Max Weber - Ética protestante e o espírito do capitalismo
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Max Weber - Ética protestante e o espírito do capitalismo


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e esse é um ponto de muita importância do nosso ponto de vista, 
apenas com garotas que receberam uma formação religiosa, especialmente a pietista. 
Ouvimos com freqüência, e as estatísticas confirmam que, de longe, as melhores chances de 
uma educação econômica são encontradas entre os membros desse grupo. A habilidade de 
concentração mental, tanto quanto o sentimento de dever, absolutamente essencial, em 
relação ao trabalho, são aqui muitas vezes combinados com uma economia rígida, que 
calcula a possibilidade de altos ganhos, um frio autocontrole e frugalidade que, aumentam 
enormemente o desempenho. 
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Isto fornece o fundamento mais favorável para a concepção do trabalho como um fim em si 
mesmo, como uma vocação necessária ao capitalismo: as oportunidades de superar o 
tradicionalismo são maiores por conta da formação religiosa. Essa observação do 
capitalismo atual sugere por si mesma a validade da indagação de como essa conexão entre 
adaptabilidade ao capitalismo e fatores religiosos possa ter surgido nos momentos iniciais 
de seu desenvolvimento. Que tais fatores estavam presentes então de forma muito 
semelhante, pode ser inferido de numerosos fatos. Por exemplo, a segregação e a 
perseguição sofrida pelos trabalhadores metodistas no século XVIII por parte de seus 
camaradas foram não só nem principalmente o resultado de suas diferenças religiosas, pois 
que a Inglaterra já vira outras, e bem mais estranhas. Deveram se, isto sim, como a 
destruição de suas ferramentas repetidamente mencionada nos relatórios sugere, à sua 
especial disposição para o trabalho, como diríamos hoje. 
Voltemos contudo ao presente, e agora para o empresário, para esclarecer o significado do 
tradicionalismo no caso deste. 
Sombart, na sua discussão sobre a gênese do capitalismo, fez a distinção entre satisfação 
das necessidades e aquisição como sendo os dois grandes princípios orientadores da história 
econômica. No primeiro caso, a obtenção dos bens necessários à satisfação das 
necessidades pessoais, e no segundo, a luta para obter lucros sem os limites impostos pelas 
necessidades, tem sido as finalidades controladoras da forma e da direção da atividade 
econômica. Aquilo que ele chama de economia de necessidades parece, à primeira vista, 
idêntico àquilo que é aqui descrito como tradicionalismo econômico. E pode ser esse o 
caso, se o conceito de necessidades for limitado às necessidades tradicionais. Contudo, se 
não for esse o caso, certo número de sistemas econômicos que podem ser considerados 
capitalistas de acordo com a definição que Sombart nos oferece em outro ponto do seu 
trabalho, deverão ser excluídos da categoria de economias aquisitivas e colocados entre as 
economias de necessidade. A saber, empresas dirigidas por empreendedores particulares 
utilizando capital (dinheiro ou bens com valor monetário) para obter lucro, comprando os 
meios de produção e vendendo o produto, isto é, empresas indubitavelmente capitalistas 
podem ao mesmo tempo ter um caráter, tradicionalista. Mesmo no curso da história da 
economia moderna isso pão tem sido um mero caso esporádico, mas antes uma regra com 
contínuas interrupções por parte das repetidas e sempre maus poderosas conquistas do 
espírito do capitalismo. Certamente, a forma capitalista de uma empresa e o espírito pelo 
qual ela se guia estão geralmente em uma relação de adequação, sem ser necessariamente 
interdependentes. Apesar disso, usamos provisoriamente a expressão do espírito do 
capitalismo (moderno) para designar a atitude que busca o lucro racional e 
sistematicamente, da maneira que ilustramos com o exemplo de Benjamin Franklin. Isso, 
contudo, se justifica pelo fato histórico de que aquela atitude mental tenha, de um lado, 
encontrado sua mais apropriada expressão na empresa capitalista e, por outro lado, essa 
tenha derivado do espírito do capitalismo sua força motivadora mais adequada. 
