CBM_2009
135 pág.

CBM_2009


DisciplinaPropedêutica Clínica179 materiais1.754 seguidores
Pré-visualização45 páginas
Internal Medicine. 2000;25:503-508. 
 
3. Cutler P. Resolução de problemas em 
medicina: dos dados ao diagnóstico. Tradução 
Maria Eugenia de Oliveira Vianna, Paulo 
Augusto Neves. 2ª ed. São Paulo: Roca; 1991. 
 
4. LaCombe MA. On Bedside Teaching. Annals 
of Internal Medicine. 1997;126:217-220. 
 
5. Porto CC. Iniciação ao Exame Clínico. In: 
Porto CC, autor. Exame Clínico. 1ª ed. Rio de 
Janeiro: Guanabara Koogan S.A.; 1982. p.1-16. 
 
 
Cad Bras Med, XXII (1,2,3,4): 1-135 - Jan-Dez, 2009 90
A SEMIOLOGIA E A ONCOLOGIA: SÍNDROMES 
PARANEOPLÁSICAS 
 
THE SEMEIOLOGY AND ONCOLOGY: PARANEOPLASTIC SYNDROMES 
 
José Carlos do Valle1 
 
 
 
 
RESUMO 
O autor conceitua as Síndromes Paraneoplásicas, denominação cunhada por Boudin em 1962. 
Demonstra sua importância, eventualmente, como primeiro sinal da neoplasia, ou pela simulação de 
doença metastática. Funcionam como marcadores de doenças, podendo por vezes desaparecer com o 
tratamento da doença de base. São dados numerosos exemplos de síndromes paraneoplásicas, com 
elucidativas figuras. Seu destaque na semiologia decorre por apontar para uma neoplasia de base. 
Palavras-chave: Síndromes Paraneoplásicas; Semiologia; Oncologia. 
 
 
ABSTRACT 
The author describes the Paraneoplastic Syndromes, denomination first used by Boudin in 1962. He 
calls to attention its importance as an eventual first signal of a neoplasia or by simulating a metastatic 
disease. They function as disease markers, sometimes disappearing with the treatment of the basal 
disease. Many well illustrated examples of paraneoplastic syndromes are shown. Their proeminence in 
semeiology arise by pointing to a subjacent neoplasia. 
Key words: Paraneoplastic Syndromes; Semeiology; Oncology. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
_______________________________________________________________________________________ 
1 Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica; Livre Docente de Clínica Médica da Universidade Federal do 
Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e Membro Titular da Academia Nacional de Medicina. 
E-mail: jcvalle@uol.com.br. 
Cad Bras Med, XXII (1,2,3,4): 1-135 - Jan-Dez, 2009 91
A denominação \u201cSíndromes 
Paraneoplásicas\u201d foi cunhada em 1962 por 
Boudin e vem sofrendo críticas. Alguns autores 
acreditam que a melhor designação seria de 
\u201cDoenças Associadas ao Câncer\u201d, mas o termo 
paraneoplasia se consagrou. Alguns tratados de 
Oncologia adotam essa terminologia, outros não, 
mas é o da preferência do autor. 
A sua importância se deve às seguintes 
razões: 
\u2022 Podem ser o primeiro sinal da neoplasia; 
\u2022 Eventualmente, simulam doença metastática; 
\u2022 As manifestação metastáticas podem se 
confundir com síndromes paraneoplásicas; 
\u2022 Funcionam como marcadores de doenças. 
Neste sentido, podem representar mau 
prognóstico ou desaparecerem com o tratamento 
da doença maligna; 
\u2022 Na doença avançada seu tratamento pode ser a 
melhor opção. Ou seja, se o câncer não tem cura 
ou controle efetivo. O principal é desconforto, o 
seu tratamento torna-se o principal objetivo. 
 
Qual a etiologia dessas síndromes? 
\u2022 Podem ser oriundas de polipeptídios criados 
pelo próprio neoplasma. Nestas circunstâncias, o 
tumor elabora hormônios\u2013smiles, ou seja, 
substâncias de estrutura química parecida com o 
hormônio ativo que funcionam como tal. Como, 
exemplo: prostaglandinas e proteínas fetais 
(embora inativas como metabólitos são 
excelentes marcadores de doença, como CEA, 
AFP, Gama GT e DHL); 
\u2022 Outra possibilidade é que o tumor desencadeie 
resposta imune do organismo e, através desse 
sistema, principalmente dos linfócitos T e dos 
anticorpos, agem contra o tumor, e no afã de 
controlar a doença, agridem tecidos moles, 
sistema nervoso, músculos, pele e outros 
sistemas; 
\u2022 Bloqueio competitivo da ação do hormônio 
normal por hormônio inativo oriundo do tumor. 
Ou seja, o tumor passa a funcionar como se fosse 
uma glândula autóctone produzindo aquele 
hormônio, que, por sua vez, inibe a produção do 
hormônio fisiológico; 
\u2022 Síntese de enzimas ou produtos anormais; 
\u2022 Causas desconhecidas. 
Fascinantes são as síndromes cutâneas, 
nas quais a semiologia ressalta: o olhar da pele 
induz ao diagnóstico ou a formulação de 
hipóteses. Algumas delas: 
\u2022 Eritrodermia de diversas naturezas (Figura 1 e 
2). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 1. Câncer de reto avançado com intensa eritrodermia perineal 
 
