Sedução na Net
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um 
mundo, onde a capacidade profissional cada vez mais sobrepõe-se a preconceitos e onde o 
espaço para a mulher que se anula profissionalmente em função de um casamento ou dos 
filhos diminui a cada dia. Mesmo porque, em tempos de revolução tecnológica, ela pode 
trabalhar até sem sair de casa. 
 
(01:25:44) G@T@ fala reservadamente com Felipe RJ: Você já fez sexo virtual? 
 
 A pergunta na tela pedia resposta. Ele buscou o controle remoto e abaixou o som da 
TV. Embora a chuva ainda não houvesse cessado completamente, dentro do quarto de 
Felipe a temperatura começou a esquentar. 
 
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Capítulo VI 
 
 Quando abriu a sua caixa postal, Giulia ficou indignada. Há alguns dias, ela pedira 
informações, por e-mail13, a várias agências de viagens. Havia lhe ocorrido a idéia de 
passar uns dias viajando. Mas, acabou desistindo, diante de um novo projeto profissional, 
que exigiria sua presença física em alguns momentos. 
 Contudo, uma das agências que ela consultara, somente agora lhe respondia. Pior 
que a demora, foi o teor da mensagem: 
 
* Assunto : Informações 
Data: Sexta-feira, 28 de abril de 2000 01:00:06 hs 
De: Agência de Viagens 
Para: Giulia 
 
 Recebemos sua mensagem com pedido de informações. Pedimos o favor de 
contactar-nos pelo telefone que consta em nossa home-page. 
 
 Cordialmente, 
 Agência de Viagens 
 
Ela nem terminou de ler a mensagem. Deletou-a, assim como deletou a tal agência 
de seu catálogo de endereços. Aquela, certamente, não era uma empresa adequada ao perfil 
do consumidor da internet. 
Essa era uma das coisas que Giulia não conseguia entender. Como é que empresas, 
buscando acompanhar a inovação que a rede propiciou, pagam para colocar uma home-
page na rede, disponibilizam endereços eletrônicos e não analisam as características do 
consumidor que vai utilizar esses serviços? Como esquecem um conceito tão básico quanto 
conhecer as características do público-alvo ? Imediatismo, com certeza é uma dessas 
características. A velocidade com que as coisas acontecem na rede é muito maior que na 
vida real. Na internet, não precisamos de transporte para pular de um concorrente para 
outro. Não precisamos estacionar o carro ou pegar um táxi, não andamos embaixo de um 
calor de 30º para pesquisar preços ou obter informações sobre um determinado produto. 
Um click do mouse é suficiente para levar-nos para outras ofertas se não achamos o que 
procuramos em um site. 
Ao mesmo tempo, ela via o esforço de outras empresas, buscando adequar-se ao 
perfil do consumidor internauta. Como as opções de compras pela internet crescem na 
proporção em que aumenta o hábito do comércio eletrônico14, ela concluiu que, num futuro 
próximo, a grande maioria das empresas estariam adaptadas à rede. 
 
13 E-mail é o endereço eletrônico, que, tal qual nosso endereço físico, é utilizado para que a mensagem 
chegue, pela internet, na nossa caixa postal. Coloquialmente, usa-se \u201ce-mail\u201dpara designar a mensagem, 
também. 
14 O comércio eletrônico (ou e-commerce) é a atividade comercial que acontece por processos digitais através 
de uma rede. Boa parte das novas transações empresa-empresa e empresa-consumidor está se efetuando pela 
Internet 
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 Sobre isso, lera uma previsão bastante interessante, de Bill Gates15, segundo a qual, 
se os anos 80 privilegiaram a qualidade e os anos 90 a reengenharia, a primeira década do 
século XXI privilegiará a velocidade. Segundo ele, \u201ca questão será com que rapidez a 
natureza dos negócios mudará, quão rápidas serão as transações comerciais e como o 
acesso à informação irá alterar o estilo de vida dos consumidores e sua expectativa em 
relação às empresas\u201d. Ele segue dizendo que, embora estejamos na Era da Informação há 
cerca de trinta anos, muito dessa informação ainda circula em papel. A tecnologia digital, 
ele conclui, pode ser decisiva na medida em que pode criar novos processos para melhorar 
radicalmente o funcionamento das empresas, obter pleno aproveitamento de todas as 
capacidades dos funcionários e dar-lhes velocidade de respostas que irão precisar para 
competir no mundo dos negócios de alta velocidade que está surgindo. 
 
