Filosofia da Ciência - Rubem Alves
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Filosofia da Ciência - Rubem Alves


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fazendo silêncio completo sobre se isto é bom 
ou mau, feio ou bonito. Com a matemática a ciência abandona os valores. Por 
ser uma linguagem sem sujeito, impõe-se como a linguagem para todos e 
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quaisquer sujeitos, não importa o que pensem ou sintam. Universal. Na Igreja 
Católica medieval, fora o latim. Na nova religião que se inaugura, e a 
matemática. Nova religião? Voltaremos a esta questão mais tarde. 
C.4 O livro da natureza está escrito em triângulos, quadrados, círculos, 
esferas, cones e pirâmides. Acho esta afirmação muito estranha. 
E isto porque vejo estrelas cintilantes, sinto o sol quente, contemplo o céu 
azul, bebo a água fria, sinto o perfume das flores, minha pele fica arrepiada 
com o vento. É isto o que a observação me dá. Um mundo colorido, sonoro, 
perfumado, mundo sensível e erótico, que provoca prazer ou dor. É assim que 
o meu corpo sente este mundo. 
Onde se encontram os caracteres matemáticos a que Galileu se refere? 
Podemos dizer com toda a certeza: não é a observação que os oferece. De fato, 
não foi pela observação que a visão matemática da natureza surgiu. Ao 
contrário, foi da interioridade da razão que surgiu a suspeita de que, talvez, a 
matemática fosse a chave para decifrar o enigma e fazer a natureza falar. A 
natureza sentida e observada pelo corpo tem de ser colocada em segundo 
plano, como texto enigmático. O que este texto enigmático realmente diz 
deverá ser encontrado numa linguagem que só a razão conhece. E sob a 
imensa variedade da natureza, tal como percebida pelo corpo, a matemática 
nos revela uma paisagem lunar em que cores, sons, gostos, sensações táteis se 
vão, permitindo, entretanto, o aparecimento das leis eternas, objetivo da busca 
científica. 
Liquidado o corpo como meio para a compreensão da natureza, impõe-se a 
razão matemática \u2013 sem sangue e sem corpo, é bem verdade \u2013 mas universal e 
eterna. 
C.5 Não, a natureza matemática não é um dado da observação. 
Os cones, as esferas, os triângulos \u2013 ferramentas decifratórias de Galileu \u2013 não 
se encontram em meio a planos inclinados e sólidos que caem. Não são dados. 
Mas, se não são dados, donde os obtemos? 
C.6 Freqüentemente se ouve dizer que, em oposição aos filósofos metafísicos 
da Idade Média, a ciência moderna se caracteriza por seu amor aos fatos. Parte 
dos fatos. Pesquisa e observação, primeiro. Depois, as conclusões. 
Tolo engano. Na verdade, a crítica que se fazia contra Galileu era que ele não 
respeitava os fatos. Com um certo ar arrogante, sugeria que as diferenças, os 
detalhes, o específico, não tinham importância alguma. O que interessava 
eram as regularidades e uniformidades. Ao invés de partir da realidade e sua 
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imensa variedade, impunha sobre ela uma camisa-de-força, obrigando as 
diferenças a se dissolverem nos caldeirões das identidades matemáticas. Tudo, 
em nossa experiência, diz que a tendência de todos os movimentos é o 
repouso. Galileu, em nome de exigências matemáticas, afirma que a tendência 
de todo movimento é continuar indefinidamente em movimento. E surge a 
idéia da inércia, um conceito que não é, de forma alguma, derivado da 
observação, mas imposto sobre ela. Vejam como raciocinava Galileu: fingia 
experimentos e os realizava pela imaginação apenas, pois que a natureza não 
apresentava nenhuma situação em que as condições por eles exigidas 
pudessem ser observadas. 
C.7 Imaginemos três planos, como no desenho. 
 
