Filosofia da Ciência - Rubem Alves
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Filosofia da Ciência - Rubem Alves


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SP. 
A idéia deste planetário-mirim foi retirada dele.) 
C. 4 Você deve ter notado, que, neste modelo, o observador é o centro em 
torno do qual tudo o mais, gira. Ele se encontra imóvel no seu lugar, a Terra. 
Um belíssimo exemplo de busca racional de ordem, por parte do homem. 
 
 
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Durante séculos ele foi perfeitamente adequado para resolver os problemas 
práticos relativos à medida do tempo e do espaço. Não é de causar espanto, 
portanto, que aqueles que pretenderam mudá-lo tivessem sido considerados 
como indivíduos perigosos, quem sabe portadores de desarranjos mentais! 
Mas, como sempre acontece com os nossos modelos (não se esqueça de que 
eles são sempre palpites provisórios!), surgiram problemas, que resistiram e 
não se resolveram segundo esta receita. E foram tais problemas que acabaram 
por minar o universo geocêntrico, revolucionando-o, e fazendo com que tudo 
passasse a girar ao redor do Sol. 
C.5 A palavra planeta vem do grego e significa vagante, errante. Veja você 
que este nome, para tais corpos celestes, indicava que eles eram exceções à 
maravilhosa harmonia do cosmos. Na religião grega primitiva o Sol, a Lua e 
os planetas eram adorados como seres divinos e, como disse Platão (Leis, VII, 
822a), usar o nome de planetas para os deuses nos céus era absolutamente 
impensável e mesmo prova de impiedade, como se a eles faltasse ordem e 
racionalidade, movendo-se a esmo. \u201cO único movimento digna de seres 
divinos era concebido como o movimento circular, porque, na medida em que 
ele continuamente se repete, aproxima-se da forma mais próxima ao estado 
perfeito de repouso\u201d (Mary B. Hesse. op. cit. p. 23). Aqui se encontra, 
portanto, um problema a ser decifrado pela mentalidade grega, na medida em 
que ela busca encontrar a ordem de todas as coisas. 
C.6 Em que consistia o movimento errante dos planetas? Diferentemente das 
estrelas, eles não têm uma posição fixa no céu. Não pertencem a constelações. 
Não se encontram fixados na esfera cristalina. Mas qual é o problema? Não se 
poderia criar esferas cristalinas também para os planetas, interiores à grande 
esfera? O problema está em que, quando se marca o movimento dos planetas 
no céu, descobre-se que eles não caminham numa mesma direção. Vão para 
frente, dão uma volta, vão para trás e depois para frente de novo. Ptolomeu 
tentou colocar ordem neste caos, dizendo que ao descreverem os seus círculos 
os planetas faziam cambalhotas (epiciclos). Imagine uma roda gigante, 
girando. Imagine, além disto, que os banquinhos giram não somente com a 
roda (sua órbita circular), mas giram ao mesmo tempo Em torno da barra que 
os segura. Estes seriam os epiciclos. Estes artifícios tiveram de ser adotados 
porque, dado o pressuposto do repouso e da centralidade da Terra, todos os 
movimentos dos corpos celestes teriam de ser reais. Se você está balançando 
numa rede e olha para o céu, as estrelas parecem balançar. Mas isto, como 
você sabe, é o resultado do balanço do observador. Mas que evidências havia 
de que a Terra estivesse se movimentando e girando? Gire um guarda-chuva 
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molhado. As gotas de água voam em todas as direções. Se a Terra está 
girando, então como explicar que o mar não espirre também em todas as 
direções? Veja a situação complicada daqueles que queriam propor que a 
Terra se movia, para explicar as anomalias dos planetas. Tudo indicava que tal 
solução iria criar problemas mais difíceis que aqueles que tal modelo poderia 
resolver. Somente uma fé infinita na ordem do cosmos poderia empurrá-los 
nesta direção, em oposição a todas as evidências ao contrário apresentadas 
pela experiência cotidiana. 
C.7 Vou lhe propor um problema. . 
Você tem 3 fotografias, tiradas em momentos sucessivos. Contra o fundo 
formado por uma\u2019 árvore, montanhas e uma casa, há um automóvel, cuja 
frente é indicada pelo farol. Interprete-as. Diga o que está ocorrendo. 
 
