CBM_2009
135 pág.

CBM_2009


DisciplinaPropedêutica Clínica179 materiais1.754 seguidores
Pré-visualização45 páginas
essas coisas, que eu passei, finalmente, a 
me sentir mais em casa. Passei a me apresentar 
aos internados como estudante, parte da equipe 
responsável por eles. Com o tempo, comecei a ser 
reconhecido assim pela própria equipe. Eu me 
sentia muito melhor. Fui entendendo que, para 
chegar a ser médico um dia, eu precisava 
começar já a ser médico, a me portar como 
médico. 
Foi esse período, contando aí as férias que 
vieram antes e as que vieram depois, que mais me 
rendeu frutos, é o período da minha formação, 
até hoje, do qual me lembro com mais saudade. 
Infelizmente, o currículo hoje não 
favorece mais essa postura e, vez por outra, eu 
tinha que abrir mão de uma aula teórica para 
acompanhar meu paciente. Às vezes, o contrário. 
Escolha difícil. E o currículo começou, por assim 
dizer, a me atrapalhar. É claro que todas as 
atividades tinham uma razão de ser, tinham sua 
importância, mas a prática começou a perder 
espaço. E mais essa coisa de \u201crodar\u201d pelas 
enfermarias, que não dá aos alunos a 
oportunidade de se sentirem em casa e de, 
depois, continuarem em casa. Eu tinha passado 
por uma enfermaria durante a disciplina de 
Semiologia, sem encontrar tempo para me 
estabelecer por lá; em Clínica Médica aportei em 
outra, na 8ª, e por conta própria lancei âncora: 
\u201cDaqui não saio!\u201d 
Isso porque eu comecei a perceber que 
toda vez que eu encontro um médico com mais 
de trinta e poucos anos que foi formado na 
minha Escola, ouço a mesma pergunta, logo de 
cara \u2013 \u201cAh, da Escola de Medicina e Cirurgia? De 
que enfermaria você é?\u201d \u2013 e eu respondo que sou 
da 8ª, mas eu faço assim porque assim decidi, e a 
conversa vai fluir bem a partir daí. Mas, a rigor, 
isso não existe mais, porque lá, e por toda parte, 
Cad Bras Med, XXII (1,2,3,4): 1-135 - Jan-Dez, 2009 87
prolifera a idéia de que já não se deve ser mais 
dessa ou daquela enfermaria, que você tem que 
ser de todas; a questão é que, no final, isso faz 
com que você não esteja em nenhuma. O maior 
problema disso é que é justamente a sensação de 
pertencimento a uma equipe que traz consigo o 
saudável sentimento de responsabilidade que 
impulsiona o compromisso com o paciente, e que 
transforma o aprender com ele, de unidirecional, 
em via de mão dupla. Você passa a estar por 
perto boa parte do tempo e, mesmo que aquele 
não seja o seu doente, aquele que você 
acompanha diária e diretamente, em geral está 
claro para todos, para os pacientes e para você 
mesmo, que você é parte daquela equipe. 
Qualquer dúvida que você possa querer tirar, 
inclusive no exame físico, um achado que você se 
interesse por pesquisar, por exemplo, fará parte 
do processo normal da enfermaria, não será vista 
como invasão. Você vai poder fazê-lo com 
tranqüilidade: vai ser bem recebido pelo paciente 
e vai se sentir à vontade consigo mesmo. Sem 
isso, se dá o oposto, como já aconteceu comigo e 
como tantas vezes eu vi acontecer com colegas: 
nós temos que optar entre incomodar o paciente, 
aquele estranho deitado ali, doente, para que nós 
possamos praticar, com a desagradável sensação 
de que só fazemos aumentar o sofrimento dele; 
ou colocar o bem-estar do doente acima do nosso 
aprendizado e sair de perto. Qualquer uma das 
opções vai ser desvantajosa. Ou perde a nossa 
prática, ou perde a nossa compaixão. Eu chego a 
arriscar dizer que eu prefiro perder um 
pouquinho da prática. 
Fica difícil, e tudo isso porque não somos 
mais dessa ou daquela enfermaria. Como isso não 
acontece mais, só quem consegue conquistar um 
espaço pelo próprio braço dentro de uma equipe, 
é capaz de dimensionar a importância desse feito. 
Meu conselho é que todos tentem, porque vale 
muito a pena. 
Foi mais ou menos nessa altura, quando 
eu já tinha passado pelas duas cadeiras em que eu 
tinha mais espaço para praticar Semiologia de 
uma maneira oficial, que a teoria estava 
começando a me tomar mais tempo do que eu 
gostaria, que eu fui ficando saudoso da 
Semiologia, de me demorar na beira do leito, 
colher uma anamnese, conhecer alguém novo. 
Além do mais, eu cultivava a sensação de que 
ainda precisava praticar mais. Resolvi então fazer 
prova e me tornar monitor da cadeira. Comecei a 
entender que aquela sensação, de falta de prática, 
não iria me abandonar tão cedo; mas, ao mesmo 
tempo, vi que poderia aprender a conviver bem 
com ela. E a praticar mais, e achar que ainda não 
estava bem, e praticar um pouco mais, mostrar 
algo a quem sabe ainda menos do que eu, e 
praticar. E a gostar disso, de verdade. 
Foi um momento em que eu estreitei 
ainda mais os meus laços com a Semiologia. Tive 
uma vez mais a sorte de, ainda que por pouco 
tempo, ter no professor responsável pelos 
monitores um daqueles valiosos modelos de 
conduta. Fixei o conceito de ir do paciente para o 
livro, do livro de volta para o paciente, um 
aperfeiçoamento constante, como deve ser para o 
resto da vida. 
Pude, então, fechar um ciclo, rever a 
Semiologia agora de um outro ângulo, passar para 
meus tutorados alguns conceitos que eu li, alguns 
do que eu ouvi, uns poucos que eu pensei. 
Instigá-los a desenvolver, sobretudo, aquelas 
habilidades psicomotoras fundamentais, a boa 
semiotécnica, para que eles tenham em si 
mesmos as bases para que possam continuar a 
aprender depois, para o resto da vida, também. 
Esforçar-me para que eles terminem o semestre 
sabendo como ir do paciente aos dados, 
habilidade fundamental para resolução de 
problemas na Medicina. Depois eles vão poder 
aprender a ir dos dados ao diagnóstico, contando 
com seu raciocínio e com a literatura. 
 
