CBM_2009
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Med. 2002;166:1338-44. 
 
ASPECTOS ÉTICOS DA SEMIOLOGIA E 
PRÁTICA CLÍNICA 
 
ETHICAL ASPECTS OF SEMEIOLOGY AND CLINICAL PRACTICE 
 
Carlos Francescone1 
 
 
 
 
RESUMO 
O autor adota o conceito de educação como a ação de desenvolver as faculdades psíquicas, intelectuais e 
morais de uma pessoa. Define competência médica como a habilidade daqueles que exercem a profissão 
médica de maneira adequada nas dimensões científicas, técnicas e éticas. Pretende que os alunos 
aprendam a resolver de maneira adequada os dilemas éticos através de uma argumentação moral 
apropriada, dizendo ser este o objetivo do curso que ministra. As turmas não são homogêneas, há alunos 
com boas formações e outros com menos qualidade intelectual. Há alunos que já entram com \u201cmente 
tecnológica\u201d, que pretendem no futuro exercer uma especialidade altamente dependente da tecnologia. 
Talvez a predisposição destes para aprender ética seja menor. Relata sua experiência na Faculdade de 
Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, cuja primeira aula de semiologia 
engloba conteúdos de bioética. No entanto argumenta que a bioética não deve constituir uma disciplina 
isolada dentro do currículo médico. Tem um site próprio onde os alunos podem sempre acessar o 
conteúdo formal e teórico da bioética (www.bioetica.ufrgs.br). 
Palavras-chave: Bioética; Semiologia; Prática Clínica. 
 
 
ABSTRACT 
The author adopts the concept of education as the action to develop the psychological, intellectual and 
moral faculties of one person. Defines medical competence .as the habilities of the physicians to exert 
adequately the profession in the scientific, technical and ethical dimensions. Intend that the students 
learn how to solve in a proper manner the ethical dilemmas, through a suitable moral argumentation, 
telling that this is the main objective of the course that he ministers. The classes are not homogeneous, 
there are students with good formations and other with less intellectual quality. There are students that 
begin the course already with a \u201ctechnological mind\u201d that intend in the future to exert an speciality 
highly dependent of technology. Maybe the predisposition of these to learn ethics is less present. 
Describes his experience at the Medical School of the Catholic University of Rio Grande do Sul, where 
the first lecture of semeiology encompass bioethics contents. Nevertheless argues that bioethics shall not 
constitute a isolate discipline of the medical curriculum. He has a personal site where the students can 
always access the theoretical and formal content of bioethics (www.bioetica.ufrgs.br). 
Key words: Bioethics; Semeiology; Clinical Practice. 
 
 
 
