Filosofia da Ciência - Rubem Alves
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Filosofia da Ciência - Rubem Alves


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era estabelecer os 
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fundamentos sobre os quais se poderia construir o edifício da ciência, em 
oposição aos filósofos que \u201ccorriam mais atrás de palavras que atrás da 
matéria\u201d. Antes de mais nada seria necessário purificar a mente de todo tipo 
de idéias preconcebidas. Idéias preconcebidas, evidentemente, existem hoje 
com tanta virulência quanto existiam então. Ocorre, entretanto, que na Idade 
Média o recurso a tais idéias era considerado como o único método legítimo 
de conhecimento. Assim, quando qualquer problema surgia, não se ia à 
natureza para saber como é que as coisas se davam. O filósofo ou teólogo se 
perguntava acerca das opiniões das grandes autoridades do passado. 
Note que tal método ainda não desapareceu. A multiplicação de citações nos 
trabalhos científicos tem como objetivo não confessado sustentá-los por meio 
do recurso a alguém que ninguém ousa contestar... 
Assim, se se ia estudar anatomia, o professor, de cima de um púlpito, recitava 
as opiniões de Galeno sobre o assunto. Galeno era um médico grego do século 
II D.C. que dominou a medicina por cerca de 1.400 anos. O curioso era que, se 
a observação do cadáver, dissecado por um barbeiro na aula de anatomia, 
contrariava as opiniões de Galeno, a observação era rejeitada como inválida 
(Alan E. Nourse. The Body. p. 16). 
A luta entre o pensamento baseado na autoridade e o pensamento orientado 
para a investigação da natureza é fascinante. Infelizmente, não podemos nos 
deter aqui. Só gostaria de lembrar que o que estava em jogo não era apenas a 
compreensão filosófica de ciência como também um sem-número de 
interesses políticos. Uma ordem social já estabelecida tende a privilegiar as 
formas passadas de pensar, pois a novidade é sempre imprevisível, 
incontrolável, subversiva. Por outro lado, os grupos que não participavam do 
poder não tinham acesso a este conhecimento e eram forçados a buscar fontes 
alternativas de saber. Não é de se estranhar, portanto, que os marginais tenham 
sido os que se voltaram para o conhecimento experimental. 
\u201cNa verdade, a boa feiticeira era não somente médica, necromante, profeta e 
bruxa ... O estudo da anatomia, proibido pela Igreja por um longo período, 
começou com ela; esta é a razão por que ela era acusada de roubar túmulos... 
O estudo dos venenos, da química e farmacologia começou com ela também\u201d 
(Thomas Szasz. The Manufacture of Madness. p. 83). 
Veja como orientações específicas em relação aos métodos de conhecimento 
estão diretamente ligadas ao poder. Os fortes pensam de maneira diferente dos 
fracos. Em nosso caso, o representante da ordem eclesiástica medieval 
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buscava suas armas no passado; os marginais, sem ter acesso a este passado, 
se voltavam para a natureza. 
A.3 Com o enfraquecimento do poder dos \u201ccientistas\u201d da ordem medieval, os 
filósofos naturais trataram de preparar os fundamentos de um novo saber 
voltado para a natureza. Acontece que as cabeças estavam tão cheias com os 
pré-conceitos do passado, que a primeira tarefa a se levar a cabo era a 
expulsão destes demônios. Bacon tratou de fazer um inventário das 
perturbações possíveis do nosso conhecimento, sugerindo um quadro da 
patologia do saber. Ele deu o nome de ídolo a cada uma destas perturbações. 
Ídolos da tribo: todos sofrem desta moléstia. Ela é inerente à raça humana. Por 
exemplo, qualquer um tem a certeza ingênua e falsa de que os sentidos 
oferecem uma visão fidedigna da realidade. 
Os ídolos da caverna são perturbações que crescem e nascem na caverna 
particular de cada um. E Bacon pensava que, se uma idéia nos causa uma 
satisfação especial, é porque ela é um habitante da nossa caverna. 
