CBM_2009
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feita, como 
premissa para identificação do mal presente no 
paciente. Era um médico prático, sem maior 
interessse por divagações teóricas. Ao dar grande 
importância à classificação das doenças, ele abre 
o caminho para a medicina nosológica, que 
surgirá um século depois. 
Por sua vez, Herman Boerhaave (1668\u2013
1738) é importante pela ênfase que põe no ensino 
à beira do leito, ainda hoje tão aclamado (se 
pouco praticado); e, se a sua divisão das doenças 
em sólidas, orgânicas, circulatórias e mistas nos 
soa estranha, havia já aqui uma base, uma 
preocupação anatomopatológica. Juntos, o inglês 
e o holandês prenunciam as grandes mudanças 
que surgirão mais adiante: certamente não por 
acaso, o final deste século e o início do seguinte 
vêem o surgimento de palavras como clínica (do 
grego kline - \u3ba\u3bb\u3af\u3bd\u3b7 - leito), diagnóstico, e 
nosologia (de nosos - \u3bd\u3cc\u3c3\u3bf\u3c2 - doença). 
Até este momento, o diagnóstico físico se 
limitava à observação do pulso, ao sentir o cheiro 
inconfundível da necrose, à prova da urina 
diabética, à escuta de irregularidades da 
respiração, e à observação da língua e a pele, e 
continua-se a pensar na doença como algo sem 
localização anatômica necessariamente precisa. 
Epistemologicamente, duas publicações são 
fundamentais para o próximo futuro surgimento 
da Medicina Moderna. O primeiro é a publicação 
em 1761 da obra de Giovanni Battista Morgagni 
(1682-1771), De Sedibus et Causis Morborum per 
Anatomen Indagatis, obra seminal da anatomia 
patológica, e resultado de uma extensa série de 
centenas de necrópsias de indivíduos doentes 
(Figura 10). Chame-se atenção para a escolha de 
dois vocábulos no título de sua obra: o local da 
doença, e a sua determinação pela anatomia. Eles 
ressaltam a importância da obra, que encoraja o 
médico a pensar não em termos de desequilíbrio 
de humores (na tradição galênica), mas sim de 
alterações patológicas localizadas, induzindo uma 
nova atitude a respeito de diagnósticos 
específicos, e permitindo o desenvolvimento do 
exame físico. 
O segundo é a publicação por Joseph 
Leopold Auenbrugger (1722-1809) do Invento 
Novo (Inventum Novum ex Percussione Thoracis 
Humani ut Signo Abstrusos Interni Pectoris 
Morbus Detegendi), também em 1761, em que 
ele descreve não apenas o método de percussão 
do tórax, mas correlaciona os achados com 
alterações patológicas observadas em necrópsia, 
bem como sua utilidade em outras condições que 
não o derrame pleural. Seu trabalho, no entanto, 
não teve ressonância, até ser traduzido para o 
francês em 1808 pelo médico de Bonaparte, Jean-
Nicolas Corvisart (1755-1821). Sua importância é 
imensa, pois aparelhou os clínicos com um 
método objetivo de exame físico, varrendo para o 
lado toda a teorização tortuosa dos séculos 
anteriores, e inaugurando a medicina moderna. 
Ainda que relativamente breve, um passo 
intermediário importante foi o desenvolvimento 
da Medicina Nosológica. O Setecentos - o Século 
das Luzes - utiliza o cartesianismo e o 
mecanicismo para propor mundo e universo 
ordenados e organizados. Sydenham havia 
afirmado ser possível reduzir todas as doenças a 
espécies precisas, com os mesmos cuidados e 
resultados que os botânicos empregavam e 
obtinham, sendo esta a primeira vez que a 
Medicina é associada à Biologia. O sueco (e 
graduado em medicina pela universidade 
holandesa de Harderwjik) Carl von Linné (1707\u2013
1778) publica em 1735 um livreto intitulado 
Systema naturae per regna tria naturae, 
secundum classes, ordines, genera, species, cum 
characteribus differentiis, synonymis, locis (ou 
Sistema da natureza através dos três reinos da 
natureza, segundo classes, ordens, gêneros e 
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espécies, com características, diferenças, 
sinônimos e locais - abreviadamente, Systema 
naturae), cuja aumentadíssima 10ª. edição (1758) 
estabelece como definitiva a classificação 
sistemática das espécies, até hoje empregada. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 10: Frontispício da primeira edição do 
livro de Morgagni. 
