P842p Prática pedagógica / Portal Educação. - Campo Grande: Portal Educação, 2012. 19p. : il. Inclui bibliografia ISBN 978-85-8241-322-7 1. Educação. 2. Pedagogia. 3. Prática pedagógica. I. Portal Educação. II. Título. CDD 371.1 2 SUMÁRIO 1 ESCOLA E PRÁTICA PEDAGÓGICA ...................................................................................... 3 2 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................... 4 2.1 REFLEXÃO INICIAL .................................................................................................................. 4 2.2 A PRÁTICA PEDAGÓGICA: COMO FAZER A EDUCAÇÃO .................................................... 4 2.3 PEDAGOGIA LIBERAL TRADICIONAL ..................................................................................... 7 2.4 REFLEXÃO INICIAL .................................................................................................................. 8 2.5 O AUTORITARISMO COMO BASE DA APRENDIZAGEM ........................................................ 8 2.6 PEDAGOGIA DA ESCOLA NOVA E TECNICISTA .................................................................. 11 3 A TENDÊNCIA ESCOLA NOVA .............................................................................................. 13 4 A TENDÊNCIA LIBERAL TECNICISTA .................................................................................. 15 REFERÊNCIAS ................................................................................................................................... 17 3 1 ESCOLA E PRÁTICA PEDAGÓGICA Do ponto de vista prático, trata-se de retomar vigorosamente a luta contra a seletividade, a discriminação e o rebaixamento do ensino das camadas populares. Lutar contra a marginalidade, por meio da escola, significa engajar-se no esforço para garantir aos trabalhadores um ensino da melhor qualidade possível nas condições históricas atuais. O papel de uma teoria crítica da educação é dar substância concreta a essa bandeira de luta, de modo a evitar que ela seja apropriada e articulada com os interesses dominantes (SAVIANI, 1987, p.36). 4 2 INTRODUÇÃO Na prática pedagógica deve-se desenvolver uma reflexão sobre a educação e identificar algumas das práticas que envolvem o processo de ensino e aprendizagem, assim como a construção do conhecimento, nos espaços formais e informais da educação. Não podemos deixar de lado nossa preocupação com a Educação Infantil; para tanto, é fundamental fazermos algumas observações sobre a prática pedagógica neste campo da educação. 2.1 REFLEXÃO INICIAL A prática pedagógica é um dos elementos fundamentais na educação, contudo, não podemos resumi-Ia a partir de uma única concepção, muito pelo contrário, existem várias concepções da aprendizagem, teorias epistemológicas, entendimentos sobre a educação que, de alguma maneira, embasam as diversas formas de práticas pedagógicas. Levando em consideração o que afirmamos anteriormente, é necessário buscar responder alguns questionamentos: Quais as práticas pedagógicas que você utiliza enquanto educador? Como se dá a construção das práticas pedagógicas? Qual a relação que podemos estabelecer entre as práticas pedagógicas e as teorias da aprendizagem? Podemos dizer que existe uma prática pedagógica específica da Educação Infantil? 2.2 A PRÁTICA PEDAGÓGICA: COMO FAZER A EDUCAÇÃO 5 Um dos grandes papéis da educação na atualidade é de efetivar-se enquanto instrumento fundamental de transformação da sociedade; isto é, a educação, por meio de suas ações, pode possibilitar a mudança das pessoas, dos grupos, das instituições em que está inserida. Dessa forma, não podemos conceber a educação como uma ação imobilizadora, muito pelo contrário, deve ser entendida em sua plena função mobilizadora, dinâmica, construtora de uma sociedade mais cidadã, em uma perspectiva de democratização de seus espaços. A prática pedagógica é uma prática social, uma prática política, pois não se pode conceber a educação sem um vínculo sócio-histórico. Segundo Aranha (1996), a educação não pode ser compreendida fora de um contexto histórico-social concreto, sendo a prática social o ponto de partida e o ponto de chegada da ação pedagógica. A educação é