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vinculam o Estado \u2013 incluindo o 
legislador, os órgãos administrativos e o Poder Judiciário \u2013, bem como os 
particulares. 
Na jurisprudência do STF, já foi reconhecida como obrigatória a observância 
do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório no caso de exclusão 
compulsória de associado de uma cooperativa3, bem como no caso de 
afastamento de associados em uma sociedade civil4, deixando assente a nossa 
Corte Maior que 
\u201cas violações a direitos fundamentais não ocorrem somente no âmbito das 
relações entre o cidadão e o Estado, mas igualmente nas relações travadas entre 
pessoas físicas e jurídicas de direito privado. Assim, os direitos fundamentais 
assegurados pela nossa Constituição vinculam diretamente não apenas os 
poderes públicos, estando direcionados também à proteção dos particulares em 
face dos poderes privados\u201d. 
..................... 
 
3) O item 4.5. passou a ter a redação abaixo (reprodução integral do item): 
4.5. Liberdade de expressão (art. 5.º, IV, V, IX, XIV) 
Neste tópico, analisaremos quatro incisos do art. 5.º da Constituição que estão, 
direta ou indiretamente, relacionados ao direito à liberdade de expressão. 
Nos termos do inciso IV do art. 5.º, \u201cé livre a manifestação do pensamento, 
sendo vedado o anonimato\u201d. Trata-se de regra ampla, e não dirigida a 
destinatários específicos. Qualquer pessoa, em princípio, pode manifestar o que 
pensa, desde que não o faça sob o manto do anonimato. 
Conforme ensina o Prof. Alexandre de Moraes, \u201ca proteção constitucional 
engloba não só o direito de expressar-se, oralmente, ou por escrito, mas também 
o direito de ouvir, assistir e ler\u201d. 
 
3
 RE 158.215/-RS, rel. Min. Marco Aurélio, DJ de 07.06.1996. 
4
 RE 201.819/RJ, rel. Min. Ellen Gracie, rel. p/ acórdão Min. Gilmar Mendes, 11.10.2005. 
Em respeito à ampla liberdade de expressão, o Supremo Tribunal Federal 
afastou a exigência do diploma de jornalismo e do registro profissional no 
Ministério do Trabalho como condição para o exercício da profissão de jornalista. 
Para o Tribunal, essa exigência fere a liberdade de imprensa e contraria o direito à 
livre manifestação do pensamento inscrita no artigo 13 da Convenção Americana 
dos Direitos Humanos, também conhecida como Pacto de San Jose da Costa 
Rica. Conforme deixou assente o relator, Ministro Gilmar Mendes, \u201co jornalismo é 
a própria manifestação e difusão do pensamento e da informação de forma 
contínua, profissional e remunerada\u201d, e, portanto, \u201co jornalismo e a liberdade de 
expressão não podem ser pensados e tratados de forma separada\u201d.5 
A vedação ao anonimato, que abrange todos os meios de comunicação, tem o 
intuito de possibilitar a responsabilização de quem cause danos a terceiros em 
decorrência da expressão de juízos ou opiniões ofensivos, levianos, caluniosos, 
difamatórios etc. Merece transcrição esta lição do Min. Celso de Mello, proferida 
em seu voto na questão de ordem suscitada no Inquérito 1.957/PR, julgado em 
11.05.2005: 
Sabemos, Senhor Presidente, que o veto constitucional ao 
anonimato, nos termos em que enunciado (CF, art. 5.º, IV, \u201cin 
fine\u201d), busca impedir a consumação de abusos no exercício da 
liberdade de manifestação do pensamento e na formulação de 
denúncias apócrifas, pois, ao exigir-se a identificação de seu 
autor, visa-se, em última análise, com tal medida, a possibilitar 
que eventuais excessos derivados de tal prática sejam tornados 
passíveis de responsabilização, a posteriori, tanto na esfera civil 
quanto no âmbito penal, em ordem a submeter aquele que os 
cometeu às conseqüências jurídicas de seu comportamento. 
(...) 
Torna-se evidente, pois, Senhor Presidente, que a cláusula 
que proíbe o anonimato \u2013 ao viabilizar, a posteriori, a 
responsabilização penal e/ou civil do ofensor \u2013 traduz medida 
constitucional destinada a desestimular manifestações abusivas 
do pensamento, de que possa decorrer gravame ao patrimônio 
moral das pessoas injustamente desrespeitadas em sua esfera de 
dignidade, qualquer que seja o meio utilizado na veiculação das 
imputações contumeliosas. 
A vedação ao anonimato impede, também, como regra geral, o acolhimento de 
denúncias anônimas (delação apócrifa), conforme se constata das seguintes 
conclusões, que encerram o voto do Min. Celso de Mello no Inquérito 1.957/PR 
(questão de ordem): 
(a) os escritos anônimos não podem justificar, só por si, desde 
que isoladamente considerados, a imediata instauração da 
 
