CBM_2009
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DisciplinaPropedêutica Clínica178 materiais1.754 seguidores
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gripe, resfriado, sinusite e 
pneumonia eram prevalentes. Leigos ou não, 
quantos ainda hoje acreditam que uma exposição 
à chuva ou ao sereno pode levar a um resfriado e, 
em conseqüência, à coriza: eliminação do humor 
frio excessivo, a ser combatido com agasalhos e 
bebidas e ambientes quentes? 
Mesmo assim, no tratado Ares, Águas e 
Lugares, e referindo-se a locais pantanosos, o 
autor hipocrático comenta sobre a prevalência de 
febres quartãs neles, e ressalta a ocorrência de 
esplenomegalia na população - uma das primeiras 
referências conhecidas à malária e a um de seus 
sinais indicativos: uma estela funerária 
descoberta em Atenas (Figura 2) mostra um 
médico a palpar o abdômen de uma criança. Uma 
passagem famosa de Prognóstico diz: \u201cnariz 
agudo, olhos fundos, têmporas encovadas [...] 
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saibam que isto é um sinal de morte\u201d - a clássica 
fácies hipocrática. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 2: Estela funerária de Jasão, médico 
ateniense (Século II DC). The British Museum. 
Londres. 
 
O exame físico, portanto, não era completamente 
desconhecido, ou inteiramente desvalorizado na 
medicina grega, ainda que a temperatura fosse 
obviamente avaliada apenas pelo toque, e a 
palpação do pulso não viesse a ser praticada senão 
depois do ano 320 AC. A sucussão hipocrática, 
manobra na qual o tronco do paciente é sacudido 
para que se ouça o chacoalhar de líquido no seu 
interior, em casos de hidropneumotórax, 
demonstra que também o tórax era examinado. 
Na verdade, a medicina hipocrática 
inaugura a observação clínica, já que todos e 
quaisquer detalhes que pudessem ser captados 
pelos cinco sentidos do médico seriam 
importantes para o prognóstico a ser feito e a 
terapêutica a ser instituída para o paciente, ainda 
que uma correlação anatômica do achado do 
exame não fosse possível, necessária, ou mesmo 
desejável. 
Uma mudança conceitual começa a surgir 
pouco depois do período hipocrático (430-330 
AC), quando o centro da civilização grega passa a 
se localizar em Alexandria, sob o reinado de 
Ptolomeu I (323-282 AC), quando é fundada a 
famosa Biblioteca. Se a civilização grega não 
permitia a mutilação de cadáveres, os egípcios 
não se furtavam a isto, com suas práticas de 
mumificação. Seja como for, os gregos (ainda que 
não etnicamente gregos, os dominadores do Egito 
o eram, linguística e culturalmente) não viram 
problemas em estudar anatomia em corpos 
egípcios ou judeus (as três etnias eram mantidas 
segregadas), e a medicina de Alexandria tornou-
se famosa, não menos por seu desenvolvimento 
em anatomia e fisiologia, assim permanecendo 
por vários séculos. 
Seis séculos após Hipócrates surge Galeno 
(131-197 ou 216 DC), cujos conceitos médicos 
viriam a dominar o mundo por mil e quinhentos 
anos. Em Coimbra, por exemplo, os Estatutos de 
1559 ordenavam que na cadeira de prima - a mais 
importante - fossem lidos os livros de Galeno. 
Esses conceitos mantinham as noções humorais 
dos gregos antigos (Figura 3), acrescidas dos 
conhecimentos anatômicos obtidos por Herófilo 
de Calcedônia (335-260 AC), que identificou os 
nervos cranianos, distinguiu nervos de vasos 
sanguíneos e deu nome ao duodeno, e por 
Erasístrato de Ceos (330-255 AC), que descreveu 
as funções das válvulas cardíacas e nomeou como 
traquéia o canal que ligava a boca aos pulmões, 
diferenciando-o das artérias. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 3: Esquema de correspondência dos quatro 
humores com os elementos, com suas 
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características, com as estações do ano e com os 
tipos correspondentes de temperamento. 
Bernardes de Oliveira. 
A medicina galênica manteve 
continuidade com a tradição hipocrática, e 
inaugurou um ethos profissional racionalista, 
dedutivo e filosófico, com primazia absoluta da 
fisiopatologia, na qual se buscava apoio para as 
intervenções terapêuticas: portanto, ainda não no 
diagnóstico de uma doença, mas de um 
desequilíbrio. Galeno dá grande importância ao 
exame do pulso, mas partindo de uma fisiologia 
errônea (pois acreditava que as artérias elas 
mesmas produziam a pulsação), e procurando 
obter informações sobre o desequilíbrio humoral 
a partir de dados puramente qualitativos: havia 
nove variedades simples e vinte e sete compostas 
de pulso. A palpação do abdômen é praticada, e 
os excretas dos pacientes eram inspecionados, 
cheirados e, em alguns casos, provados. Assim, 
um suor amargo denotaria um excesso de bile, 
por exemplo. E, embora Galeno a desprezasse, a 
astrologia começava a ter papel crescente na 
prática médica, influenciando conceitos de 
diagnóstico, prognóstico e etiologia (Figura 4). 
A Idade Média corresponde na Europa a 
um progressivo aumento da ignorância e da 
incultura. O conhecimento escolástico limita-se 
praticamente às instituições religiosas católicas, 
com todos os excessos, desvios e vieses que isto 
inevitavelmente acarretou. A visão da doença 
como castigo celestial leva por um lado à idéia de 
que a cura deverá ser obtida pela intercessão dos 
santos e intervenção de Deus (donde jejuns, 
abstinências e vigílias; contra epidemias, 
expiações coletivas: missas, novenas e procissões). 
Pelo outro lado está a noção de que a 
interferência humana (leia-se: médica) no 
desígnio divino é indevida. Entretanto, estas 
idéias não eram hegemônicas, e a Igreja jamais se 
pronunciou doutrinariamente contra a medicina 
laica. Em consequência, nos conventos e 
mosteiros continua-se a estudar e, 
principalmente, a copiar os livros de autores 
clássicos, mas como não decorre disto uma 
renovação de conceitos, a vibrante obra de 
Galeno é progressivamente engessada, na medida 
em que as suas noções e idéias transformam-se 
em dogmas. 
 