uma prática humana direcionada por uma determinada concepção teórica. A prática pedagógica está articulada com urna pedagogia, que nada mais é que uma concepção filosófica da educação. Tal concepção ordena os elementos que direcionam a prática educacional (LUCKESI, 1994, p. 21). A aprendizagem é um dos principais objetivos de toda prática pedagógica, e a compreensão ampla do que se entende por aprender é fundamental na construção de uma proposta de educação, também mais aberta e dinâmica, definindo, por consequência, práticas pedagógicas transformadoras. Dessa forma, é fundamental pensar que: À medida que a sociedade se torna cada vez mais dependente do conhecimento, é necessário questionar e mudar certos pressupostos que fundamentam a educação atual. (...) A aprendizagem é uma atividade contínua, iniciando-se nos primeiros minutos da vida e estendendo-se ao longo dela. Isso significa expandir o conceito de aprendizagem: ele não deve estar restrito ao período escolar e pode ocorrer tanto na infância quanto na vida adulta. A escola será um - entre muitos outros - dos ambientes em que será possível adquirir conhecimento. Para tanto, ela terá que incorporar os mais recentes resultados das pesquisas sobre aprendizagem e assumir a função de propiciar oportunidades para o aluno gerar e não somente consumir conhecimento, desenvolvendo, assim, competências e habilidades para poder continuar a aprender ao longo da vida (VALENTE, 2000). O ato de aprender a aprender é, sem dúvida alguma, uma das principais funções do 6 ato de ensinar, ou melhor, do ato de educar. A construção de uma pessoa mais autônoma, no processo de aprender, torna-a mais autônoma no processo de viver - de definir os rumos de sua vida. Mas, para que isso não se transforme em uma ação individualista, é fundamental tornar a prática pedagógica em uma prática ética, comprometida, coerente, ao mesmo tempo, consciente e competente. A ação educativa - evidenciada a partir de suas práticas - permite aos alunos darem saltos na aprendizagem e no desenvolvimento, é a açãosobre o que o aluno consegue fazer, com a ajuda do outro, para que consiga fazê-lo sozinho. Entretanto, é princípio de toda instituição de ensino (principalmente da escola) garantir a aprendizagem a todos, visto que todos são capazes de aprender. Nas relações entre filosofia e educação somente existem, realmente, duas opções: ou se pensa e se reflete sobre o que se faz e, assim, se realiza uma ação educativa consciente, ou não se reflete criticamente e se executa uma ação pedagógica a partir de uma concepção mais ou menos obscura e opaca, existente na cultura vivida do dia a dia - e, assim, se realiza uma ação educativa com baixo nível de consciência (LUCKESI, 1994, p. 32). O educador tem também função importante nesse processo, pois as práticas pedagógicas devem permitir aos alunos não somente acessarem o conhecimento, mas também transformá-los, inová-los. O educador tem a função de mediador entre o conhecimento historicamente acumulado e o aluno. Ser mediador, no entanto, implica também ter apropriado esse conhecimento. Portanto, devemos pensar: Num novo professor, mediador do conhecimento, sensível e crítico, aprendiz permanente e organizador do trabalho na escola, um orientador, um cooperador, curioso e, sobretudo, um construtor de sentido. Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção (...). É preciso que, pelo contrário, desde o começo do processo, vá ficando cada vez mais claro que, embora diferentes entre si, quem forma se forma e reforma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado (...) Não há docência sem discência, as duas explicam-se e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender (FREIRE, apud. GADOTTI, 2000, p. 45). Podemos, assim, entender que não mais cabe uma educação na qual somente se pensa em uma onipotência do educador e da escola, mas é sempre preciso estar colocando em questão as práticas pedagógicas desenvolvidas por estes agentes da educação. A educação 7 deve buscar novos parâmetros, novas perspectivas, e permitir-se inovar, transformar. Dessa maneira, Gadotti (2000) propõe: ...na era do conhecimento, a pedagogia tornou-se a ciência mais importante porque ela