Filosofia da Ciência - Rubem Alves
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Filosofia da Ciência - Rubem Alves


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linguagem e, 
conseqüentemente, o sistema de conceitos que ela traduz, é produto de uma 
elaboração coletiva\u201d (Emile Durkheim. The Elementary Forms of the 
Religious Life. p. 482). 
Em 1984, de Orwell, a \u201cnovilíngua\u201d foi construída sobre o princípio da 
necessidade de redução drástica de vocabulário, porque as pessoas só podem 
pensar aquilo que elas podem falar. 
C.4 Peter Berger observa que se ele, sociólogo, fosse colocado num mosteiro 
budista, por um período razoável de tempo, continuaria a ser um sociólogo. 
Acontece que a nossa consciência só se sustenta por meio do \u201ctênuo fio da 
conversação\u201d. Com quem conversaria ele? Com ninguém. Aos poucos sua 
consciência de sociólogo se enfraqueceria ao mesmo tempo em que sua 
compreensão dos budistas cresceria. Na verdade, seria o budismo que estaria 
entrando na sua alma, condicionando maneiras de falar, de pensar, de sentir o 
próprio corpo. 
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Somos membros de instituições. E as operações que somos forçados a realizar, 
em virtude de nossas funções, seja pelo trabalho físico, seja pelo pensamento e 
pela palavra, terminam por ganhar a nossa alma. O burocrata é burocrata 
tempo integral. A sua alma faz uso de carimbos. E o mesmo ocorre com o 
militar, o clérigo, o bancário, o motorista, o enfermeiro ... 
O cientista-artesão e o cientista-burocrata? 
As situações sociais se modificaram. 
As linguagens se modificaram. 
A razão se modificou. 
As evidências também se modificaram ... 
Pelo menos, é o que nos diz Robert K. Merton: \u201cNossa linguagem conceptual 
tende a fixar nossas percepções e, derivativamente, nosso comportamento\u201d. A 
evidência não se define de lá para cá. Nós construímos as nossas evidências. E 
ele continua: \u201co conceito define a situação, e o pesquisador responde de forma 
adequada\u201d (R. K. Merton, op. cit., p. 145). 
Mas quem será que define o conceito? 
Humpty Dumpty nos dirá. 
C.5 E a resposta eterna se repete: \u201cMas isto não é ciência...\u201d 
E eu pergunto: 
\u201cO que é ciência? 
Que fatos podem falsificar o seu conceito de ciência?\u201d 
E descobrimos, para espanto, que não há fatos que o falsifiquem, porque 
sempre que aparece um fato falsificante ele é declarado irrelevante. Não é um 
ganso, é um fanso... Não é ciência, é instituição ... E o conceito fica tão 
nebuloso quanto os conceitos metafísicos e teológicos que se pretendia 
exorcizar... 
 
D.1 A resistência é compreensível. Uma comunidade que, por séculos, 
compôs e se embalou ao som de uma canção que fala do cientista como 
\u201cinvestigador sem preconceitos em busca da verdade, explorador da natureza, 
homem que rejeita idéias preconcebidas ao entrar no laboratório, 
colecionador e examinador de fatos, fiel à realidade\u201d, 
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não pode suportar uma nova imagem, especialmente quando ela é 
contundente. 
A lógica da instituição está ligada a fatores turbulentos. 
Poder. 
Prestígio. 
Dinheiro. 
Quem é que paga suas contas? 
Quem seleciona os problemas a serem pesquisados? 
Quem determina quais são os problemas relevantes tem o poder também para 
determinar quais são as evidências relevantes. 
E claro. 
A natureza não nos apresenta as evidências dentro de uma caixa com a 
etiqueta \u201cevidências\u201d. É o pesquisador que tomará a decisão \u2013 e insisto na 
palavra decisão \u2013 de considerar algo como relevante ou irrelevante. E tal 
decisão tem suas raízes, onde? No \u201cfato\u201d? Ou nos acordos teóricos que regem 
a vida da instituição científica? 
D.2 
 