Em terceiro lugar Bacon colocou os ídolos do mercado, que são as ilusões que 
a própria interação entre as pessoas acaba criando. Aqui, os hábitos de 
linguagem desempenham um papel especial. Se uma mentira é 
suficientemente repetida por um número significativo de pessoas, acaba por 
ser aceita como verdade. 
Por fim, os ídolos do teatro são representados pelas ilusões que o pensamento 
filosófico dominante é capaz de criar. 
É assim que um novo clima intelectual se estabelece. Por um lado, um sadio 
ceticismo quanto àquilo que havia sido herdado do passado. Por outro lado, a 
preocupação de se aprender da natureza. 
Basta de saber livresco. 
Agora o livro a ser decifrado e lido é o livro da natureza. Não era isto que 
dizia Galileu? 
Lançam-se novas bases para um programa de conhecimento: 
\u2022 que o pensamento seja um espelho dos fatos; 
\u2022 que a imaginação seja subordinada à observação; 
\u2022 que o cientista fale apenas aquilo que a natureza lhe revela. 
O que se busca é uma linguagem em que o homem esteja silencioso e que seja 
expressão rigorosa daquilo que os fatos nos autorizam a dizer. 
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A.4 Aprender da natureza! 
(Parece que as coisas estão se embaralhando. Não foi Kant que disse que \u201ca 
razão, assim, se aproxima da natureza não como um aluno, que ouve tudo 
aquilo que o professor se decide a dizer, mas como um juiz que obriga a 
testemunha a responder questões que ele mesmo formulou\u201d? Você verá que 
estamos entrando numa área de conflitos ...) 
Como Bacon não havia ouvido coisa alguma de Kant, ainda não nascido, 
tratou de estabelecer um método para organizar a observação e para orientar o 
pensamento, de sorte que o cientista pudesse realmente se tornar um aluno da 
natureza. Os fatos são a voz da natureza. A questão, então, é organizar estes 
fatos, de sorte que formem frases coerentes. O cientista não precisa dizer coisa 
alguma. Basta-lhe ordenar os dados. Foi assim que ele construiu alguns 
artifícios a serem usados na observação. Um deles se chamava tabela de 
afirmações ou regra de presença. O observador deveria anotar ali onde se 
encontra a propriedade que ele está estudando. Se você está estudando o calor, 
por exemplo, deverá notar que ele é encontrado no sol, no fogo, no corpo 
humano, em corpos atritados, etc. Uma tabela de negações ou de ausência 
parece ser exigida. O conhecimento de que um corpo vivo é quente, enquanto 
um cadáver é frio, deve abrir avenidas para o saber. Finalmente, uma tabela de 
comparações, cujo objetivo era verificar se existe alguma relação entre 
variações observadas. 
 
B.1 Estas informações são colocadas aqui por representarem uma das 
primeiras tentativas de se elaborar um método indutivo para a ciência. 
O que pretende um método indutivo? 
A indução tem, como seu programa, construir o discurso da ciência a partir 
dos fatos observados. É uma forma de argumentar, de passar de certas 
proposições a outras. Você se lembra de que dissemos que na ciência nós 
buscamos o invisível? 
A indução é uma forma de pensar que pretende efetuar, de forma segura, a 
passagem do visível para o invisível. 
Vou dar dois exemplos bem simples. 
1 . Você vê o Sol nascer uma vez, duas vezes, cem vezes. A partir destes fatos, 
dados do passado, você é levado a concluir que não existe coisa mais normal e 
óbvia que o Sol se levante amanhã e por todo o futuro, enquanto o nosso 
sistema existir. 
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O seu conhecimento do passado o levou a dar um salto: do dado para o não 
dado, do acontecido para o não acontecido, do conhecido para o desconhecido. 
É bem possível que você considere tal exemplo banal demais, pois, de fato, 
não existe nada mais lógico e óbvio que o Sol nascer amanhã. 
Lógico, não é. E isto porque a lógica tem a ver com a possibilidade de que 
certas proposições sejam deduzidas de outras. E não há formas de se deduzir 
um evento futuro a partir de um evento passado. 
Óbvio, de fato, é. Mas não será verdade que o óbvio nada mais é que algo