objetiva justamente promover a aprendizagem. A era do conhecimento é também a era da sociedade 'aprendente': todos se tornaram aprendizes. A pedagogia não está mais centrada na didática, em como ensinar, mas na ética e na filosofia, que se pergunta como devemos ser para aprender e o que precisamos saber para aprender e ensinar. E muda a relação ensino-aprendizagem. Humberto Maturana (1989) em sua Oração do estudante, diz: 'Por que me impôs o que sabes se eu quero aprender o desconhecido e ser fonte em minha própria descoberta?' Ambos, em sessões de trabalho, aprendem e ensinam com o que juntos descobrem (GADOTTI, 2000, p. 45- 46). A escola, por sua vez, passa a ter uma nova função - ser espaço de otimização dos processos de aprendizagem e dos processos de construção de cidadãos. Do contrário, ela está fadada a continuar reproduzindo os papéis definidos pelo sistema, cabendo somente a função de disciplinadora. Nessa perspectiva, Foucault afirma que "cada sistema de educação é um meio político para manter ou para modificar a apropriação do discurso (...). O que é um sistema educacional, afinal, senão a ritualização da palavra, a qualificação de alguns papéis fixos para interlocutores e a distribuição e a apropriação do discurso, com todas as suas aprendizagens e poderes?" Pode-se concluir que a educação produz suas práticas em virtude do projeto de sociedade a que está vinculada. Portanto, para que as práticas pedagógicas garantam o desenvolvimento de pessoas capazes de aprender, cidadãs, solidárias, produtoras de conhecimento, a educação deverá ser um instrumento importante de uma sociedade que acredite nessas características. 2.3 PEDAGOGIA LIBERAL TRADICIONAL “Mandamos, em primeiro lugar, as crianças à escola, não na intenção de que nela aprendam alguma coisa, mas a fim de que se habituem a observar pontualmente o que se lhes ordena”. (KANT) As teorias pedagógicas desenvolvem-se em contextos diferenciados, com 8 características e projetos político-pedagógicos próprios, mas com um objetivo comum: orientar as ações pedagógicas. Neste sentido, é fundamental estudarmos todas as teorias pedagógicas. E começaremos pela Pedagogia Liberal Tradicional. Portanto, nosso objetivo é demonstrar os princípios da Pedagogia Liberal Tradicional, assim como suas bases teóricas e práticas, que fundamentam uma concepção de educação conservadora. 2.4 REFLEXÃO INICIAL É evidente que tanto as tendências quanto suas manifestações não são puras nem mutuamente exclusivas, o que, aliás, é a limitação principal de qualquer tentativa de classificação. Em alguns casos as tendências complementam-se, em outros, divergem. De qualquer modo, a classificação e sua descrição poderão funcionar como um instrumento de análise para o professor avaliar a sua prática de sala de aula. (LIBÂNEO, 1999, p. 13) Portanto, não queremos classificar a Pedagogia Liberal Tradicional, mas sim, descrevê-Ia e analisá-Ia, com o intuito de melhor instrumentalizar nossa ação pedagógica. 2.5 O AUTORITARISMO COMO BASE DA APRENDIZAGEM Fundamentada nas ideias iluministas, a Pedagogia Liberal Tradicional foi à base da educação escolar por mais de quatro séculos, mantendo sua influência até hoje. Essa tendência surge por volta do século XVI, como uma alternativa à escola medieval, de base religiosa. Nesse período, vive-se um momento de exaltação da razão e da liberdade, a inversão e/ou superação da fé pela razão, da crença pela ciência. É neste contexto que John Locke desenvolve uma nova concepção da mente infantil 9 e, consequentemente, de educação, enfatizando o papel do mestre em proporcionar experiências fecundas que auxiliem a criança a fazer uso correto da razão. Para isso, a escola deve centrar-se no ensino da História, da Geografia, das Ciências Naturais e, principalmente, da Contabilidade e das escriturações comerciais, visando à preparação mais ampla para a vida prática, seguindo as ideias iluministas que irão garantir o avanço dos ideais liberais capitalistas desta época. O termo liberal não tem o sentido de "avançado", "democrático", "aberto", como costuma ser usado. A doutrina liberal apareceu como justificação do sistema capitalista que, ao defender a predominância da liberdade e dos