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Não prossiga antes de dizer o que está acontecendo. O automóvel está 
andando para frente, para trás, está parado? 
C.8 É curioso. Tudo parece indicar que o automóvel está andando de marcha à 
ré. Será isto mesmo? Você notou que o observador, que tirou a fotografia, não 
apareceu? A sua situação é semelhante à do observador que, da Terra, 
concluía que os planetas iam para frente e para trás. Vamos agora examinar 
outras três fotografias, que incluem o fotógrafo, e que foram tiradas no mesmo 
instante em que as anteriores: 
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O automóvel T representa a Terra e P é o planeta. Trafegam em pistas 
(órbitas) diferentes. T tem velocidade maior que P. Na foto 1, T vê P contra o 
pano de fundo (estrelas), representado pela árvore. Na foto 2, ambos 
continuaram a viagem. Andaram para frente. Mas, como a velocidade de T é 
maior, ele alcançou P, que agora aparece contra o pano de fundo das 
montanhas, dando a impressão de que andou para trás, se não se considera o 
movimento de P. Na terceira foto, a mesma coisa se repete. T ultrapassa P, que 
agora aparece mais atrasado ainda. Na verdade, P não voltou. Caminhou para 
frente o tempo todo. O movimento retrógrado foi uma ilusão, provocada pela 
ultrapassagem. Está, assim, resolvido o problema do movimento anômalo dos 
planetas, desde que se admita que a Terra se move. A desordem se transforma 
em ordem. Se a Terra está girando também \u2013 e neste caso ela não é o centro do 
sistema -, o caráter errante dos planetas desaparece, tornando-se regular, 
previsível, racional. 
 
D.1 Anote isto: a mudança do modelo não se deveu a nenhuma descoberta 
nova. Ela foi apenas uma reorganização dos materiais velhos, sob uma forma 
nova. As peças do quebra-cabeças são as mesmas. Mas elas não se 
encaixavam umas nas outras. Bastou mudar o centro. Permaneceram as 
mesmas entidades, mas de repente o modelo do sistema mudou. 
D.2 E anote mais isto: na medida em que os resultados da pesquisa confirmam 
as previsões feitas pelo modelo, não temos forma alguma de questionar o 
modelo. Tudo se passa como se ele fosse uma cópia da realidade. Se não 
houvesse casos de comportamento irregular no modelo geocêntrico (o 
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movimento dos planetas), é provável que tivéssemos continuado a acreditar 
que a Terra era o centro, por séculos a mais. A ciência não progride quando os 
modelos são confirmados pela investigação, mas quando certas anomalias 
forçam os cientistas a questioná-los. 
 
E.1 Modelos são usados em todos os níveis de conhecimento. 
\u2022 Qual é a razão por que se usa bater na madeira para \u201cisolar\u201d, quando se 
fala sobre algo que não se deseja que aconteça? Qual o modelo em 
jogo? Veja: as pessoas acreditam que as palavras têm poder para 
produzir certos resultados. 
\u2022 Qual o modelo dos mecanismos biológicos implícito no uso de 
antibióticos? E na homeopatia? 
\u2022 Como se transmitem características de uma geração de organismos para 
outra? Um modelo muito adotado admitia que as diferenças estavam no 
sangue, e os novos tipos eram produtos de mistura de sangue. Ainda se 
fala, por exemplo, num cavalo \u201cpuro sangue\u201d, não? A genética 
abandonou tal modelo. A genética se vale de cálculos de probabilidades 
para fazer suas previsões. 
Já lhe contamos como surgiu a ciência das probabilidades, como auxílio 
intelectual de jogadores que queriam ganhar na roleta (Capítulo 2, G.1). Será 
esta a ciência que a Genética usará para determinar, por exemplo, as chances 
de um pai e uma mãe, portadores de certa doença genética na família, terem 
filhos com a mesma doença. A questão, portanto, não é mistura de líquidos, 
sangue ou lá o que seja, mas a probabilidade