Filosofia da Ciência - Rubem Alves
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Filosofia da Ciência - Rubem Alves


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historicamente, a ciência surgiu exatamente quando certas 
pessoas, repentinamente, se perguntaram das razões por que coisas 
corriqueiras ocorriam da forma como ocorriam. Foi por isto que os cientistas 
aristotélicos, frente ao fenômeno da trajetória dos corpos, propuseram a teoria 
de que a tendência de todo movimento é o repouso. Esta seria a razão por que 
todas as coisas acabam caindo e parando. Mas Galileu e a ciência moderna 
vêem a mesma curva pelo prisma de uma teoria diferente. Por um lado, em 
oposição aos fatos, enunciam um princípio que não pode ser reduzido a 
nenhuma experiência: a tendência do movimento é o movimento retilíneo 
uniforme, a inércia. A teoria, aqui, parece colocar os fatos de cabeça para 
baixo. Além disto, na curva descrita pela água, eles vêem não um mas dois 
movimentos conjugados, e é como se ela realizasse cada um deles 
separadamente. Assim, o movimento para frente, idealmente, é o movimento 
inercial: tempos iguais, espaços iguais. O movimento para cima e para baixo é 
o movimento que obedece, na subida, a uma aceleração negativa e, na descida, 
a uma aceleração positiva. 
A teoria faz alguma diferença? 
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É só perguntar a qualquer pessoa que tenha de prever, com precisão, a 
trajetória de um projétil. 
 
E.1 E Semmelweis? 
Descobriu uma relação causal importantíssima. Mãos que tocam numa mulher 
com febre puerperal ou num cadáver que tenha morrido em conseqüência 
desta enfermidade, se tocarem numa mulher sadia, farão com que ela contraia 
a mesma doença. Relação tão precisa, que ele pensou: interrompida a relação 
entre a causa e o efeito, por meio da lavagem das mãos, o efeito não aparecerá. 
E assim foi. As relações causais estavam certas. 
Mas a teoria estava errada. Semmelweis nada sabia sobre microorganismos, de 
sorte que sua relação causal em nada ajudaria a compreensão dos processos 
infecciosos e contagiosos. E qualquer pessoa que esteja viva em decorrência 
da vacina ou dos antibióticos saberá lhe dizer que a teoria faz uma diferença. 
 
F.1 Que dizer de Kepler e suas famosas leis? 
É curioso que o que levou Kepler à descoberta destas leis não foram os fatos. 
Se ele tivesse seguido o conselho de Augusto Comte (felizmente Comte 
nasceu séculos depois...), ele teria se contentado em coligir e enunciar fatos. 
Acontece, entretanto, que ele tinha uma teoria a ser testada em sua mente. Ele 
acreditava que os planetas eram cantores divinos e que, pela matemática, ele 
seria capaz de \u201ccaptar\u201d a sua melodia, transmitida num comprimento de onda 
ainda misterioso... Suas teorias foram por água abaixo. As leis continuam 
firmes. Só que agora elas se encontram encaixadas num outro quadro teórico. 
 
G.1 Da mesma forma como o que o júri deseja não é que promotor e 
advogado se restrinjam a repetir \u201cJoão matou Pedro\u201d, mas antes que ofereçam 
teorias explicativas do crime, o que o cientista de seja não é o rol dos fatos, 
mas a sua integração num esquema teórico explicativo. 
\u201cA investigação científica não termina com os dados; ela começa com eles. O 
resultado da ciência é uma teoria ou hipótese de trabalho, e não os assim 
chamados fatos\u201d (G. H. Mead. The Philosophy of the Act. p. 93). 
\u201cOs fatos, em si mesmos, não oferecem sua própria iluminação. O problema 
científico central, portanto, é claramente o problema da interpretação\u201d 
(Prescott Lecky. op. cit, p. 65). 
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Esta palavra, interpretação, deve merecer a nossa atenção. Quando é que algo 
necessita ser interpretado? Quando este algo, tal como nos é apresentado, é 
destituído de sentido. 
Para Galileu a natureza, em sua aparência bruta, não diz nada. O sentido está 
escondido. Para Galileu este sentido era matemático. Mas note que a 
matemática não é extraída dos fatos, mas antes aplicada a eles. Donde surge a 
matemática? De um poder criativo da razão. 
Também a interpretação dos sonhos, em Freud, segue linhas semelhantes. Tais 
como são imediatamente experimentados por nós, sonhos não passam de um 
conjunto de absurdos. Eles não contam o seu segredo. Para que falem, é 
necessário que o intérprete aplique sobre eles, tentativamente, um sentido que 
ele criou. 
E assim ocorre com o nosso conhecimento prático da realidade, seja a 
natureza, seja as pessoas, seja a sociedade. Pelo hábito, pela repetição 
constante, aprendemos que certas coisas se seguem a outras, que os eventos se 
organizam em cadeias causais. Mas no momento em que deixamos de estar 
simplesmente interessados em usar, de maneira prática, estas receitas, e 
passamos a querer compreender, pulamos dos fatos para a interpretação: \u201cos 
fatos não oferecem sua própria iluminação\u201d. 
 
