Filosofia da Ciência - Rubem Alves
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Filosofia da Ciência - Rubem Alves


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A pura imaginação perde assim, irrevogavelmente, sua antiga supremacia e se 
subordina necessariamente à observação\u201d (Veja cap. 8, parágrafo 2.00). 
Creio que não estarei sendo injusto se afirmar que tal programa foi 
praticamente aceito por todos. Os opositores, entre eles os românticos, 
Kierkegaard, Nietzsche, foram derrotados e silenciados. Até mesmo Engels, 
ao definir o sentido em que o socialismo marxista é científico, declarou que 
ele é apenas o \u201creflexo\u201d, a \u201cprojeção ideal\u201d, nas cabeças, daquilo que ocorre lá 
fora. Imaginação não entra. Em harmonia com o espírito do empirismo e do 
positivismo. 
 
C.1 E, com isto, os cientistas passaram a imaginar que eles pensam de maneira 
diferente dos homens comuns. Desligaram-se do \u201csenso comum\u201d. Enquanto o 
senso comum pensa a partir de emoções e desejos, o cientista é totalmente 
objetivo. Nas palavras de Nietzsche \u2013 \u201cespelho de cem olhos\u201d \u2013 seu único 
propósito é refletir o objeto. Não deseja coisa alguma dele. A objetividade e a 
isenção exigem isto. Afinal de contas um cientista tem de ser \u201clivre de 
valores\u201d ... E a sua ciência dispõe de um método que torna possível um 
discurso totalmente fiel ao objeto, do qual o sujeito se ausentou. 
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Tanto assim que nenhum cientista começa um artigo da seguinte forma: 
\u201cNo dia 13 de agosto de 1979, dia cinzento e triste, que me causou arrepios, 
fui para o meu laboratório, onde, por sinal, pendurei uma tela de Bruegel, um 
dos meus favoritos. Lá, trabalhando com tripanossomas, e vencendo uma 
terrível dor de dentes...\u201d 
Não. De saída tal artigo seria rejeitado, ainda que os resultados fossem 
soberbos. O estilo... O cientista não deve falar. É o objeto que deve falar por 
meio dele. Daí o estilo impessoal, vazio de emoções e valores: 
observa-se, 
constata-se, 
obtém-se, 
conclui-se. 
Quem? Não faz diferença... 
O que desejamos notar é que, durante muito tempo, pensou-se que este seria o 
caminho seguro, asséptico, metódico, pelo qual seria possível construir 
declarações teóricas isentas da contaminação das emoções. Tanto assim que os 
cientistas se gabavam de sua superioridade frente aos homens comuns. 
Veja esta deliciosa confissão de presunção e arrogância por parte de James 
Clark Maxwell, em sua aula inaugural como professor de física teórica, em 
Cambridge: 
\u201cA história do desenvolvimento das idéias, não importa que seja normal ou 
anormal, é, de todos os assuntos, aquele em que nós, homens do pensamento, 
temos o mais profundo interesse. Mas quando a ação da mente sobrepassa o 
estágio intelectual, no qual a verdade e o erro são as únicas alternativas, e 
mergulha nos estágios mais violentamente emocionais de ira e paixão, malícia 
e inveja, fúria e loucura, o estudante de ciência, embora obrigado a reconhecer 
a influência poderosa destas forças selvagens sobre a humanidade, está, talvez, 
de certa forma, desqualificado para se dedicar ao estudo desta parte da 
natureza humana ... Com alegria retornamos para a companhia daqueles 
homens ilustres que, por aspirar a fins nobres, tanto intelectuais quanto 
práticos, se elevaram acima da região das tempestades, numa atmosfera mais 
clara, onde não existe nenhuma representação equivocada de opinião nem 
ambigüidade de expressão, mas onde a mente entra em contato mais íntimo 
com a outra, no ponto em que ambas estão mais próximas da verdade\u201d 
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(Citado, sem nenhuma intenção irônica, por Charles Coulston Gillispie. The 
Edge of Objectivity, como prefácio e moto). 
Este texto é um prato suculento para qualquer pessoa que deseje fazer uma 
análise da visão de mundo e de si mesmos que fazem muitos cientistas. 
Onde se localiza o cientista? Quem é que habita este mundo? O que 
caracteriza o uso da linguagem, nesta esfera? 
E o outro mundo? Quem o habitará? Que tipo de fins devem ter as pessoas que 
nele vivem? Que forças o impulsionam? Que atitude deve ter o cientista para 
com ele? 
Por que razão o cientista se sente desqualificado a estudar este mundo mais 
baixo? Sensibilidades nasais? 
Que idéia o cientista faz de si mesmo? Homens ilustres, fins nobres, tanto 
intelectuais quanto práticos... 
Você acha que esta é uma descrição objetiva do mundo da ciência? Existe 
desejo e emoção nestas palavras? Podem ser consideradas como expressões da 
verdade? 
Os chineses contam a estória de um sábio que adormeceu à sombra de uma 
árvore. E sonhou. Era uma libélula. Mas a libélula do seu sonho estava 
adormecida. E sonhava. E no seu sonho ela era um sábio adormecido sob uma 
árvore, que sonhava que era uma libélula... 
Termina a estória dizendo que ele nunca mais conseguiu saber se ele era um 
sábio que sonhava com uma libélula, ou o sonho da libélula ... 
Boa parábola para os cientistas. Será que o seu pensamento é realmente 
objetivo, ou a sua pretensa objetividade não passa de um sonho, de uma ilusão 
de alguém que gostaria de ser um pouco mais que os demais mortais? ... 
Evidentemente, ninguém leva parábolas chinesas a sério, porque elas são 
entidades do mundo da fantasia. Mas o fato é que os cientistas foram levados a 
acreditar que eles eram tipos diferentes... Não é sem razão que Alvin Gouldner 
declara que é necessário 
\u201cabandonar o pressuposto muito humano, mas elitista, de que os outros crêem 
movidos por interesses, enquanto que eles (dentistas) crêem em obediência 
aos ditames da lógica e da razão\u201d (A. Gouldner. op. cit. p. 26). 
 
