CBM_2009
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CBM_2009


DisciplinaPropedêutica Clínica179 materiais1.755 seguidores
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prática médica. Nós temos até 
que, por vezes, frear um pouco o entusiasmo dos 
nossos alunos com relação a ela. Por outro lado, 
eles não têm nenhuma estrutura cognitiva pré-
existente relacionada à tecnologia médica. E isso 
é natural, pois que após entrar no curso de 
medicina eles irão, dentro da matriz curricular e 
de forma progressiva aprendê-las. 
 
Nós temos um problema com a ética! 
Quanto à significância do significado do material: 
é muito variável. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Depende das circunstâncias que o aluno 
estiver vivendo naquele momento, se ele está 
vivenciando um caso clínico que o esteja 
mobilizando do ponto de vista psicológico. Ela 
pode ser vista de maneira positiva ou pode ser 
vista como uma perda de tempo. 
Predisposição para aprender: é 
extremamente variável. Aquele aprendiz que já 
entra com a \u201cmente tecnológica\u201d, que é ter o 
futuro em uma especialidade altamente 
dependente de tecnologia, talvez a predisposição 
para aprender ética seja menor. Estrutura 
cognitiva pré-existente: a partir do momento que 
o segundo grau acabou com ensino de ética, 
filosofia e humanidades, ela, em termos 
operacionais desapareceu! Nós temos que 
começar, praticamente, do zero com nossos 
alunos. 
A conseqüência disso é que nos 
currículos médicos nós devemos evitar, ao 
máximo, a exposição dos conteúdos éticos na 
forma de aulas teóricas. Com essas variáveis todas 
jogando contra, é melhor que ofereçamos outras 
abordagens pedagógicas aos nossos alunos. 
Relato minha experiência na Faculdade 
de Medicina da Pontifícia Universidade Católica 
do Rio Grande do Sul. A primeira aula do curso 
de semiologia é dada por mim, não como 
gastrenterologista, mas como professor dos 
conteúdos de bioética. Ao longo dos anos eu 
tenho feito, neste momento, uma pergunta para 
os alunos: - Se vocês fossem pacientes, o que 
vocês esperariam do médico que estivesse 
cuidando de vocês? 
 
 
 
 
 
 
 Figura 1 
 
Os senhores observem que nós temos 
profissionalismo, respeito, respeito à vontade do 
paciente, respeito ao paciente como pessoa, como 
valores éticos relevantes que os alunos trazem 
com eles. Claro que também trazem atenção, 
competência, conhecimento, empatia, etc. Mas 
eles já, nesse momento, em que começam com o 
curso de semiologia, eles já trazem bem presentes 
questões éticas de maior importância, como por 
exemplo, a questão do respeito ao próximo. 
Eu vou tentar responder cinco questões: 
1- Deve a bioética ser uma disciplina 
isolada desde o ponto de vista da elaboração de 
uma matriz curricular? 
A minha resposta é não. Por quê? Nós 
vamos ao encontro do pensamento da filósofa 
inglesa, professora Onora O\u2019Neall: - \u201cBioética não 
é uma disciplina, nem mesmo uma nova 
disciplina; eu duvido se ela será mesmo uma 
disciplina. Ela se tornou um campo de encontro 
para numerosas disciplinas, discursos e 
organizações envolvidas com questões levantadas 
por questões éticas, legais e sociais trazidas pelos 
avanços da medicina, ciência e biotecnologia.\u201d 
Na nossa matriz curricular, que já foi 
vista, estão presentes a bioética, a atenção 
integral à saúde e a humanização da assistência, 
como princípios norteadores longitudinais. 
 