5
 
RE 511.961, rel. Ministro Gilmar Mendes, 17.06.2009 
 
persecutio criminis, eis que peças apócrifas não podem ser 
incorporadas, formalmente, ao processo, salvo quando tais 
documentos forem produzidos pelo acusado, ou, ainda, quando 
constituírem, eles próprios, o corpo de delito (como sucede com 
bilhetes de resgate no delito de extorsão mediante seqüestro, ou 
como ocorre com cartas que evidenciem a prática de crimes 
contra a honra, ou que corporifiquem o delito de ameaça ou que 
materializem o crimen falsi, p. ex.); 
(b) nada impede, contudo, que o Poder Público, provocado por 
delação anônima (\u201cdisque-denúncia\u201d, p. ex.), adote medidas 
informais destinadas a apurar, previamente, em averiguação 
sumária, \u201ccom prudência e discrição\u201d, a possível ocorrência de 
eventual situação de ilicitude penal, desde que o faça com o 
objetivo de conferir a verossimilhança dos fatos nela denunciados, 
em ordem a promover, então, em caso positivo, a formal 
instauração da persecutio criminis, mantendo-se, assim, completa 
desvinculação desse procedimento estatal em relação às peças 
apócrifas; e 
(c) o Ministério Público, de outro lado, independentemente da 
prévia instauração de inquérito policial, também pode formar a 
sua opinio delicti com apoio em outros elementos de convicção 
que evidenciem a materialidade do fato delituoso e a existência de 
indícios suficientes de sua autoria, desde que os dados 
informativos que dão suporte à acusação penal não tenham, 
como único fundamento causal, documentos ou escritos 
anônimos. 
Em aresto ulterior, reiterou essa orientação o Supremo Tribunal Federal, ao 
deferir habeas corpus para trancar, por falta de justa causa, notícia-crime 
instaurada, por requisição do Ministério Público Federal, com base unicamente 
em denúncia anônima. Asseverou então a Corte Suprema que a instauração de 
procedimento criminal originada apenas em documento apócrifo seria contrária à 
ordem jurídica constitucional, que veda expressamente o anonimato, ofenderia a 
dignidade da pessoa humana, permitindo a prática do denuncismo inescrupuloso, 
e impossibilitaria eventual indenização por danos morais ou materiais, 
contrariando os princípios consagrados nos incisos V e X do art. 5.º da Carta da 
República.6Os direitos da pessoa que sofra um dano em razão de manifestação 
indevida por parte de outrem estão explicitados no inciso V do art. 5.º da 
Constituição, nestes termos: 
V \u2013 é assegurado o direito de resposta, proporcional ao 
agravo, além da indenização por dano material, moral ou à 
imagem; 
O direito de resposta está orientado pelo critério da proporcionalidade, isto é, a 
 
6
 HC 84.827/TO, rel. Min. Marco Aurélio, 07.08.2007. 
 
resposta deve ser assegurada no mesmo meio de comunicação em que o agravo 
foi veiculado, e deve ter o mesmo destaque e a mesma duração (se em meio 
sonoro ou audiovisual) ou tamanho (se em meio escrito). Deve-se ressaltar que o 
direito de resposta não afasta o direito à indenização. 
O direito de resposta e o direito à indenização por danos morais e materiais \u2013 
anote-se que essas indenizações são cumuláveis \u2013 aplicam-se tanto às pessoas 
físicas quanto às pessoas jurídicas que sejam ofendidas pela expressão indevida 
de juízos ou opiniões.