interesses individuais da sociedade, estabeleceu uma forma de organização social baseada na propriedade privada dos meios de produção, também denominada sociedade de classe. A pedagogia liberal, portanto, é uma manifestação própria desse tipo de sociedade (LIBÂNEO, 1994, p. 54) Com o avanço da industrialização, a escola passa a ter um papel importante na difusão das ciências. A influência positivista fica clara ao vermos a ênfase dada ao estudo de conteúdos enciclopédicos, na tentativa de tratar de assuntos que, direta ou indiretamente, ajudariam no desenvolvimento das Ciências Naturais. Para ARANHA (1996, p. 160), "essa tendência é responsável pelo cientificismo que marcou muitas vezes a escolha dos currículos escolares". Com o intuito de formar indivíduos capazes de desempenhar seu papel na sociedade (papel historicamente definido e imutável), a Pedagogia Liberal Tradicional baseia-se em três procedimentos básicos: o governo, a instrução e a disciplina.O governo consiste no controle da agitação infantil, aplicado inicialmente pelos pais e depois pelos mestres, visando submeter à criança às regras do mundo adulto e tornando possível o início da instrução. (...) A instrução é o procedimento principal da educação e baseia-se no desenvolvimento dos interesses (...). Formar moralmente uma criança é educar sua vontade, e isso somente pode ser feito por meio de maior clarificação das representações e do crescimento das ideias na mente da criança. (...) A disciplina é o procedimento pelo qual se mantém firme a vontade educada no propósito da virtude (ARANHA, 1996, p. 161). Para garantir o melhor desenvolvimento do conhecimento da criança, essa tendência propõe cinco passos formais: preparação - revisão do conteúdo anterior; apresentação - o mestre repassa o novo conhecimento; assimilação - o aluno faz ligação do novo com o velho, percebendo semelhanças e diferenças; generalização - o aluno constrói concepções abstratas a partir de suas experiências; aplicações por meio de exercícios o aluno aplica o que aprendeu. 10 Podemos perceber que este método está baseado no conhecimento do mestre/professor, em um caráter "magistrocêntrico", isto é, o professor tem toda a autoridade, pois é ele quem detém o conhecimento, e cabe a ele transmiti-lo aos alunos. É uma relação vertical, em que o aluno é o receptor, e o professor, o detentor de todo o conhecimento historicamente construído. O aluno é educado para alcançar sua plenitude, por meio de seu esforço próprio. Segundo Libâneo (1994): Os conteúdos, os procedimentos didáticos, a relação professor-aluno não têm qualquer relação com o cotidiano do aluno e muito menos com as realidades sociais. É a predominância da palavra do professor, das regras impostas, do cultivo exclusivamente intelectual (LIBÂNEO, 1994, p. 55). A Pedagogia Liberal Tradicional prega que a preparação dos indivíduos para o desempenho de seus papéis sociais, por meio de suas aptidões individuais, deve ser o objetivo da educação. Para tal, a mesma deve estar centrada no ensino de aspectos culturais sem que estes revelem as desigualdades sociais. Mesmo pregando a igualdade de oportunidades, essa tendência não revela a desigualdade de condições. Parafraseando Fleuri (1994), o objetivo de tal educação seria a formação do indivíduo como sujeito capaz de ter opiniões próprias, com o intuito de tirar proveito das oportunidades que a sociedade oferece. Assim, ao formar o indivíduo como sujeito livre e autônomo, os processos educacionais contribuiriam para adaptar sua satisfação individual, estabelecendo relações de competição que estimulariam cada um a se desenvolver ao máximo, de tal modo que a soma dos sucessos individuais resultasse "automaticamente" no progresso da sociedade como um todo. A Pedagogia Liberal desenvolve-se, ao longo da História, em várias tendências: tradicional, liberal renovada, renovada progressivista, renovada não diretiva e liberal tecnicista. Libâneo (1994) explica-nos resumidamente cada uma delas: A tendência liberal renovada acentua, igualmente, o sentido da cultura como desenvolvimento das aptidões individuais. Mas a educação é um processo interno, não externo; ela é parte das necessidades e interesses individuais