Apostila Ventilação Mecânica
114 pág.

Apostila Ventilação Mecânica


DisciplinaFisioterapia13.155 materiais51.411 seguidores
Pré-visualização27 páginas
circuito do ventilador, sem ajuda ou interferência, fazendo uma 
chamada ventilação espontânea. Ao mesmo tempo, desejava-se que, de tempos em tempos, o 
ventilador enviasse um ciclo assistido disparado pelo paciente, com parâmetros de volume e 
fluxos pré-determinados e fixos (e não livres como nos ciclos espontâneos), a fim de \u201cajudar\u201d o 
paciente e garantir a ventilação. Caso o paciente parasse de ventilar espontaneamente, e assim 
parasse de disparar também os ciclos ditos assistidos, o aparelho aguarda uma JT inteira e então 
reassume a frequência com ciclos ditos controlados. 
Assim sendo, procure entender primeiro o SIMV descrito originalmente (ou seja, sem 
Pressão de Suporte - outro Modo que será abordado adiante). No SIMV, estabelece-se uma FR 
básica, que servirá para o processador calcular a JT. Por exemplo, estabelece-se uma FR de 10 
rpm, o que gerará uma JT de 6 segundos. Se o paciente estiver sem drive ativo, isso fará com que 
a cada 6 segundos o ventilador lhe envie um ciclo controlado. Caso o paciente superficialize seu 
drive ventilatório e dispare o aparelho (pode ser disparo a pressão ou a fluxo), o ventilador lhe 
enviará um ciclo assistido, com os mesmos parâmetros do ciclo controlado. Ponto 
fundamental para diferenciar do modo assistido-controlado: o ventilador não interrompe a 
contagem da JT e não zera a mesma! Assim sendo, ainda dentro da mesma JT após o ciclo 
assistido, se o paciente novamente quiser respirar, então o ventilador permite que o paciente 
ventile por si, dentro do circuito, de forma espontânea e sem ajuda. Esse tipo de ciclo se 
definiu na história como ciclo espontâneo. 
Todas as entradas do paciente depois do ciclo assistido, dentro de uma mesma janela de 
tempo, serão espontâneas. Quando se findar a JT, o ventilador levará em conta o registro de que 
na JT anterior houve um ciclo assistido. Assim sendo, o ventilador não enviará nada ao 
paciente durante toda a janela de tempo subsequente, \u201cesperando\u201d que o paciente dispare um 
novo ciclo, evitando a \u201cbriga\u201d do paciente com o ventilador. Assim, se o paciente disparar o 
ventilador, esse primeiro ciclo será sempre um ciclo assistido. Os ciclos subsequentes dentro da 
mesma JT serão novamente espontâneos até que se feche a JT, e assim sucessivamente. Caso o 
ventilador não detecte nova tentativa do paciente em dispará-lo, o processador esperará o fim 
da JT atual para somente então retomar o ciclo controlado na JT subsequente. 
 
 
 
 
Esquema do funcionamento do modo SIMV. Fig. De Bonassa, L. Ed. Atheneu, 2000 
 
 
A SIMV permite que a inspiração mecânica ocorra somente em resposta ao esforço 
inspiratório espontâneo do paciente. A - Esforço espontâneo aciona a respiração mecânica 
produzida pelo respirador. B - Nenhum esforço espontâneo ocorreu. Então, o ventilador 
produz uma respiração automaticamente, como medida de segurança. 
 
Assim sendo, fica claro que o entendimento do conceito de janela de tempo e de forma de 
disparo é essencial para se entender o funcionamento dos modos ditos básicos em VMI. 
 
Aplicações Clínicas 
 
A principal meta de qualquer forma de suporte respiratório é melhorar a ventilação e/ou a 
oxigenação, sem introduzir variáveis que possam na verdade piorar a condição geral do paciente. 
Uma avaliação útil da IMV e da SIMV pode ser iniciada pelo exame das vantagens e 
desvantagens alegadas. 
 
