Filosofia da Ciência - Rubem Alves
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Filosofia da Ciência - Rubem Alves


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predições e que não podem ser 
compreendidos com o auxílio do seu instrumental conceptual. Tais fatos 
provam que ela é falsa. 
E isto significa que uma nova teoria deve ser construída. Tudo se inicia então, 
novamente, a partir do (1) . 
B.4 E Kuhn? 
(1) Existe, de início, um acordo com Popper. Não há métodos para a 
construção de teorias. Na verdade, Kuhn não começa com teorias, mas antes 
com aquilo a que ele dá o nome de paradigmas, que são visões de mundo mais 
abrangentes que teorias. Através dos paradigmas uma comunidade científica 
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obtém respostas para questões como: \u201cQuais são as entidades fundamentais de 
que o universo é composto? Como é que elas interagem umas com as outras e 
com os sentidos? Que questões podem ser legitimamente perguntadas acerca 
destas entidades e que técnicas devem ser empregadas na busca de soluções?\u201d 
(Kuhn, op. cit. p. 66-7). O que é de fundamental importância compreender é 
que tais paradigmas, como as teorias, não se encontram ao fim da indução. 
Não são construídos metodicamente. Eles simplesmente surgem, de forma 
semelhante àquela indicada pela psicologia \u201cgestáltíca\u201d: dados desconexos são 
repentinamente estruturados segundo um padrão significativo. 
(2) Uma vez constituído um paradigma, instaura-se o que Kuhn denomina 
\u201cciência normal\u201d. 
\u201cCiência normal são as pesquisas baseadas firmemente em uma ou mais 
conquistas passadas da ciência, conquistas que uma certa comunidade 
científica particular reconhece, por um certo período de tempo, como 
oferecendo as bases para sua prática posterior\u201d (Idem, p. 72). 
Ciência normal é o que ocorre diariamente em laboratórios. Note que tais 
rotinas só são possíveis porque existe um acordo que une aqueles que 
participam da empresa científica. É este acordo, de natureza social, que torna 
desnecessário dar explicações a todos os momentos. É ele que permite que o 
chefe de um laboratório dê tarefas aos seus subordinados, e as coisas sejam 
feitas. Além disto, ele é a base para a compreensão dos artigos científicos que 
apresentam os resultados do trabalho realizado. 
Todos foram educados e iniciados num mesmo mundo. Por isto as rotinas 
podem se dar. 
As coisas se parecem com aquilo que ocorre em uma sociedade de jogadores 
de xadrez. Nenhuma partida é igual a outra. No entanto, nenhuma delas seria 
possível sem um acordo sobre (I) os objetivos do jogo, (II) suas peças e (III) 
suas regras. 
A ciência normal existe, portanto, sob o patrocínio de um paradigma. Mas, 
como já indicamos, o paradigma mantém o cientista informado \u201cdas entidades 
fundamentais de que o universo é composto\u201d. Em outras palavras: o 
paradigma diz ao cientista o que procurar e o que esperar. Suponhamos que, 
acidentalmente, as redes do cientista apanhem um objeto não previsto. Que faz 
ele? Ele esfrega os olhos e diz: \u201cNão pode ser verdade\u201d. Na prática científica, 
contrariamente ao que dizem os critérios que possamos formular, o cientista 
está mais interessado na preservação do paradigma que na sua falsificação. 
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\u201cNormalmente os cientistas não têm por objetivo inventar novas teorias e são, 
freqüentemente, intolerantes para com aquelas inventadas por outros. Ao 
contrário, a pesquisa científica normal tem por objetivo a articulação daqueles 
fenômenos e teorias que o paradigma proporciona. A ciência normal não 
busca novidades de fato ou de teoria e, quando bem sucedida, não encontra 
nenhuma\u201d (Idem, p. 86, 114). 
 (3) A despeito dos cuidadosos arranjos para que nada de novo apareça, 
acontece que, de vez em quando, surgem fatos inesperados que não podem ser 
processados com o auxílio das receitas teóricas à disposição da comunidade 
científica: eventos que não deveriam ter acontecido. 
Que é que o cientista faz quando se defronta com uma destas anomalias? 