No primeiro deles a bola lançada, ao atingir o plano inclinado que sobe, 
andará cada vez mais devagar, até atingir velocidade igual a zero, e daí 
voltará. No terceiro plano a situação é oposta, porque o plano inclinado é 
descendente, e a bola ficará com velocidade cada vez maior. No primeiro 
caso, aceleração negativa. No segundo caso, aceleração positiva. A partir 
destes dois casos imaginemos uma situação intermediária: um plano que, ao 
final, não possui nem plano inclinado ascendente, nem descendente. Para se 
obter tal situação, basta usar um artifício matemático. Vamos começar a 
baixar o plano inclinado ascendente. A desaceleração ficará cada vez menor. 
Façamos o inverso com o terceiro plano. A aceleração ficará, de forma 
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idêntica, cada vez menor. Até a situação-limite, em que o superior se encontra 
com o inferior. Que obtemos nesta situação-limite, imaginária? Obtemos uma 
bola com aceleração igual a zero, ou seja, movimento retilíneo uniforme. Está 
assim definido, por pura reflexão matemática, o princípio da inércia. 
C.8 A questão é se se pode violentar assim a observação, a evidência dos 
olhos, aquilo que a natureza nos diz diretamente, sem rodeios. E daí a 
exigência dos adversários de Galileu: é necessário descrever a natureza nos 
seus mínimos detalhes, com absoluta fidelidade aos dados, respeitando as 
diferenças, fazendo justiça às nuanças. Ao fazer \u201cfilosofia natural\u201d \u2013 nome 
que se dava à ciência \u2013 temos de 
\u201ccopiar, classificar fielmente os dados concretos. Não estaremos fazendo 
justiça a estes dados se, ao invés de observar a natureza através de todas e 
cada uma de suas manifestações particulares, tentarmos convertê-la num 
sistema de relações gerais e abstrações\u201d (Ernst Cassirer. El Problema del 
conocimiento v. 1. p. 349). 
Que é que você acha destas afirmações? Estão certas? Estão erradas? Se você 
achar que elas estão certas, elabore um argumento em sua defesa. Se você 
achar que estão erradas, refute-as. 
 
D.1 Estamos frente a um impasse. 
A natureza é um texto a ser decifrado. 
Se concordamos com Galileu, sabemos que ela fala a língua da matemática. 
O problema é que, ao nos voltarmos para a natureza, ao invés de encontrar 
fórmulas e números, fica ela à nossa frente exibindo cores, cheiros,. ruídos, 
temperaturas, mas sem abrir a boca, sem falar nada. Muda. Como obrigá-la a 
falar? 
D.2 E é aqui que nos voltamos para o texto de Kant, citado no início deste 
capítulo. Releia-o cuidadosamente. Veja esta afirmação curiosa: 
\u201cA razão não pode deixar-se arrastar pela natureza. Ao contrário, é ela que 
deve mostrar o caminho (...) obrigando a natureza a dar respostas às questões 
que ela mesma propôs. (...) A razão (...) se aproxima da natureza (...) como um 
juiz que obriga a testemunha a responder questões que ele mesmo formulou.\u201d 
A natureza tem o que dizer. Mas ela não toma a iniciativa. Mais do que isto, o 
fato é que ela não elabora resposta alguma. Ela se limita a dizer \u201csim\u201d ou 
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\u201cnão\u201d às perguntas que o juiz propõe. Veremos que, na verdade, quando a 
natureza diz \u201csim\u201d, ela está realmente dizendo apenas \u201ctalvez\u201d. 
D.3 Usualmente chamamos de hipóteses às perguntas que os cientistas 
propõem à natureza. A experimentação é a tortura a que submetemos a 
natureza para obrigá-la a manifestar-se sobre a pergunta. Vejamos algumas 
das perguntas-hipóteses que já foram levantadas: 
\u2013 Será verdade que o Sol é o centro em torno do qual giram os planetas? 
\u2013 Observando as fases de Vênus (Galileu), é possível continuar a crer que esse 
planeta gire em torno da Terra? 
\u2013 Será verdade que um corpo, mergulhado num fluido, recebe um empuxo de 
baixo para cima igual ao peso do volume do líquido deslocado? 
\u2013 Será verdade que a Terra está submetida à atração da Lua e do Sol, entre 
outros corpos celestes? 
\u2013 Se, num mesmo momento, há inverno e verão sobre a face da Terra, pode-se 
crer que a diferença de temperatura seja devida à distância Sol-Terra? 
Anote isto: a ciência, bem como o conhecimento de qualquer tipo, se inicia 
quando alguém faz uma pergunta inteligente. A pergunta inteligente é o 
começo da conversa com a natureza (ou com a sociedade). Lembre-se de que, 
na verdade,