Max Weber - Ética protestante e o espírito do capitalismo
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Max Weber - Ética protestante e o espírito do capitalismo


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do desenvolvimento capitalista da Holanda. Gothein$ qualifica corretamente a 
diáspora calvinista como a semente da economia capitalista. Mesmo em tais casos poderia 
se considerar como fator decisivo a superioridade das culturas econômicas francesa e 
holandesa de onde se originaram tais comunidades, ou talvez a imensa influência desses na 
quebra das relações tradicionais. Mas a situação na França, como sabemos pela luta de 
Colbert, era a mesma até o século XVII. Mesmo a Áustria, para não citar outros países, 
importava diretamente artífices protestantes. 
Mas nem todas as ramificações protestantes parecem ter tido a mesma poderosa influência 
nesse sentido. A do Calvinismo, mesmo na Alemanha, parece ter sido das mais fortes, e a fé 
reformada\u201d parece ter promovido o desenvolvimento do espírito do capitalismo no 
Wupperthal como em outro lugares. Muito mais que o Luteranismo, parecem prová-lo 
comparações gerais e particulares, especialmente no Wupperthal. Buckle e, entre os poetas 
ingleses, Keats, enfatizaram essa mesma relação com a Escócia. Ainda mais notável, e que 
deve ser só mencionada, é a ligação entre um modo de vida religioso e o mais intenso 
desenvolvimento da acuidade comercial entre aquelas seitas cujo desapego do mundo é tão 
proverbial quanto sua riqueza, especialmente os Quaker e menonitas. O papel que os 
primeiros desempenharam na Inglaterra e na América do Norte, coube aos últimos na 
Alemanha e na Holanda. 
Os menonitas foram tolerados por Frederico Guilherme I, na Prussi a Oriental por tê- los 
como indispensáveis para a indústria, a despeito de sua absoluta recusa de prestar serviço 
militar; e esse é um dos numerosos e conhecidos fatos que, considerando o caráter daquele 
monarca, torna se dos mais significativos. Por fim, essa combinação de intensa 
religiosidade com igualmente forte desenvolvimento da acuidade comercial, característica 
comum aos Pietistas, é um fato amplamente conhecido. 
É desnecessário acumular mais exemplos nesta discussão meramente introdutória; esses 
poucos já deixam claro um ponto: que o espírito de intenso trabalho, de progresso, ou como 
se queira chamá-lo e cujo despertar se esteja propenso a atribuir ao Protestantismo, não 
deve ser entendido, como é a tendência, como uma alegria de viver ou por qualquer outro 
sentido ligado ao Iluminismo. O velho Protestantismo de Lutero, Calvino, Knox e Voet 
tinha bem pouco a ver com o que é hoje chamado de progresso. 
Aquele era abertamente hostil a aspectos inteiros da vida moderna, que hoje não são mais 
contestados nem pelos religiosos mais ferrenhos. Se quisermos encontrar uma relação 
interna entre certas expressões do velho espírito protestante e a cultura capitalista moderna, 
A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo 
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deveremos tentar encontrá- la, bem ou mal, não na alegria de viver mais ou menos 
materialista, ou ao menos anti-ascética, mas nas suas características puramente religiosas. 
Mostesquieu (Esprit des Lois, Livro XX, cap, 7) diz dos ingleses que \u201cforam, de todos os 
povos, os que mais progrediram em três coisa importantes: na religião, no comércio e na 
liberdade\u201d. Não seria possível que sua superioridade comercial e sua adaptação às 
instituições políticas liberais tivessem, de algum modo, relação com a religiosidade que 
Mostesquieu lhes atribui? 