\u201cEu não sei o que você quer dizer por \u2018glória\u201d\u2018, disse Alice. 
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Humpty Dumpty sorriu com desdém. É claro que não, até que eu lhe diga. 
Significa: \u2018há um belo argumento decisivo para você.\u201d 
\u201cMas \u2018glória\u2019 não significa \u2018um belo argumento decisivo\u201d, objetou Alice. 
Quando EU uso uma palavra\u201d, disse Humpty Dumpty, num tom de deboche, 
\u201cela significa apenas aquilo que eu quero que ela signifique, nem mais, nem 
menos.\u201d 
\u201cA questão é\u201d, disse Alice, \u201cse você pode fazer com que as palavras 
signifiquem tantas coisas diferentes.\u201d 
\u201cA questão é\u201d, disse Humpty Dumpty, \u201cquem é o senhor \u2013 isto é tudo.\u201d (L. 
Carroll, Alice\u2019s Adventures in Wonderland \u2013 Through the Looking Glasse, p. 
247). 
D.3 Humpty Dumpty indica o cerne do problema. A questão é que a tomada 
de decisão sobre a verdade ou falsidade de proposições não se faz a partir da 
neutralidade e da indiferença de teorias e métodos. E isto porque teorias e 
métodos só existem efetivamente como sistemas de idéias e instrumentais de 
comunidades. 
Falsificação pela comparação da teoria com a contraprova. 
Exemplo? 
O revisor de livros, olhos tecnicamente treinados e aguçados, percorrendo 
linha após linha um texto a ser impresso. Sua tarefa: detectar discrepâncias 
entre o texto impresso e o original, e fazer as correções. Cada erro é corrigido 
com frieza. 
Será esta a situação do cientista? 
Texto original: a natureza. 
Texto a ser corrigido: a teoria. 
Estará ele pronto a corrigir ou mesmo a rasgar o texto saído de suas entranhas, 
como o revisor? 
E nem mesmo o revisor trabalha da forma como indicamos. Por que razão 
lemos, em jornais, coisas que claramente não estão escritas? Tomamos uma 
palavra por outra... A psicanálise poderia explicar. É que nunca, nunca, nunca, 
lemos um texto para ler um texto. Lemos um texto para encontrar lá o que 
desejamos encontrar. 
Kepler, as harmonias. 
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Galileu, a frieza precisa da matemática. 
Descartes estava equivocado. A essência do homem não é o pensamento. É o 
desejo. E, em cada ato de busca, estamos em busca daquilo que desejamos 
encontrar. A fantasia cria a razão (Unamuno). 
Aquele que busca terroristas, exultará ao encontrar na estante de um estudante 
de engenharia um livro com o título Manual de Fabricação de Bombas. Esta 
evidência lhe basta \u2013 ainda que sejam bombas de irrigação...\u201dAquele que 
busca, encontra...\u201d 
D.4 Teorias não são objetos frios. Estão ligadas à biografia do cientista e ao 
destino de sua comunidade. 
\u201cAs criações científicas (...) não são apenas representações dos assim 
chamados eventos externos, mas arranjos para servir à nossa necessidade 
humana de coerência\u201d (Lecky, op. cit. p. 75). 
Teorias são amantes, 
objetos do amor, 
visões beatíficas do mundo, 
filhas da paixão intelectual. 
Numa carta que Freud escreveu a Einstein em 1932, ele se perguntava: 
\u201cNão será verdade que cada ciência, no fim, se reduz a um certo tipo de 
mitologia?\u201d (Citado por Rieff. Freud: The Mind of the Moralist. p. 224). 
Não se equivoquem. Mitologia, aqui, não é sinônimo de fábula. O mito é uma 
construção simbólica a que se liga o destino de comunidades e povos. Todas 
as vezes que uma teoria morre, tocam os sinos e escreve-se o obituário de um 
mundo, bem como de todos os sacerdotes que o serviam: velhos cientistas \u2013 
compreende-se que eles se recusem a se converter às teorias novas. Amores 
novos não combinam com a dignidade dos velhos. Será necessário que eles 
morram para que a nova teoria triunfe, queimando velhos manuais, mudando a 
linguagem, invadindo laboratórios, descrevendo novos mundos, construindo 
novos panteões ... Não deveria ser assim se as teorias fossem neutras e se os 
métodos carregassem consigo a clareza.das evidências. Acontece que o desejo 
puro de saber é muito fraco frente ao desejo impuro de viver. É do desejo que 
brota a resistência. Para que houvesse um cientista dócil perante as evidências, 
seria necessário que o seu intelecto tivesse sido castrado de sua capacidade de 
amar. Morram os fatos. Viva a teoria! 
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D.5 \u201cA inteligência pura é um produto da morte\u201d, dizia Ferenczi (citado por 
Norman O.