 
Influenciado por Lineu (com quem se 
correspondeu por toda a vida) e por Boerhaave 
(que conhecia a ambos), o médico e professor de 
Botânica da Faculdade de Montpellier, François 
Boissier de Sauvages de Lacroix (1706-1767) 
publica em Amsterdam (1763) o livro Nosologia 
methodica sistens Morborum classes, genera et 
species, juxta Sydenhami mentem & 
Botanicorum ordinem. (Nosologia metódica, na 
qual as doenças são dispostas em classes, gêneros 
e espécies, segundo o espírito de Sydenham & a 
ordem dos botânicos). Sauvages admite 2.400 
estados mórbidos distintos. Como exemplo, a 
classe das febres é dividida em três ordens: 
contínuas, remitentes e intermitentes, 
respectivamente subdivididas em 5, 3 e 4 
gêneros, e estes em 60, 40 e novamente 60 
espécies. Outros sistemas nosológicos foram 
desenvolvidos, como os do escocês William 
Cullen (1710-1790), que publica sua Synopsis 
nosologiae methodicae em 1785, e o de Philippe 
Pinel (1745-1826), cuja Nosographia 
philosophique aparece em 1798 (Figura 11). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 11: Página inicial do índice do livro La 
Médecine Clinique (1804), de Philippe Pinel. As 
febres seguem a classificação nosológica de Pinel. 
Coleção do autor. 
 
A importância da nosologia deve-se a 
que, para classificar as doenças, é necessário 
individualizá-las, ou seja: é preciso diagnosticá-
las. Ela é fundamental pela tentativa de unificar 
sistemas de referência e de interpretação de 
manifestações mórbidas, e ainda persiste em 
nossos dias quando falamos em formas clínicas de 
uma doença, ou quando, por exemplo, 
classificamos as febres em contínuas, remitentes 
e intermitentes. 
Mas a nosologia durou pouco, ao menos 
por duas razões: a multiplicidade de sistemas 
nosológicos diferentes mostra como era difícil a 
unificação da patologia, quando esta era baseada 
fundamentalmente em sintomas. Entretanto, a 
necessidade de individualizar condições, 
compará-las e agrupá-las, levou ao 
desenvolvimento do diagnóstico, na acepção hoje 
empregada por nós. 
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A outra razão para a transitoriedade dos 
sistemas nosológicos foi o aparecimento da 
medicina anatomoclínica, ainda a que praticamos 
hoje: o Tratado das Membranas (Traité des 
membranes en général et de diverses membranes 
en particulier) de Marie François Xavier Bichat 
(1771-1802) surge em 1799, um ano depois da 
Nosographia de Pinel3. 
A transição para o Século XIX traz 
profundas modificações sociais na Europa e na 
França. A Revolução Francesa (1789) abole as 
ordens religiosas, fecha os hospitais que elas 
administravam e extingue as universidades e 
faculdades de medicina em 1792, prevendo o 
futuro desaparecimento dos médicos. Os ideais e 
anseios de liberdade do Iluminismo e da 
Revolução estabelecem uma dialética entre o que 
Foucault chama de \u201cespaço do patológico\u201d e 
\u201cespaço do social\u201d. A doença é um mal da 
sociedade, que será erradicado quando a velha 
ordem for substituída por outra, nova \u2013 visão 
utópica, da qual fragmentos e reminiscências 
perduram ainda hoje. 
O livro Mémoire sur les hôpitaux de 
Paris (1788) do cirurgião Jacques-René Tenon 
(1724-1816) havia demonstrado serem aqueles 
hospitais estabelecimentos notoriamente 
insalubres; pelas concepções da época, lá as 
doenças sofreriam umas as influências das outras, 
modificando-se \u2013 já que não havia ainda o 
conceito de especificidade patológica. Como 
assim alteradas elas tornar-se-iam intratáveis, o 
local próprio para o doente é a sua família. A 
reação contrária aos hospitais (vistos também 
como instrumentos de repressão aos pobres) é 
consumada na exclamação de Barère, porta-voz 
do Comitê de Salvação Pública da Convenção 
Nacional, em 1794: \u201cpas d\u2019aumônes!