Ocorre nos um grande número de relações possíveis, vagamente percebidas, quando 
colocamos a questão nesses termos. Será agora nossa tarefa formular com a maior clareza 
possível aquilo que percebemos confusamente, considerando a infindável diversidade de 
todo o material histórico. Mas para chegar a isso, é necessário deixarmos de lado os 
conceitos vagos e gerais com os quais lidamos até aqui, e tentar penetrar nas características 
peculiares e nas diferenças entre esses grandes mundos do pensamento religioso que 
existiram historicamente nos vários ramos do Cristianismo. Contudo, antes de 
continuarmos, se fazem necessárias algumas observações, primeiro quanto às 
peculiaridades do fenômeno do qual buscamos uma explicação histórica, e depois quanto 
ao sentido em que tal explicação é possível dentro dos limites dessas investigações. 
Max Weber 
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II 
O espírito do capitalismo 
 
 
No título deste estudo usamos a frase, algo pretensiosa, o espírito do capitalismo. O que se 
entende por isso? A tentativa de dar qualquer definição para isso implica em certas 
dificuldades, inerentes à natureza deste tipo de investigação. 
Se puder ser encontrado algo a que se possa aplicar esse termo, com algum significado 
compreensível, só poderá ser uma individualidade histórica, isto é, um complexo de 
elementos associados na realidade histórica que nós aglutinamos em um todo conceitual, do 
ponto de vista de seu significado cultural. 
Tal conceituação histórica, contudo, uma vez que seu conteúdo se refere a um fenômeno 
significativo por sua individualidade única, não pode ser definida pela fórmula genus 
proximum, differentia specifica, mas deve ser montada gradualmente de suas partes 
individuais, tomadas da realidade histórica que a constituem. Por isso, o conceito final e 
definitivo não poderá ser encontrado no início, mas aparecerá no fim da investigação. Em 
outras palavras, devemos trabalhar, ao longo da discussão, para o seu principal resultado, 
ou seja, a melhor formulação conceitual do que se entende aqui por espírito do capitalismo, 
isto é, a melhor do ponto de vista que nos interessa aqui. Esse ponto de vista (do qual 
falaremos adiante) não é, de mais a mais, o único possível a partir do qual se podem 
analisar os fenômenos históricos que investigamos. Outros pontos de vista produziriam, 
para esse como para qualquer outro fenômeno histórico, outras características essenciais. 
Como resultado disso, não é necessário compreender como espírito do capitalismo somente 
aquilo que viria a significar para nós, para os propósitos da nossa análise. 
Esse é um resultado necessário da natureza dos conceitos históricos que tentam, para suas 
finalidades metodológicas, apanhar a realidade histórica não em uma forma abstrata e geral, 
mas em concretos conjuntos genéticos de relações, inevitavelmente de caráter individual, e 
especificamente únicos. 
Por isso, se tentarmos determinar o objeto, a análise e explicação histórica tentadas não 
podem ser feitas na forma de definição conceitual, mas, ao menos no início, como uma 
descrição provisória do que entendemos aqui por espírito do capitalismo. Tal descrição é 
entretanto indispensável para uma compreensão clara do objetivo da investigação. Com 
essa finalidade, remetemo-nos a um documento desse espírito, que contém, em uma pureza 
quase clássica, aquilo que buscamos \u2013 com a vantagem de ser ao mesmo tempo livre de 
qualquer relação direta com a religião, sendo pois, para os nossos propósitos, livre de 
preconceitos. 
A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo 
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\u201cLembre-se que o tempo é dinheiro. Para aquele que pode ganhar dez shillings por dia pelo 
seu trabalho e vai passear ou fica ocioso metade do dia, apesar de não gastar mais que seis 
pence em sua vadiagem ou diversão, não deve ser computada apenas essa despesa; ele 
gastou, ou melhor, jogou fora. mais cinco shillings. 
\u201cLembre-se que o crédito é dinheiro. Se um homem deixa seu dinheiro em minhas mãos 
por mais tempo que o devido, está me dando os juros, ou tudo o que eu possa fazer com ele 
durante esse tempo. Isto atinge somas consideráveis quando alguém goza de bom e amplo 
crédito, e faz dele bom uso. \u201cLembre-se que o dinheiro é de natureza prolífica e geradora. 
O dinheiro pode gerar dinheiro, e seu produto gerar mais, e assim por diante. Cinco 
shillings circulando são seis; circulando de novo