OK_DPOC estável
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DPOC: doença estável 
 
Autor(es) 
Júlio César Abreu de Oliveira1 
José Roberto Jardim2 
Erich Vidal Carvalho3 
Nov-2009 
 
1 - Qual a definição de DPOC? 
Doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) é uma doença evitável e tratável, com alguns 
efeitos extrapulmonares importantes que podem contribuir para o agravamento em alguns 
pacientes. Seu componente pulmonar é caracterizado pela limitação do fluxo aéreo que não é 
totalmente reversível. A limitação do fluxo aéreo geralmente é progressiva e associada a uma 
resposta inflamatória anormal do pulmão a partículas ou gases nocivos. Esta definição foi 
inicialmente apresentada em 2001 pelo GOLD (Global Initiative for Obstructive Lung Disease) e 
revista em 2008. 
Essa definição, como pode ser visto, não faz referência aos termos bronquite crônica e 
enfisema, frequentemente colocados em outras definições de DPOC. O termo bronquite 
crônica descreve características clínicas da doença, enquanto enfisema descreve 
características estruturais da doença. Bronquite crônica e enfisema pulmonar se apresentam 
em graus variados em diferentes pacientes, não definindo a doença com relação ao seu 
aspecto mais importante, aquele que traz o maior impacto na morbidade e na mortalidade, que 
é a obstrução do fluxo aéreo. Daí a exclusão destes termos nessa nova definição. 
2 - Como se pode definir a DPOC do ponto de vista clínico? 
Do ponto de vista clínico podemos usar uma definição de trabalho de DPOC como sendo uma 
condição pulmonar crônica, caracterizada pela presença de tosse produtiva e ou dispnéia aos 
esforços, geralmente progressiva, determinada na maioria das vezes pela exposição à fumaça 
do cigarro ou, eventualmente, a outras substâncias inaladas. 
No início da doença, os sintomas não são constantes e são geralmente de baixa intensidade, 
mas intensificação dos mesmos pode ocorrer em intervalos variáveis, principalmente nos 
meses frios e em casos de infecções respiratórias, caracterizando as exacerbações. Com o 
progredir da doença os sintomas ficam mais intensos e as exacerbações, mais comuns. 
3 - O que é enfisema pulmonar? 
O enfisema é considerado hoje como uma das anormalidades anátomo-patológicas associadas 
à DPOC. O enfisema é definido anatomicamente como um alargamento anormal, permanente, 
dos espaços aéreos distais ao bronquíolo terminal, acompanhado de destruição de suas 
paredes, sem fibrose óbvia. 
Em termos fisiopatológicos, a inflamação existente na DPOC, juntamente com participação do 
estresse oxidativo e do desequilíbrio entre proteases e antiproteases, leva à destruição da 
parede alveolar e consequente perda dos pontos de fixação das vias aéreas terminais aos 
alvéolos, com colapso expiratório dos mesmos, limitação do fluxo aéreo e hiperinsuflação 
pulmonar. 
Do ponto de vista clínico é comum associar-se erroneamente o enfisema à dispnéia da DPOC, 
embora essa seja resultado da combinação de enfisema e bronquiolite obstrutiva. 
 
1
 Chefe do Serviço de Pneumologia e da UTI do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de 
Fora; 
Doutor em Pneumologia pela UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; 
Professor Associado da Universidade Federal de Juiz de Fora. 
 
2
 Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Reabilitação da UNIFESP; 
Professor Livre-Docente da UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; 
Doutor em Pneumologia pela UNIFESP - Escola Paulista de Medicina. 
 
3
 Pneumologista do Serviço de Pneumologia do Hospital Universitário da UFJF; 
Especialista em Pneumologia, titulado pela Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. 
 