1- Vantagens Alegadas 
 
Evita a alcalose respiratória 
Diminui a necessidade de sedação/relaxamento muscular 
Menor pressão média nas vias aéreas 
 
 
Melhor proporção entre ventilação e perfusão 
Desmame mais rápido 
Prevenção de atrofia/descoordenação dos músculos respiratórios 
Menor probabilidade de descompensação cardíaca 
 
2- Desvantagens Alegadas 
 
Risco aumentado de retenção de CO2 
Aumento do trabalho da respiração 
Fadiga muscular respiratória 
Desmame prolongado 
Maior probabilidade de descompensação cardíaca 
 
Vantagens 
 
Evitando a alcalose respiratória 
 
Não existe dúvida de que a IMV e a SIMV diminuem a incidência e a gravidade da 
alcalose respiratória. Vários estudos demonstraram esse fato, e existe pouca discussão sobre a 
diminuição do pH e o aumento da PaCO² estatisticamente significativos com esses modos de 
ventilação, quando comparados com a ventilação controlada ou assistida. Não existe acordo, 
entretanto, sobre se essas diferenças são clinicamente relevantes e sobre quais seriam os 
mecanismos responsáveis por elas. 
Os defensores da IMV e da SIMV têm sempre alegado que a redução na alcalose resulta 
da habilidade do paciente de determinar tanto a frequência, quanto o VT da respiração 
espontânea para satisfazer suas necessidades fisiológicas. O respirador é usado somente para 
apoiar a ventilação insuficiente, trazendo-a para um nível normal, em termos da eliminação de 
dióxido de carbono. Consequentemente, pH e PaCO² normais são esperados. 
Os oponentes argumentam que a única razão pela qual o pH e a PaCO² estão melhores 
na IMV e/ou na SIMV é porque a produção de dióxido de carbono está aumentada, como 
resultado da atividade muscular respiratória aumentada pela respiração espontânea e não da 
melhor relação ventilação/perfusão (V/Q) sugerida pelas pesquisas anteriores. Os dados que 
supostamente apóiam essa conclusão não são convincentes quando cuidadosamente 
examinados. No estudo de referência, uma produção aumentada de dióxido de carbono em 
pacientes com IMV ocorreu somente quando nove pacientes com disfunção do sistema nervoso 
central foram incluídos no total de 26 pacientes estudados. Nos outros 17 pacientes com função 
do SNC normal, não foi encontrada diferença na produção de dióxido de carbono entre IMV e 
ventilação assistido-controlada. 
Com respeito à relevância clínica da redução da alcalose respiratória, cada caso deve 
ser julgado individualmente. Para alguns pacientes, a diferença pode ser pequena ou mesmo não 
existir. Para outros, ela será muito maior e de maior importância. Os efeitos adversos da 
alcalose respiratória têm sido bem documentados, incluindo redução do débito cardíaco, 
diminuição do fluxo sanguíneo cerebral, função metabólica alterada, redução do Ca2+ e 
desvio transitório da curva de dissociação da hemoglobina para a direita. Se essas 
 
 
alterações, nenhuma das quais pode ser considerada inócua para o paciente com falência 
respiratória, podem ser reduzidas ou evitadas pela correção da alcalose pela IMV/SIMV, por que 
não fazê-lo então? 
 
Diminuição da Sedação/Relaxamento Muscular 
 
Como os objetivos da IMV e da SIMV somente podem ser atingidos através da 
maximização da respiração espontânea, devem-se reduzir ou abolir as drogas depressoras da 
respiração. Os relaxantes musculares, é claro, não são usados de maneira alguma nos pacientes 
tratados com IMV e/ou SIMV. Os sedativos e os narcóticos são empregados para atingir objetivos 
definidos, para os quais eles foram originariamente concebidos \u2014 sono, alívio da ansiedade e 
da dor \u2014, sem supressão da ventilação espontânea. Eu não conheço ninguém que conteste 
essa vantagem decorrente da IMV e da SIMV. 
 
Pressão Média Menor nas Vias Aéreas 
 
Como a respiração espontânea diminui a pressão das vias aéreas, enquanto a 
ventilação mecânica aumenta, uma técnica que combine as duas irá resultar em uma redução 
mais bem sucedida da pressão média das vias aéreas do que uma na qual somente seja usada 
respiração com pressão positiva mecanicamente. Duas vantagens principais provavelmente 
decorrem da diminuição da pressão nas vias aéreas. Na primeira, com pico de pressão 
inspiratória menor na respiração mecânica, o risco de barotrauma pulmonar parece ser reduzido 
significativamente. A segunda, a menor pressão média nas vias aéreas e, consequentemente, a 
menor pressão intrapleural, representa menor impedimento ao retorno venoso e débito 
cardíaco.