necessários para a adaptação ao meio. A educação é a vida presente, é à parte da própria experiência humana. (...) A tendência liberal renovada apresenta-se, entre nós, em duas versões distintas: a renovada progressivista, ou pragmatista, principalmente na forma difundida pelos pioneiros da Educação Nova, entre os quais se destaca Anísio Teixeira (deve-se destacar, também, a influência de Montessori, Decroly e, de certa forma, Piaget); a renovada não diretiva, orientada para os objetivos de autorrealização (desenvolvimento pessoal) e para as relações interpessoais, na 11 formulação do psicólogo norte-americano Carl Rogers (LIBÂNEO, 1994, p. 55). E continua dizendo que: A tendência liberal tecnicista subordina a educação à sociedade, tendo como função a preparação de 'recursos humanos' (mão de obra para indústria). A sociedade industrial e tecnológica estabelece (cientificamente) as metas econômicas, sociais e políticas, a educação treina (também cientificamente) nos alunos os comportamentos de ajustamento a essas metas (LIBÂNEO, 1994, p. 55-56). No decorrer de sua implementação, a Pedagogia Liberal teve características diferenciadas, de acordo com o público a ser ensinado. No início, predominava o ensino dos homens, por meio das escolas de meninos, como os seminários e escolas integrais. Nessas escolas, o currículo era voltado para o ensino das ciências, para a preparação de líderes, intelectuais, administradores, doutores e assim por diante, seguindo as cinco regras já tratadas anteriormente. No decorrer dos anos, implementaram-se as escolas para moças, voltadas para o ensino religioso, para regras de conduta, as chamadas aulas de etiqueta, ensinava-se também economia doméstica. Em ambos os casos, os (as) alunos (as) eram filhos (as) da elite que, preocupada em dar as melhores oportunidades aos seus herdeiros, colocava seus filhos em escolas integrais, que seguiam as concepções da Pedagogia Liberal. Para os filhos dos trabalhadores, cabia a escola básica, de meio período, a qual reproduzia o modelo autoritário. Para Fleuri (1994, p. 56), "analogamente, o modelo liberal de educação somente se torna possível para uma minoria, quando para a maioria se aplica o modelo autoritário". 2.6 PEDAGOGIA DA ESCOLA NOVA E TECNICISTA Restabelece-se, portanto, num primeiro momento da análise, aquela antiga distinção entre formação geral e formação técnica. É como se separássemos: formação geral para quem se dirige à universidade e formação técnica para quem vai seguir o caminho da fábrica. (FERRETI, 1998) Estudaremos duas tendências pedagógicas que foram implementadas no Brasil no século XX, e que continuam influenciando nossa prática pedagógica: a Escola Nova, também 12 conhecida como Liberal Renovada, que se divide em Renovada Progressista e Renovada Não diretiva, e a escola Liberal Tecnicista. O objetivo se consiste na análise de cada uma destas tendências, buscando relacioná- Ias com seu tempo histórico, seus princípios e características. 13 3 A TENDÊNCIA ESCOLA NOVA No final do século XIX, o mundo passa por inúmeras crises. É o surgimento de novos valores sociais, do novo jeito de produzir, com base na produção setorizada e em grande escala, no fordismo. Este período histórico é caracterizado pela Segunda Revolução Industrial. É um momento de transformações sociais, políticas e econômicas, em que não cabe mais aquele modelo tradicional de educação. E é neste contexto que surge a Escola Nova. Segundo Aranha (1996, p. 167): Escola Nova surge no final do século XIX justamente para propor novos caminhos à educação, que se encontra em descompasso com o mundo no qual se acha inserida. Representa o esforço de superação da pedagogia da essência pela pedagogia da existência. Não se trata mais de submeter o homem a valores e dogmas tradicionais e eternos nem de educá-Io para a realização de sua 'essência verdadeira'. A pedagogia da existência volta-se para a problemática do indivíduo único, diferenciado, que vive e interage em um mundo dinâmico. Há uma inversão de valores; agora, a criança deve ser tratada como criança, e não como um pequeno adulto. Passa-se a valorizar o caráter psicológico,a respeitar o tempo da criança. O importante, para esta tendência, é