Filosofia da Ciência - Rubem Alves
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Filosofia da Ciência - Rubem Alves


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já dadas. Ela criou 
caminhos. 
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Rubem Alves \u2013 Filosofia da Ciência 
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Chamemos de imaginação exploratória ao primeiro tipo, e de imaginação 
criadora ao segundo. Aqui estamos frente a uma imaginação que gera, que 
traz â existência coisas que não existiam, que busca o que ainda não nasceu e 
que ainda não foi pensado. Não percorre mentalmente caminhos já 
determinados, mas inventa algo novo, uma perspectiva diferente, uma 
organização nunca dantes imaginada. 
É assim que nasce um poema, uma sinfonia, uma religião, uma utopia, uma 
teoria. 
Todos concordariam com Gauss: não sei como cheguei onde estou. Não fui eu 
quem produziu as idéias: elas me ocorreram. 
Isto mesmo. A ciência tentou, por todos os meios, fugir do irracional e das 
emoções, construindo um método que a conduzisse, de maneira segura, ao 
conhecimento verdadeiro. E, depois de tantos esforços, o que é que os 
próprios cientistas confessam? 
\u201cCada descoberta contém \u2018um elemento irracional\u2019 ou \u2018uma intuição criativa\u2019, 
no sentido de Bergson\u201d (Popper. op. cit. p. 32). 
\u201cIdéias ousadas, antecipações desprovidas de justificativas e o pensamento 
especulativo são os únicos meios de que dispomos para a interpretação da 
natureza\u201d (Idem. p. 280). \u201cNão conhecemos; só podemos fazer palpites. E os 
nossos palpites são guiados pela fé não científica, metafísica, em leis que 
podemos descobrir\u201d (Idem. p. 278). 
\u201cA descoberta não é o produto de uma longa corrente de pensamento abstrato\u201d 
(Schopenhauer. The World as Will and Idea. vol. I, p. 21). 
\u201cA verdadeira descoberta não é um processo estritamente lógico\u201d (Polanyi. op. 
cit. p. 123). 
\u201cAs idéias nos ocorrem não quando queremos mas quando elas querem. As 
melhores idéias vem à nossa mente, na . verdade, da forma como Ihering o 
descreve: fumando um charuto no sofá; ou como Helmholtz relata, com 
exatidão científica: quando dando uma volta numa rua ligeiramente inclinada. 
(...) Idéias não nos vêm quando nós as esperamos, nem quando estamos 
ruminando e procurando em nossas escrivaninhas. Por outro lado, elas 
certamente não teriam vindo às nossas mentes se não tivéssemos ruminado em 
nossas escrivaninhas e procurado respostas com devoção apaixonada\u201d (Max 
Weber. \u201cScience as Vocation.\u201d In: Gerth e Mills [orgs.j. From Max Weber: 
Essays in Sociology. p. 136). 
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\u201cNão existe nenhum caminho lógico que nos conduza (às grandes leis do 
universo). Elas só podem ser atingidas por meio de intuições baseadas em algo 
semelhante a um amor intelectual pelos objetos da experiência\u201d (Albert 
Einstein, citado por K. Popper. op. cit. p. 32). 
Paramos com esta afirmação paradoxal de Einstein: o ato criador depende de 
um amor intelectual pelos objetos da experiência. Estamos longe da assepsia 
que exigia, do cientista, uma absoluta neutralidade e indiferença face ao 
objeto. 
Emoção e objetividade não se opõem. É a emoção que cria o objeto. 
\u201cSem valorações não temos interesse nem sentido de importância ou 
significação e, conseqüentemente, nenhum objeto\u201d (Louis Wirth, citado por 
Gunnar Myrdal. op. cit. p. 102). 
 