Sans erreur de semiologie, il n'y aurait 
presque jamais d'erreur de diagnostic. 
Cad Bras Med, XXII (1,2,3,4): 1-135 - Jan-Dez, 2009 88
 \u2013 Joseph Babinski (1857-1932) 
 
Afinal, se a Semiologia está boa, o resto 
vem mais fácil! \u201cSem erros de Semiologia, não 
haveria quase nunca erros de diagnóstico\u201d. De 
novo, foi alguém bem mais importante, mais 
inteligente, mais vivido do que eu quem disse, eu 
só copio. 
E aí eu vi outra das belezas da 
Semiologia, a do toque pessoal de cada um. É o 
primeiro contato franco com frases do tipo \u201cFaz 
como você preferir!\u201d, \u201cNão, isso cada médico, 
com o tempo, vai fazer do seu jeito!\u201d etc. É 
quando, pela primeira vez, se dá nitidamente 
personalidade ao método de cada um. Ainda que 
todos colham boas histórias, cada um vai fazer 
isso a seu modo. Mescla-se uma regra geral com 
as idiossincrasias individuais. É aí que cada um 
começa a notar que pode encontrar a si mesmo 
no exercício da sua atividade. Que nem tudo está 
nos livros. Que nem sempre há resposta certa e 
que, portanto, há que se pensar, sempre, e 
questionar continuamente, inclusive aquilo que a 
gente acha que já sabe. É na Semiologia que 
começamos a pensar em Medicina, a decorar 
menos, a pensar mais, sem o quê não há médicos, 
há apenas prescritores, seguidores de protocolos, 
técnicos em Medicina. É na boa Semiologia que 
começam a existir os médicos, aqueles que 
entendem da ciência, mas também da arte. 
 
\ufffd \u3b2\u3af\u3bf\u3c2 \u3b2\u3c1\u3b1\u3c7\ufffd\u3c2, \ufffd \u3b4\ufffd \u3c4\u3ad\u3c7\u3bd\u3b7 \u3bc\u3b1\u3ba\u3c1\ufffd, \ufffd 
\u3b4\ufffd \u3ba\u3b1\u3b9\u3c1\ufffd\u3c2 \ufffd\u3be\ufffd\u3c2. 
 \u2013 Hipócrates (460 a.C. - 377 a.C.) 
 
\u201cA arte é longa, a vida é breve, e a 
oportunidade é fugaz\u201d. 
Então, eu não tenho nada de mais 
importante a dizer, a não ser isto: que a gente se 
apresse em correr para o hospital, para a beira do 
leito, para aprender Medicina de verdade. 
Obrigado. 
 
 
 
Figura 3. Hospital Universitário Gaffrée e Guinle - UNIRIO - Os hospitais se constituem em local 
privilegiado para a aprendizagem e prática da Semiologia 
 
Cad Bras Med, XXII (1,2,3,4): 1-135 - Jan-Dez, 2009 89
REFERÊNCIAS 
1. Ahmed MEK. What is happening to bedside 
clinical teaching? Medical Education. 
2002;36:1185-1188. 
 
2. Branch WT. Supporting the Moral 
Development of Medical Students. Journal of 
General