Ela estava entretida em meio à sua correspondência. Vinha conhecendo pessoas pela 
rede e fora dela. Começava, agora, a ampliar e renovar o seu círculo de amizades. Saía mais 
pela noite carioca, divertia-se, enfim. 
Em meio às mensagens, havia uma de Felipe. Eles trocavam e-mails com 
regularidade, mas aquela mensagem, falando de coisas do cotidiano, levou Giulia a tempos 
atrás. Ela, novamente, sentiu saudades dele. Respondeu-lhe, convidando-o para ir conhecer 
sua casa. 
Alguns dias depois, ele foi visitá-la. Não se viam desde a separação. Mas, parecia 
que nada havia mudado. Passaram a noite inteira conversando, falaram de passado, presente 
e futuro. Nada, contudo, era mais importante do que aquele momento alí, em que eram os 
grandes amigos de sempre. 
 Logo perceberam que vinham tendo o mesmo problema. Como alternavam 
programas com os amigos e noites nos chats da rede, eram cobrados por isso. Embora eles 
usassem a internet como uma alternativa e não como um padrão de convívio social, muitos 
achavam que eles substituíam a vida real pela virtual. 
 - Um amigo meu veio me perguntar como é namorar pelo computador, sem sentir o 
toque, o gosto, o perfume da mulher. \u2013 disse Felipe, rindo. 
 
 Ela sorriu. Estava acostumada a ouvir a mesma coisa. 
 - Nossos amigos pensam que a gente abraça o teclado, beija o mouse e transa com 
o monitor. \u2013 ela brincou. 
 
Não que eles ignorassem que existem as pessoas que trocam programas sociais 
pelas horas à frente do computador, construindo um mundo virtual que substitui o real. 
Mas, essas pessoas são exceções. Elas chegam a trocar horas de sono pelas noites em frente 
ao monitor, descuidam-se de sua alimentação, ficam ansiosas quando não podem conectar. 
Exageradas na dose, tornam-se viciadas e precisam de tratamento. Nenhum exagero é 
saudável. 
- Existem psicólogos que dizem que quem se vicia em internet, tem um perfil 
característico, que poderia levá-la a viciar-se em qualquer outra coisa16.\u2013 ela falou, 
enquanto lhe servia mais uma taça de vinho. 
 
15 No livro \u201cA Empresa na Velocidade do Pensamento\u201d- Companhia das Letras -1999 
16 Kimberley Young (psicóloga americana) e Ivan Goldberg (psiquiatra de Nova York) 
 
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O caso deles, contudo, como o da grande maioria dos internautas, era bem outro. 
 - Há outra linha de estudos que conclui que não existe exatamente vício, mas sim 
uma grande curiosidade em torno do que é ainda novidade17. 
 
Eles se enquadravam naquele grupo de internautas que passou horas conectado à 
rede quando ela ainda era novidade. À medida em que foram integrando-a ao seu cotidiano 
e descobrindo os usos possíveis para melhorar a sua qualidade de vida, passaram a a usá-la 
de forma mais equilibrada. 
 Os relacionamentos que eles começavam pela rede, em pouco tempo eram levados 
para a vida real. E nesse primeiro encontro, os sentimentos eram redefinidos de forma 
espontânea. A fantasia, substituída pela realidade, podia gerar o mais puro deslumbramento 
ou uma grande decepção . 
 
 - Sabe o que eu acho engraçado? Se você disser que ficou em casa assistindo 
televisão a noite inteira, ninguém chama você de viciado. \u2013 ela comentou. 
 
 Os amigos de Giulia, grande parte deles ainda distante da rede, não conseguiam 
entender a sua interação com a internet. Muito menos a sua família, cuja faixa etária era 
muito alta. 
 - Pior é que esse não é um problema só meu, Felipe. Enquanto muitos idosos 
descobrem a rede como uma alternativa de lazer, chegando a recuperar o interesse pela 
vida através do contato social que os chats propiciam, a grande maioria resiste à ela. 
Quando a influência desses idosos restringe-se à esfera familiar, o dano não é tão grave. O 
problema é quando eles estão à frente de postos de comando e teimam