atender às especificidades da natureza infantil. O objetivo é o homem integral, isto é, deve- se pensar no sujeito como um todo, valorizando não somente o aspecto racional, mas também os emocionais, sensoriais e físicos. Para cumprir seus princípios, a pedagogia escolanovista, conforme Libâneo na relação professor-aluno, "não há lugar privilegiado para o professor; antes, seu papel é auxiliar o desenvolvimento livre e espontâneo da criança; intervém-se, é para dar forma ao raciocínio dela”. .Nesse sentido, o método de ensino está baseado no aprender a aprender, ou no aprender fazendo. Deve-se levar o aluno a resolver problemas, a pesquisar, a estudar o meio social e natural. Dedica-se ao trabalho individual, enquanto o trabalho em grupo serve apenas para garantir a socialização das experiências. Os conteúdos a serem ensinados são estabelecidos de 14 acordo com o interesse e a experiência que resultou do processo de resolução de problemas. O importante não é o que se aprende, mas aprender a aprender, segundo Libâneo "é mais importante o processo de aquisição do saber do que o saber propriamente dito." Entendendo a Escola Nova em seu contexto, percebemos que ela vem para garantir o fortalecimento dos ideais liberais na formação dos indivíduos. Isso fica claro nas palavras de Aranha (1996, p. 168): Compreende-se o ideário escolanovista a partir da situação social e econômica em que foi gerado. Nesse sentido, a escola nova é típica representante da pedagogia liberal. (...) A crescente industrialização da sociedade contemporânea, com suas rápidas transformações, requer a ampliação da rede escolar, bem como uma escola que prepara para o novo; além do mais, as esperanças de superação das desigualdades sociais encontram na adequada escolarização uma promessa de mobilidade social. Essa tendência é implementada no Brasil no século XX, a partir da década de 20, mas encontramos seus princípios claramente expostos no Manifesto dos Pioneiros da Educação, publicado em 1932. Nessa época, a Escola Nova é fortemente criticada pelos católicos conservadores que, na época, detinham o monopólio da educação elitista e tradicional no país. Com o Estado Novo (1937 a 1945), a Escola Nova perde sua força, e somente volta à tona na década de 50, com o objetivo de ampliar os ideais do liberalismo brasileiro, como a ampliação da escolarização e a formação de trabalhadores para a indústria, em plena ascensão no Brasil. Mesmo pregando uma educação universal, gratuita e democrática, a Escola Nova mantém os ideais liberais jamais questionando a estrutura social. Reproduz, assim, a diferença na educação dos filhos de operários e na dos filhos da elite, com a maior elitização do ensino, pois, ao dar ênfase à alta qualificação dos professores e às altas exigências das escolas particulares, acabou desqualificando as escolas públicas, que eram impossibilitadas de introduzir as novidades didáticas, por falta de estrutura e dinheiro. 15 4 A TENDÊNCIA LIBERAL TECNICISTA A tendência Liberal Tecnicista surge no século XX, com o objetivo de implementar o modelo empresarial na escola, ou seja, aplicar na escola o modelo de racionalização típico do sistema de produção capitalista. Com forte influência das teorias positivistas e da psicologia americana behaviorista, o tecnicismo busca ensinar o aluno por meio do treinamento. Para Aranha (1996, p. 176): Herdeira do cientificismo, a tendência tecnicista busca no behaviorismo, teoria psicológica também de base positivista, os procedimentos experimentais necessários para a aplicação do condicionamento e o controle do comportamento. Daí a preocupação com a avaliação a partir dos aspectos observáveis e mensuráveis da conduta e o cuidado com o uso da tecnologia educacional, não somente quanto à utilização dos recursos avançados da técnica, mas também quanto ao planejamento racional, que tem em vista alcançar os objetivos propostos com economia de tempo, esforço e custo. Nesse sentido, para essa tendência, a escola tem um papel fundamental na formação de indivíduos que se integrem à "máquina social". Para isso, a escola deve moldar o comportamento, organizar o processo de aquisição de habilidades e conhecimentos já historicamente