Figura 4: Mapa astral do vírus influenza 
pandêmico H1N1, que teria sido formado em 27 
de novembro de 2008. Medical Astrology 
http://medicalastrologybyeileennauman.blogspot
.com/2009/04/medical-astrology-looks-at-swine-
flu.html. 
 
Permanece a dificuldade em distinguir 
entre sintoma e doença, e o prognóstico continua 
importante. O diagnóstico consiste basicamente 
na aplicação do conceito de desequilíbrio dos 
humores para explicar e interpretar as 
manifestações clínicas. A astrologia assume papel 
de extrema importância, mesmo que combatida 
pela Igreja, e a uroscopia é o principal método de 
diagnóstico físico, utilizando-se para isto 
elaborados esquemas (Figura 5), nos quais os 
aspectos físicos de cor, odor, presença e aspecto 
de um sedimento permitem o diagnóstico, 
mesmo na ausência do doente. Em função disto, 
o urinol é o símbolo profissional do médico, e 
continuará a sê-lo por vários séculos (Figura 6). 
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Figura 5: Carta de uroscopia. Em Epiphanie 
medicorum, de Ulrich Pinder (1506). Library of 
Congress. Washington. 
 
Figura 6: O Médico de Aldeia, por David Teniers 
o Moço (1610-1690). Musées Royaux des Beaux 
Arts de Belgique. Bruxelas. 
 
É importante assinalar aqui o surgimento 
no Século XII (a Pequena Renascença) de 
universidades em Bolonha (1088), Paris (1150), 
Montpellier (1220) e Pádua (1222), para ficarmos 
naquelas onde a medicina teve especial vigor. 
Inicialmente eclesiásticas (pois ligadas a uma 
catedral), estas instituições destinavam-se ao 
ensino das Artes, do Direito, da Teologia e da 
Medicina. E, um pouco antes (1080) surgia a 
famosa Schola Medica Salernitana, em Salerno. 
A Idade Média estende-se da queda do Império 
Romano Ocidental (476) à conquista de 
Constantinopla pelos otomanos (1453). Neste 
quadro de estagnação intelectual na Europa, no 
entanto, a ciência médica conheceu progressos 
nos territórios dominados pelo Islã a partir de 
meados do Século VII, de Bagdá a Sevilha,