Cad Bras Med, XXII (1,2,3,4): 1-135 - Jan-Dez, 2009 92
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 2. Micose fungóide com eritrodermia associada 
 
\u2022 Dermatomiosite - doença difusa do tecido conectivo - pode ser importante síndrome paraneoplásica 
(Figuras 3, 4, 5 e 6). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 3. Caso de câncer de mama recém-operado com eritema dorso facial e heliotrópio (lesão violácea 
em torno dos olhos), características de dermatomiosite. 
Cad Bras Med, XXII (1,2,3,4): 1-135 - Jan-Dez, 2009 93
ba 
 
Figura 4. Mesmo caso anterior evidenciando a alteração periorbital (a) e após o tratamento com 
prednisona (b) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 5. Linfoma de grandes células e dermatomiosite paraneoplásica. Aspecto típico do fácies com 
acometimento da pele 
 
 
 
 
Cad Bras Med, XXII (1,2,3,4): 1-135 - Jan-Dez, 2009 94
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 6. Mesmo caso anterior mostrando as calcificações musculares arciformes agrupadas, comuns na 
dermatomiosite 
 
\u2022 Paniculite de Weber-Christian - lesão de natureza inflamatória no subcutâneo induzida pelo tumor 
(Figura 7). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 7. Paniculite de Weber-Cristian em doente com câncer da papila de Vater 
 
\u2022 Cloasma - semelhante ao da mulher grávida; 
\u2022 Sinal de Leser-Trélat - muito raro. É uma dermatose seborréica de aparecimento súbito (Figura 8); 
 
Cad Bras Med, XXII (1,2,3,4): 1-135 - Jan-Dez, 2009 95
 
 
Figura 8. Sinal de Leser-Trélat. Dermatite seborréica intensa de aparecimento súbito. Homem de 78 anos 
com melanoma metastático e câncer de próstata 
 
\u2022 Doença de Bowen - lesão precursora cutânea 
de carcinoma espinocelular; 
\u2022 Eritroplasia de Queyrat - semelhante ao 
Bowen, mas ocorre nas mucosas; 
\u2022 Prurido. O glioblastoma das crianças e, às 
vezes, alguns tipos de linfomas - como a doença 
de Hodgkin - podem desencadear prurido curioso 
nas narinas; 
\u2022 Ictiosis - como o nome está indicando, lembra 
as escamas do peixe; 
\u2022 Herpes zooster - doença viral infecciosa, mas 
pode sinalizar a existência de um tumor maligno 
e com tendência a acometer os dermátomos 
subjacentes. Exemplificando: se um indivíduo 
tem um hépato-carcinoma, pode surgir herpes 
zooster no hipocôndrio direito. Se em vigência 
de linfoma acometendo fundamentalmente os 
linfonodos pélvicos, ele desenvolve a infecção na 
parede abdominal inferior; 
\u2022 Acantosis nigricans - lesão que parece um 
\u201csujo\u201d e geralmente nas regiões flexoras do corpo: 
axila, nuca, dobras das pernas (Figuras 9 e 10). 
 
 
 
 
 
 
 
 a  b  c 
 
Figura 9. Acantosis nigricans em doente com câncer epidermóide do pulmão (a - nos joelhos; b - pé, c - 
pormenor da lesão) 
 
 
 
 
 
 
Cad Bras Med, XXII (1,2,3,4): 1-135 - Jan-Dez, 2009 96
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 10. Mostra as projeções dermopapilares (acantos) e pigmentação em células da epiderme 
 
 
As síndromes metabólicas são várias: 
\u2022 Febre - em geral, em um doente de câncer, é 
devida a infecção, mas existem casos em que 
cursa sem haver infecção. Exemplo: na doença de 
Hodgkin, nos linfomas não-Hodgkin e outros. O 
subestadiamento dos linfomas em A ou B se faz 
na constatação de febre (B) ou não (A),