H.1 Começamos com a grande esperança que marcou os próprios 
fundamentos de nossa ciência, de se criar uma linguagem que dissesse apenas 
aquilo que os fatos autorizam. E que caminho mais evidente, para se atingir tal 
objetivo, que aquele que parte dos fatos, dos dados, das amostragens? 
Andamos pelo caminho da indução, sugerido pelo empirismo e pelo 
positivismo. 
De repente, entretanto, descobrimo-nos numa arapuca. E isto porque, sem 
pretender falar mais que aquilo que os fatos permitem, a ciência se atreveu a 
enunciar leis e teorias. Mas leis e teorias têm sempre a forma de enunciados 
universais, enquanto aquilo que é dado à nossa observação não ultrapassa 
nunca os limites estreitos de enunciados particulares. Descobrimo-nos, como 
advogados do indutivismo, como pedreiros que têm à sua frente todo o 
material para a construção. Ato contínuo defrontamo-nos magnificamente com 
a casa pronta. E aí nos perguntamos: como? O fato, que qualquer criança sabe, 
é que tijolos, cimento, telhas, ladrilhos, não se organizam numa casa 
miraculosamente. Nenhum plano arquitetônico se extrai deles. Ao contrário, é 
necessário que um plano, não extraído deles, seja sobre eles imposto. Como 
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dizia Gunnar Myrdal, naquela declaração com que iniciamos o capítulo 
anterior: 
\u201cOs fatos não se organizam em conceitos e teorias se simplesmente os 
contemplamos\u201d. 
Na verdade, não existe coisa alguma mais danosa ao avanço da ciência que a 
ilusão de que ela marcha para a frente pelo acréscimo de fatos novos. 
\u201cAssim, a opinião de que o progresso científico é meramente uma questão de 
contínuas descobertas de fatos novos, tem o efeito de desencorajar o tipo de 
pensamento de que mais se necessita no trabalho científico. Os fatos empíricos 
podem, no final das contas, servir apenas como matéria-prima para a ciência; 
em si mesmos, até que tenham sido trabalhados e interpretados, são totalmente 
inúteis\u201d (Lecky. op. cit. p. 69). 
 
I.1 Isto nos obriga a repensar profundamente o sentido dos dados e dos fatos 
da ciência. 
Não sei se você já se deu conta de que a palavra dados se deriva do verbo dar. 
Que seria um dado da ciência? Presumivelmente é algo que foi gratuitamente 
dado pelo mundo ao nosso redor. O mundo dá, o cientista recebe. 
Imaginemos que seja assim. Você concordará, por outro lado, que na ciência 
qualquer dado deve poder circular, por meio da linguagem. Um dado qualquer 
que fosse acessível apenas a mim poderia pertencer ao mundo das minhas 
experiências internas, privadas, religiosas ou místicas. Mas o que caracteriza 
este jogo a que damos o nome de ciência é um acordo tácito entre todos os 
cientistas de que nele só se pode falar sobre experiências abertas à verificação 
intersubjetiva. Na verdade, é esta verificação que garante a objetividade do 
conhecimento. Assim, se trabalhando sob tais e tais condições de laboratório, 
obtenho o efeito A, qualquer cientista, em qualquer parte do mundo, 
trabalhando sob condições idênticas, deve obter o mesmo resultado. Se um 
fato não puder ser enunciado, não poderá ser testado.