Porém as duas coisas podem muito bem ocorrer separadamente. Benjamin Franklin estava 
imbuído do espírito do capitalismo no tempo em que seus negócios de tipografia não 
tinham forma diferente de qualquer empresa artesanal. E veremos que no início dos tempos 
modernos os empreendedores capitalistas não estavam entre a aristocracia comercial, e que 
A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo 
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eram os únicos ou os predominantes suportes da atitude que aqui chamamos de espírito do 
capitalismo.` Estavam muito mais nas camadas emergentes dos pequenos industriais de 
classe média. Mesmo no século XIX, seus representantes clássicos não eram os cavaleiros 
elegantes de Liverpool e de Hamburgo, com suas fortunas comerciais acumuladas durante 
gerações, mas os novos ricos auto construídos de Manchester e da Westphalia, que muitas 
vezes ascenderam de condições muito modestas. Já no século XVI a situação era 
semelhante; as indústrias que cresceram nesse tempo foram criadas principalmente por 
novos ricos. 
Por exemplo, a administração de um banco, de um negócio atacadista de exportação, de um 
grande estabelecimento varejista ou de uma grande empresa que negocie com produtos 
feitos em casa, certamente só é possível na forma de empresa capitalista. E no entanto, 
todas podem ser dirigidas com espírito tradicionalista. De fato, os negócios de um grande 
banco emissor não podem ser dirigidos de outra maneira. O comércio exterior de épocas 
inteiras se baseou em monopólios e privilégios legais, de caráter estritamente 
tradicionalista. No comércio varejista e não estamos aqui falando de pequenos comerciantes 
sem capital que estão sempre implorando a ajuda do governo \u2013 a revolução que está pondo 
um fim no velho tradicionalismo está ainda em, plena marcha. Trata se do mesmo 
desenvolvimento que desbancou o velho sistema de produção, com o qual o sis tema 
moderno de produção doméstica está relacionado apenas na forma. Como esta revolução 
ocorreu e qual o seu significado, apesar dessas coisas nos serem tão familiares, pode 
novamente ser aclarado por um exemplo concreto. 
Até meados do século passado, ao menos em muitos dos ramos da industria têxtil do 
continente,` a vida de um produtor era o que poderíamos hoje considerar muito confortável. 
Podemos imaginar sua rotina como algo assim: os camponeses traziam seus tecidos, 
freqüentemente feitos (no caso do linho) total ou parcialmente com matéria prima 
produzida por eles mesmos, para a cidade onde morava o produtor, e depois de cuidadosa 
avaliação da qualidade, muitas vezes oficial, recebiam o preço habitual pela mercadoria. Os 
clientes do produtor para mercados de alguma distância eram intermediários, que também 
iam até ele, não atraídos por amostras, mas procurando a tradicional qualidade e 
compravam a mercadoria do seu estoque ou, com antecedência, faziam pedidos que por sua 
vez eram provavelmente repassados aos camponeses. A visita pessoal aos clientes ocorria, 
se tanto, apenas a longos intervalos; a correspondência era suficiente, e por meio disso a 
remessa de amostras lentamente ganhou terreno. O número de horas gastas no negócio era 
muito modesto, talvez cinco ou seis por dia, e por vezes bem menos; maior durante a 
estação, quando houvesse. Os ganhos eram moderados; o suficiente para levar uma vida 
respeitável e, em tempos favoráveis, economizar um pouco. No geral, o relacionamento 
entre competidores era relativamente bom, com amplo grau de concordância quanto aos 
fundamentos do negócio. Longas visitas diárias à taverna, muitas vezes com fartura de 
bebida, e um círculo congenial de amigos tornavam a vida confortável e prazerosa. 
A forma de organização era, em todos os aspectos, capitalista; as atividades do 
empreendedor tinham um caráter puramente comercial; o uso do capital investido no 
negócio era indispensável, e finalmente, o aspecto objetivo