Bem, se ele levasse a sério o critério de falsificabilidade, perceberia, 
imediatamente, que se encontra frente a algo muito importante e começaria a 
levantar dúvidas quanto à propriedade da teoria. Parece, entretanto, que não é 
isto que acontece. O que leva Kuhn a duvidar de que \u201cos cientistas rejeitem 
paradigmas quando confrontados com anomalias ou contraprovas\u201d (Idem. p. 
139). 
Que é que um cientista faz quando confrontado com um fato não previsto pelo 
seu paradigma? 
\u2022 Primeira reação: 
\u201cOnde foi que errei? Agora tenho de repetir tudo de novo.\u201d 
\u2022 Segunda reação: 
\u201cQue é que meus colegas vão dizer se lhes contar o dado que obtive? 
Certamente pensarão que sou incompetente ou descuidado. É melhor 
ficar quieto.\u201d 
\u2022 Terceira reação: 
\u201cÉ melhor esconder as provas.\u201d 
\u201cA ciência normal freqüentemente suprime novidades fundamentais porque 
elas são necessariamente subversivas de suas lealdades básicas\u201d (Idem, p. 67). 
Conclusão: Parece que o cientista não é o executante de um método, mero 
método encarnado ... Seu comportamento se parece muito com o das pessoas 
comuns, que vêem evidências quando elas não existem e não as vêem, quando 
existem. 
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B.5 As mudanças virão contra a vontade. Na verdade, tudo se fará para que 
nenhuma mudança ocorra, pois isto traria enormes complicações: 
reaprendizagem da linguagem, retreinamento do pessoal, o doloroso 
reconhecimento de que artigos já escritos estão obsoletos. Diz-nos Kuhn que 
os cientistas, 
\u201cdeixados a si mesmos, não podem e não falsificarão aquela teoria filosófica 
em questão, pois os seus defensores farão aquilo que nós já vimos os cientistas 
fazer quando confrontados com anomalias. Eles inventarão inúmeras 
articulações e modificações \u2018ad hoc\u2019 de sua teoria a fim de eliminar qualquer 
conflito aparente\u201d (Idem, p. 140). 
Modificações ad hoc são aquelas do tipo: isto não é um ganso, é um fanso... 
Por meio de artifícios semelhantes a este uma certa comunidade pode ajeitar o 
seu paradigma ou teoria, de sorte a fazer com que ele tenha uma vida longa. 
É muito fácil dar um jeito em fatos incômodos. A situação se complica, 
entretanto, quando se torna necessário lidar com pessoas que estão 
convencidas de suas idéias. E aqui a história da ciência não é nada edificante. 
Veja, se as decisões na ciência se fizessem pela comparação das teorias com 
os fatos, não seria necessária tanta fúria para com pessoas com idéias 
diferentes. Mas é esta fúria mesma que nos demonstra que a ciência caminha 
em meio aos ares turbulentos e que muitas decisões se fazem por razões que 
em nada se parecem com os critérios propostos pelos filósofos da ciência. 
\u201cA razão por que Copérnico adiou a publicação de sua teoria até o fim de sua 
vida não foi medo da Igreja Católica (que o protegeu e encorajou), mas medo 
do ridículo perante seus colegas astrônomos. O conflito de Galileu com a 
Igreja poderia ter sido provavelmente evitado se ele tivesse sido dotado de 
menos paixão e mais diplomacia; mas, muito antes do início do conflito, ele já 
gozava da hostilidade implacável dos (cientistas) aristotélicos ortodoxos, que 
ocupavam posições-chave nas universidades italianas. (...) A martirologia da 
ciência menciona apenas uns poucos casos conspícuos que terminaram em 
tragédia pública. Robert Meyer, co-descobridor do princípio de conservação 
de energia, ficou louco porque lhe foi negado reconhecimento por seu 
trabalho. O mesmo ocorreu a Ignácz Semmelweis...\u201d A recompensa pelo que 
ele fez no hospital de Viena foi que ele foi dali \u201cexpulso por seus colegas de 
profissão médica \u2013 ressentidos com a sugestão de que eles poderiam estar 
carregando a morte em suas mãos. Foi para Budapeste, mas não conseguiu 
convencer outros de sua doutrina, denunciou seus oponentes como assassinos, 
ficou louco furioso, foi colocado numa camisa-de-força e morreu num hospital 
para loucos\u201d (Arthur Koestler. The Act of