 
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4 - O que é bronquite crônica? 
Enquanto o enfisema é definido primariamente em termos anatômicos, a bronquite crônica é 
definida clinicamente, estando associada à presença de expectoração. Classicamente a 
bronquite crônica é definida pela presença de expectoração por tempo prolongado, citado 
como pelo menos três meses ao ano, em dois anos sucessivos, estando afastadas outras 
causas capazes de produzir expectoração crônica. Do ponto de vista anátomo-patológico, a 
bronquite crônica está associada a uma hipertrofia das glândulas mucosas e das células 
caliciformes, em vias aéreas centrais. 
As definições mais antigas de DPOC consideram que se não houver obstrução do fluxo aéreo 
associada à bronquite crônica não há DPOC. Isto gera muita confusão em termos conceituais 
e, como vimos, para evitar isso, o GOLD resolveu abolir os termos enfisema e bronquite 
crônica da definição de DPOC. 
5 - Por que os termos "enfisema" e "bronquite crônica" ainda são tão frequentemente 
utilizados? 
O termo DPOC é muito mal entendido, tanto pelos leigos, quanto pelos médicos, daí a sua 
pouca utilização para rotular o paciente. O clínico frequentemente considera que bronquite 
crônica é uma condição menos grave e que enfisema é uma condição mais grave. Em termos 
gerais, os leigos já absorveram essa idéia. Assim, sempre que o médico quer impressionar o 
paciente, no sentido de obter um maior comprometimento do mesmo com o tratamento, usa o 
termo enfisema. Da mesma maneira, quando o médico acha que a doença é menos grave, 
utiliza o termo bronquite. O ideal seria utilizar o termo DPOC e explicar melhor o sentido do 
mesmo para o paciente, ressaltando o caráter de obstrução do fluxo aéreo e suas 
consequências para o paciente. 
6 - Qual o impacto epidemiológico da DPOC? 
No passado, em razão da imprecisão e de variações na definição de DPOC, tornou-se difícil 
quantificar a prevalência, morbidade e mortalidade desta doença. Além disso, as estimativas da 
prevalência da DPOC dependem de quais critérios são utilizados para o diagnóstico. Quando 
se considera apenas o relato do próprio paciente de que tem o diagnóstico médico de DPOC, a 
prevalência é baixa, alguns estudos apontando para menos de 6%. Por outro lado, estudos que 
utilizam metodologia padronizada, incluindo espirometria, estimam que aproximadamente 25% 
dos adultos com idade acima de 40 anos têm algum grau de limitação ao fluxo aéreo. 
Quanto à morbidade, a DPOC é uma doença que tradicionalmente acarreta aumento nas 
hospitalizações, atendimento a serviços de urgência e consultas médicas, principalmente entre 
os pacientes em fases mais avançadas. Estudo europeu mostra que o número de consultas por 
DPOC é maior do que as visitas médicas por asma, pneumonia, câncer de pulmão e 
tuberculose. Nos EUA, em um único ano, a DPOC foi responsável por oito milhões de 
consultas médicas, 1,5 milhões de atendimentos em serviços de emergência e mais de 650 mil 
hospitalizações. No Brasil, mais de 150 mil hospitalizações por DPOC ocorrem anualmente, 
somente no serviço público de saúde. 
Em relação à mortalidade, a OMS (Organização Mundial de Saúde) estima que no ano de 2020 
a DPOC será a terceira causa de morte em todo o mundo. No Brasil, a DPOC é responsável 
por cerca de 30 mil óbitos por ano. 
7 - O que foi o estudo PLATINO? 
Foi um estudo multicêntrico, transversal de base populacional, criado para se avaliar a 
prevalência da DPOC e analisar o impacto desta doença nesta amostra. Foi realizado em cinco 
grandes cidades da América Latina (Projeto Platino - Proyecto Latinoamericano de 
Investigación em Obstrucción Pulmonar): São Paulo, Cidade do México, Montevidéu, Santiago 
e Caracas. O estudo constou de aplicação de questionários e espirometria pré e pós-
broncodilatador em indivíduos com idade acima de 40 anos, vivendo em residências escolhidas 
de forma randômica. Foi utilizada como definição de DPOC a relação VEF1/CVF<0,7 após o 
uso de broncodilatador. A tabela 1 mostra a prevalência da DPOC no estudo PLATINO. 
 
 
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Tabela 1. Prevalência da DPOC no estudo PLATINO, de acordo com o sexo. 
 
São Paulo Santiago Cidade do México Montevidéu Caracas 
Homens 18,0% 
(14,6 - 21,4) 
23,3% 
(19,7 - 27,0) 
11,0% 
(7,6 - 14,4) 
27,1% 
(22,8 - 31,5) 
15,7% 
(12,4 - 19,0) 
Mulheres 14,0%