 
 
 
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Figura 2 
   
Onde é que nós estamos inseridos? Tudo 
que aparece em vermelho na figura 2 tem algum 
conteúdo de bioética a ser apresentado na forma 
de discussão de casos com os nossos alunos. 
Filosofia e Bioética é o único curso formal em 
termos de transmissão de desses conteúdos. 
Humanismo e cultura religiosa é uma disciplina 
que participa também de maneira significativa na 
nossa matriz curricular. 
Ao longo do curso professores de 
diferentes formações participam desta atividade: 
médicos de várias especialidades, biólogos e 
filósofos inseridos no nosso currículo. Esta matriz 
curricular também segue o projeto pedagógico da 
nossa Universidade, que diz que \u201cO curso de 
Medicina alinha-se à realidade institucional de 
formar um profissional crítico, autônomo, 
comprometido ética e politicamente com 
questões sociais, criativo, com capacidade para 
trabalhar em equipe para promoção da saúde.\u201d 
 
Como é que nós podemos apresentar 
esses conteúdos éticos? Do ponto de vista 
institucional, ele deve: 
 
1. Ser consensualmente intencional como 
objetivo. A instituição deve se preocupar que isso 
seja um tema relevante para ser colocado na 
matriz curricular; 
 
2. Ser disciplinado em sua abordagem; 
 
3. Reconhecer o pluralismo moral de uma 
sociedade. 
 
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A Pontifícia Universidade Católica é, 
evidentemente católica e é pontifícia, mas ela 
como universidade estimula o desenvolvimento 
de um pensamento plural da moral de nossa 
sociedade. Jamais a discussão de temas polêmicos 
como aborto e eutanásia deixaram de ser 
discutidos pelo fato de trabalharmos em um 
hospital universitário de uma universidade 
católica. 
Por outro lado a apresentação de 
conteúdos éticos é insuficiente se: 
1. Se nós somente discutirmos exemplos: 
se só é apresentado um problema e não se entra 
no mérito de todas questões de vida real do 
paciente, a discussão pode se tornar artificial; 
2. Se eu somente clarifico os valores que 
estão em jogo, mas não entro do mérito da 
discussão dos valores, eu deixo em aberto a 
argumentação que os suportam ; 
3. Preceptores se limitam a uma posição 
\u201ccientífica\u201d. Eles têm o conhecimento, ficam 
discutindo sem reconhecer os desdobramentos 
morais das decisões que estão implícitas naqueles 
casos. 
Como é que nós podemos apresentar 
esses conteúdos éticos? 
1. Em primeiro lugar, solicitar aos nossos 
alunos que descrevam as suas experiências 
morais. Que eles tragam para nós o que eles estão 
pensando, do ponto de vista moral, com relação a 
aquele paciente, àquela situação; 
2. Nós devemos deixar espaço para que 
eles apresentem de maneira livre todas as 
suposições morais, porque isso é o que eles 
trazem na sua bagagem de vida, de cultura, de 
educação, dos seus lares; 
3. Devemos considerar sempre múltiplas 
opções. Evitar ao máximo aquelas situações que 
aparecem muito nos livros, como exemplos 
dramáticos, sim ou não, preto ou branco. Na 
medicina nós temos, geralmente, muitas 
alternativas para a tomada de decisão com 
relação aos problemas que surgem; 
4. Nós queremos que os nossos alunos 
justifiquem as suas opções. Por que ele acha que 
tal caminho está certo? Se o professor acha que 
um determinado caminho está errado, temos que 
orientar o aluno com uma argumentação que dê 
apoio à nossa posição possibilitando que o aluno 
reorganize o seu raciocínio. 
5. Reconhecer os eventos morais das 
decisões médicas. Não é só o caso difícil que 
envolve questão ética, às vezes, uma prescrição 
de um bloqueador de bomba de prótons num 
ambulatório se torna um problema ético, porque 
o paciente não terá dinheiro para comprá-lo e 
tem dificuldades de acesso ao sistema de saúde. É 
uma simples esofagite, não é problema de vida ou 
morte, respirador, CTI, mas, para o paciente se 
trata de algo importante que impacta 
diretamente a sua qualidade de vida. Questões 
muito simples na nossa prática podem trazer 
dentro de si questões éticas; 
6. Oferecer material de leitura e avaliar a 
aquisição de conteúdos teóricos (provas?, 
monografias?, discussão fundamentada de casos 
clínicos com dilemas morais?). Nós temos o nosso 
site: www.bioetica.ufrgs.br que está sempre à 
disposição dos alunos para acessar esse conteúdo 
teórico e formal da bioética. 
Quais os obstáculos para o ensino da 
ética? 
1- Professores, por exemplo, com a 
característica psicológica do absolutismo moral.