D.1 Como se constroem as teorias? 
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Uma alternativa é aceitar que existe um método, um procedimento racional, 
que nos leva das amostras, dos dados, dos fatos, dos enunciados particulares 
(ou protocolares) até os enunciados universais. Caminharíamos seguindo o 
caminho proposto pela indução. 
Um método seguro. 
Começar com os fatos e ficar com eles. 
Nada de saltos. Nos saltos a imaginação entra e o conhecimento se transforma 
em fantasia. 
Dizer apenas o que os fatos autorizam, a partir de baixo, aos poucos, 
progressivamente, passo a passo, juntando cuidadosamente todos os pedaços 
de informação. Filosofia de pedreiro. É assim que se faz a casa. 
Assim se ensina a ciência nas escolas, como 
\u201cum processo pelo qual vamos ajuntando pedaços de informação que são, por 
sua vez, somados, isoladamente ou em combinação, ao grande e sempre 
crescente estoque de técnicas e conhecimentos científicos\u201d (Thomas S. Kuhn. 
op. cit. p. 65). 
Mas, como Hume indicou, a passagem do alguns para o todos se dá graças ao 
auxílio de um pressuposto emocional: 
A crença de que o real é contínuo e homogêneo. Somente tendo esta crença 
por base, posso dar pulos da terra para o céu, e dizer que o que vale aqui 
embaixo também vale lá em cima, como é o caso da lei da. gravitação 
universal. Somente tendo esta crença por base, posso dar pulos do presente 
para o futuro e dizer que as coisas se comportarão daqui a cem anos da mesma 
forma como se comportaram cem anos atrás. 
Mas isto é uma crença. Newton não subiu aos céus para ver se a lei da 
gravitação funcionava lá. Nem nenhum cientista foi ao passado para 
contemplar o \u201cBig-Bang\u201d com que, segundo alguns deles, este universo 
começou. 
Nos seus primeiros passos, nos seus estágios mais simples, fracassa o 
programa da indução. Insinua-se a imaginação para estabelecer a ligação entre 
o particular e o universal. Como veremos mais tarde, ao nos referirmos à 
psicologia da forma, o conhecimento depende de nossa capacidade para 
encher os espaços vazios deixados por fragmentos de informações. Sem a 
imaginação ficaríamos nos fragmentos, no particular. Nunca daríamos o vôo 
universal da ciência. 
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E.1 Se, depois de examinar 1.000 gansos brancos, eu fizer