I.1 Chegamos ao momento de um breve poslúdio. 
É a hora de avaliar aqueles que têm as maiores possibilidades de se 
transformarem em bons cientistas. Pode ser um vestibular. Um exame de 
mestrado ou doutoramento. 
Que avaliamos? Por acaso alguém já se preocupou, em avaliar a intensidade 
do amor do estudante pelo seu campo de investigação? Suas inquietações, suas 
perguntas \u2013 exatamente as inquietações e perguntas que farão sua mente vagar 
para muito longe das apostilhas? ... Pode ser que lhe falte a vocação da 
imaginação exploratória, imaginação que resolve problemas de xadrez, de 
matemática, de física, imaginação que investiga alternativas \u2018dadas ... Mas as 
perguntas, as dúvidas, não serão muito mais reveladoras do fervilhar do amor 
e da paixão, pré-requisitos para os vôos da imaginação criadora? 
Estamos frente à ironia do rigor, um dos mitos da comunidade científica. A 
imaginação exploratória pode ser avaliada com rigor: 
o movimento do xadrez foi correto ou não, 
a solução do problema foi correta ou não. 
Estamos aqui no mundo maravilhoso de Clark Maxwell, onde \u201cnão há 
nenhuma representação equivocada de opinião, nem ambigüidade de 
expressão...\u201d 
O problema é que o rigor incidiu sobre o insignificante. O que realmente 
importa, a imaginação criadora, não pode ser avaliada com precisão, porque 
seus sintomas são vacilantes: emoções, dúvidas, inquietação, um perguntar 
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sem fim... Incapazes de avaliar o que importa, resolvemos ser rigorosos com o 
que não importa. E ainda nos queixamos de que nossas instituições de ensino 
estão em crise. 
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Capítulo 10 
AS CREDENCIAIS DA CIÊNCIA 
 
 
\u201c(...) e porque eu desejava me entregar inteiramente à busca da 
verdade, pensei que seria necessário que eu (...) rejeitasse como 
absolutamente falsa qualquer coisa acerca da qual eu pudesse 
imaginar o menor fundamento para a dúvida, a fim de ver se, 
depois disto, alguma coisa permanecia que, segundo minha 
crença, era absolutamente certa.\u201d 
Descartes 
\u201cNós não conhecemos. Nós só podemos dar palpites.\u201d 
Karl Popper 
 
 
 
A.1 E a libélula sonhava que era um sábio ... E os cientistas sonhavam que não 
mais sonhariam, e imaginavam que a imaginação havia morrido ... 
Com eles nascia uma nova raça de indivíduos frios e racionais e que diziam 
para si mesmos: \u201cSomos reais, inteiramente. Já não existe em nós nem crença, 
nem superstição\u201d (Nietzsche). E eles pensavam que, com eles, a civilização 
alcançara um nível nunca dantes atingido (Weber). 
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Era assim que pensava o bom James Clark Maxwell, um bom físico que se 
sentia mal em meio à atmosfera turbulenta em que viviam os homens comuns 
e suas paixões. Mas não é justo separá-lo como bode expiatório. Foi apenas o 
porta-voz de uma geração que se embriagou consigo mesma. 
Kant, Comte, Freud, Marx, todos eles acreditam no advento de uma ciência 
livre de emoções. Kant denunciava as paixões como \u201ccancros da razão pura\u201d. 
Comte falava sobre os três estágios do pensamento, o mais primitivo, habitado 
por mágicos e sacerdotes e representado pela imaginação, enquanto o último 
era constituído ~de cientistas, sábios o bastante para amordaçar a imaginação. 
Freud caminha na mesma procissão e saúda o pensamento científico como 
aquele que definitivamente abandonou as fantasias e se ajustou à realidade. 
Enquanto, no marxismo, a ciência devora antropofagicamente sua própria 
mãe, a ideologia. 
De fato, não se pode negar a arrogância do cientista e a sua pretensão de saber 
mais que os homens comuns. No Massachusetts Institute of Technology, 
vulgarmente denominado MIT, considerado por muitos como a maior escola 
de engenharia do mundo, existe um enorme mural, no seu grande refeitório, 
que chama a atenção. É uma alegoria da ciência. No alto, a face austera da 
deusa Ciência. Logo abaixo, o seu sumo sacerdote, com suas vestes rituais, o 
cientista e o seu avental branco. A direita, uma ânfora rodeada por anjos e pela 
deusa da abundância. A esquerda, coberta pela sombra, uma outra ânfora, ao 
lado da qual se podem ver a cabeça de um lobo e uma feiticeira. No primeiro 
plano, a congregação dos cientistas e o seu moto: \u201c(...) e sereis como deuses, 
conhecendo o bem e o mal\u201d. 
A.2 E aqui estamos nós, com esta sugestão estranha de que a ciência é uma, 
dentre muitas outras atividades com que se ocupam as pessoas comuns. E que, 
portanto, não existe motivo para orgulho. 
\u201cA ciência, por mais pura que seja, é o produto de seres humanos engajados na 
fascinante aventura de