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1 Médico Especialista em Gastroenterologia e Endoscopia Digestiva; Doutor do Programa de Pós-Graduação em Ciências em 
Gastroenterologia pela UFRGS; Professor Adjunto da UFRGS e da PUCRS; Chefe do Serviço de Gastroenterologia do Hospital de 
Clínicas de Porto Alegre-RS. 
E-mail: francisconi@yahoo.com. 
Muito obrigado Prof. Correa Lima. 
Eu acho importante definirmos os termos 
na medida em que vou utilizá-los nesta 
apresentação. 
Em primeiro lugar, como discípulo do 
professor Joaquim Clotet, que foi o primeiro 
professor de bioética no curso de pós-graduação 
no Brasil, sigo seu conceito de Ética. 
Ética é um substantivo, nós não usamos 
ética como qualificativo, no máximo 
adverbializamos a palavra para eticamente 
correto, eticamente incorreto. É um ramo da 
filosofia que estuda moral de maneira formal e 
sistemática. 
O conceito de educação que eu vou 
utilizar nessa minha apresentação, é o da ação do 
desenvolver as faculdades psíquicas, intelectuais, 
morais de uma pessoa. 
Representa o processo de transformação 
dos nossos alunos. Nós recebemos um aluno e nós 
vamos transformá-lo num médico! Nós temos, 
entre vários conteúdos a serem transmitidos, a 
semiologia. Dentro desse processo educativo, nós 
temos que, necessariamente, transmitir 
conhecimentos científicos, tecnológicos e 
conhecimentos éticos. 
Qual é o objetivo da educação médica? 
Certamente: a preparação de médicos 
competentes! 
De maneira muito simples, em um ensaio 
que eu fiz há alguns anos atrás em um periódico 
médico italiano, eu defini, operacionalmente, 
como competência \u201ca habilidade daqueles que 
exercem a profissão médica de maneira adequada 
nas dimensões cientificas, técnicas e éticas\u201d. A 
sociedade não aceita mais que uma pessoa seja 
entendida como competente, somente numa 
dimensão científica, se ela não for, eticamente, 
uma pessoa adequada e se não fizer também bom 
uso da tecnologia, ela tampouco será é uma 
pessoa competente. O médico competente é a 
pessoa que agrega os valores científicos, técnicos 
e éticos da medicina: essa é, a meu juízo, a idéia 
de competência. 
A competência científica começa a ser 
adquirida no primeiro dia da faculdade. Começa 
ali o processo, que é dinâmico e que se estende 
pela vida toda através da educação continuada. 
A competência tecnológica envolve o 
desenvolvimento de habilidades. Começa com 
coisas muito simples: o uso de termômetros, 
estetoscópio, assim por diante. Nós temos que 
ensinar também os limites dos métodos, isso 
progressivamente ao longo do curso, são 
conteúdos que vão se tornando cada vez mais 
importantes. Ao mesmo tempo é transmitida a 
utilização correta dos dispositivos médicos: como 
eles funcionam e como utilizá-los da maneira 
mais adequada possível. 
Competência ética: nós queremos que os 
alunos aprendam a resolver, de maneira 
adequada, os dilemas éticos através de uma 
argumentação moral apropriada. Esse é o 
objetivo do curso. 
Podemos utilizar como referência o 
modelo de David Ausubel, um psicólogo da 
educação, que desenvolveu o seu trabalho 
principalmente a partir dos anos 60. Segundo ele 
a aprendizagem significativa no processo de 
ensino necessita fazer algum sentido para o aluno 
e, nesse processo, a informação deverá interagir e 
ancorar-se nos conceitos relevantes já existentes 
na estrutura intelectual e afetiva do aluno. Penso 
que este referencial teórico de educação continua 
atual. Na medida em que nós tenhamos 
estruturas cognitivas pré-existentes, que são 
nossas âncoras, aonde o novo conhecimento irá 
aportar, chamados de \u201csubsunçores\u201d, na medida 
em apresentamos um material significativo e 
quando nós temos por parte do aprendiz a 
predisposição para aprender, todas as condições 
para aprendizagem significativa estão 
estabelecidas. É aquela aprendizagem que 
produzirá o conhecimento que acompanhará o 
nosso aluno. 
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E aqui nós temos algumas questões que 
merecem uma reflexão. 
Com relação ao conteúdo científico. O 
material científico é significativo para os alunos? 
Às vezes sim, às vezes não! Depende muito do 
aluno, do seu interesse no tópico a ser oferecido, 
depende muito da forma de apresentação do 
material cognitivo e de como os professores se 
envolvem na apresentação desse material. 
Predisposição para aprender, geralmente, 
sim: está presente entre os alunos. Os alunos 
entram na faculdade com muita vontade de 
aprender. Nós vimos isso na ilustração da aula da 
Professora Maria Helena. 
Estrutura cognitiva pré-existente é 
variável. As turmas não são homogêneas: temos 
alunos com boas formações e outros com menos 
qualidade intelectual. 
 
Conteúdo tecnológico, geralmente, é um 
material altamente significativo. É difícil um 
aprendiz que não queira aprender a tecnologia 
que faz parte da