descobertos. Descobrir o conhecimento é função da educação, mas isso cabe aos especialistas, o papel da escola é repassá-Io e aplicá-lo. Dessa forma, percebe-se a divisão entre trabalho intelectual e manual. Portanto, os conteúdos a serem ensinados já estão muito bem explicitados nos manuais, nos livros didáticos, nas apostilas, entre outros. Cabe ao professor buscar a melhor forma de controlar as condições ambientais que assegurem a transmissão/recepção de informações. A relação professor-aluno passa a ser estruturada e objetiva, cabendo ao professor transmitir a matéria e ao aluno receber, aprender e fixar. Essa tendência é implementada inicialmente nos Estados Unidos, o qual acaba impondo a implementação a todos os países da América Latina. No Brasil, ela é implementada a partir do Governo Militar, por meio dos acordos MEC-USAID, em que a USAID (United States Agency for International Development), empresa de consultoria norte-americana, faz inúmeras pesquisas sobre a educação no Brasil, as quais acabam influenciando a implementação desta tendência por meio das Leis 5.540/68 (ensino universitário) e 5.692/71 (ensino de 1° e 2° graus). 16 Para entendermos as consequências destas leis para a educação no Brasil, vamos ler o texto a seguir: A burocratização do ensino foi intensificada, afogando os professores em papéis nos quais deviam ser detalhados os objetivos de cada passo do programa. Houve inferiorização das funções do professor, que se tomou simples executor das ordens vindas do setor de planejamento, a cargo de técnicos em educação que, por sua vez, não pisavam em sala de aula. Nesse período, a educação elementar esteve bastante abandonada e a pretendida reforma do 2° grau, com a implantação do ensino profissionalizante, redundou em absoluto fracasso. A inclusão de disciplinas técnicas no currículo teve por consequência a exclusão de outras (como filosofia) e a diminuição da carga-horária de algumas (geografia e história, por exemplo). E continua mostrando os efeitos negativos dessas mudanças: A queda do nível de ensino repercutiu de forma mais drástica na escola pública. Obrigada a atender à lei ao pé da letra, enquanto as escolas particulares de certa forma "contornavam" as exigências oficiais, assumindo apenas a nomenclatura dos cursos e oferecendo os conteúdos tradicionais. Isso aumentou a seletividade de nossa educação, fazendo com que o ensino superior se destinasse cada vez mais aos filhos da elite. Quanto à escola pública, o que se conseguiu, de fato, foi a formação de mão de obra barata, não qualificada; pronta para engrossar o "exército de reserva" trabalhadores disponíveis para empregos de baixa remuneração (ARANHA, 1996, p. 177). 17 REFERÊNCIAS ARANHA, Maria da Graça. O construtivismo in construtivismo de Piaget a Emília Ferreiro. 4. ed. São Paulo: Ática, 1995. ARANHA, M. L. de A. Filosofia da educação. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1996. ARRUDA, M.; BOFF, L. Educação e desenvolvimento na perspectiva da democracia integral. In: CUT. Educação e sindicalismo. São Paulo: CUT, 1997. v. 2. FERRETTI, Celso J. Brasil: educação e formação profissional nos anos recentes. São Paulo: CUT, 1998.FLEURI, Reinaldo Matias. Educar para que? Contra o autoritarismo da relação pedagógica na escola. 7. ed. São Paulo: Cortez, 1994. FREIRE, M. A aventura de ensinar, criar e educar: observação, registro, reflexão: instrumentos metodológicos. São Paulo: Espaço Pedagógico, 1995. ______. História do espaço pedagógico: da paixão de aprender à paixão de ensinar. São Paulo: Espaço Pedagógico, 1996. GADOTTI, M. Paulo Freire: uma bibliografia (vários colaboradores). São Paulo: Instituto Paulo Freire/UNESCO: Cortez, 1996. ______. Pedagogia da terra. São Paulo: Petrópolis, 2000. 18 LIBÂNEO, J. C. Democratização da escola pública: a pedagogia crítico-social dos conteúdos. São Paulo: Loyola, 1985. ______. Tendências pedagógicas na prática escolar. Filosofia da educação. São Paulo: Cortez, 1994. LUCKESI, C. C. Filosofia da educação. São Paulo: Cortez, 1994. SAVIANI, D. Escola e democracia. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1987. VALENTE, J. A. Aprendizagem continuada ao longo da vida. Revista Pátio, nov. 2000/jan. 2001.