Sedução na Net
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sentimento de 
religiosidade. 
 - Porque só quando você fica neutra, com o coração em silêncio, é que você ouve os 
sons do Universo. O sofrimento não nos deixa ouvir o que ele nos diz. Quando você 
silencia e a sua luz brilha, o Universo inunda você de amor. E esse amor lhe dá força para 
você se renovar. 
 
 Ele sempre tinha a palavra certa, a explicação correta. Compreendia o que se 
passava no coração de Giulia e sintetizava em palavras os seus sentimentos muito antes que 
ela pudesse fazê-lo. 
 - Você sabe muita coisa. Tem que buscar aprender mais, crescer, desenvolver esse 
espírito de religiosidade dentro de você. E, então, dividir com as pessoas o que você vai 
descobrindo. Precisa ensinar o que você aprendeu. Essa troca de conhecimentos é que nos 
faz crescer \u2013 ele lhe disse. 
 
 Muito mais tarde, eles ainda estavam teclando. Somente quando o dia clareou no 
Rio de Janeiro é que eles se despediram. Despedida alegre e já cheia de saudades, daquelas 
que celebram, prematuramente, a alegria do futuro reencontro. Na tela de Giulia, no outro 
extremo do mundo, apareceu a última mensagem de Felipe: 
 - Um grande beijo, um lindo desejo de te reencontrar...uma prece sincera pro 
Universo te amparar. Adoro você. 
 
 - E eu amo você \u2013 ela disse, baixinho. Mas, não digitou. 
 Ela desconectou e abriu a janela do seu quarto. Embora fosse quase inverno em 
Nova York, a noite estava estranhamente estrelada, fresca, perfeita. Deitada, olhando 
aquele cenário, teve a profunda certeza de que há alguma coisa muito forte, muito grande 
permeando o Universo. Sabia que em algum momento, quando se tornasse uma pessoa 
mais completa, poderia ter uma visão mais ampla disso. Sabia, sobretudo, que se fosse a 
vontade do Universo, nada e nem ninguém conseguiria separá-la de Felipe. 
 E como adormeceu com a janela aberta, no dia seguinte ela foi acordada pelo sol. 
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 Nem todos os dias, porém, eram alegres para Giulia. Naquela segunda-feira, ela 
acordou triste. Tentava lembrar-se do sonho que tivera, mas não havia nenhuma 
recordação. Por mais que tentasse pensar em algo que a animasse, não conseguia. Não 
havia razão aparente para tamanho desânimo. 
 Ela conectou-se à internet, para verificar as mensagens em sua caixa postal, 
enquanto preparava o café-da-manhã. Cogitava que a sua tristeza, talvez, fosse fruto da sua 
saudade do Brasil. Então, baixou um arquivo MP3 e aumentou o volume das caixas 
acústicas. Àquela hora da manhã, certamente, seus vizinhos nem estariam em casa. Ela leu 
as mensagens, passou pelo canal de jornais e desligou o computador. 
 Não deixaria aquela tristeza apossar-se dela. Quando sentia-se como naquele dia, ela 
simplesmente recolhia-se sozinha, durante algum tempo e refletia. E nessa reflexão, haveria 
de achar um sentido para o que lhe acontecia. Não sofria mais por coisas pequenas. 
Acreditava que existia uma força muito poderosa lhe mostrando o caminho certo. Era 
questão de saber enxergar. 
 
 \u201cAinda que eu falasse a língua dos homens/ e falasse a língua dos anjos/ sem amor 
eu nada seria/ É um não querer, mais que bem-querer/ É um solitário andar por entre a 
gente/...\u201d25 
 
 A voz de Renato Russo preencheu o vazio do apartamento. Acomodou-se em uma 
poltrona da sala e ficou pensativa. Às vezes, sentia uma grande saudade dele, um dos seus 
compositores prediletos. O jeito como ele sintetizava sentimentos e nos falava deles através 
da sua música era mesmo inigualável. \u201cComo podem pessoas como ele, que alegram o 
mundo, que ajudam tantas outras a entender as suas dores e as suas alegrias ir embora tão 
cedo deste mundo? \u201c 
 Quando parava para pensar nisso, Giulia não encontrava uma explicação. Poetas 
como Renato Russo e Cazuza, que viam de forma tão especial o amor e a vida não podiam 
ter nos deixado tão cedo. Um único pensamento a consolava. Imaginava que, talvez, eles 
fossem almas tão evoluídas que rapidamente compreenderam o significado das coisas aqui 
neste plano e Deus os presenteou, levando-os para onde pudessem ter uma visão mais 
ampla e crescer mais ainda. 
 
 \u201cOu, então, Deus os queria perto dele, para animar a festa no céu.\u201d \u2013 ela brincava. 
 
 Nós ficamos aqui, ainda querendo entender a língua dos anjos. E, nesses tempos de 
internet, aprendendo a falar a língua da máquina. 
 
 De repente, ela entendeu o motivo da sua tristeza. Era aniversário da morte de seu 
pai. Fazia algum tempo que ele morrera, mas ela ainda sentia muita falta dele. A sua 
ausência é que a entristecia. Ela não temia a morte. Acreditava tão fortemente que a vida 
aqui na Terra era apenas parte de um longo aprendizado que achava mesmo que devia 
haver uma festa lá do outro lado, quando alguém morria. 
 
 
25 Renato Russo em \u201cMonte Castelo\u201d, citando Luís de Camões (\u201cSoneto II\u201d) 
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 \u201cPapai, com aquela voz linda que ele tinha, deve estar cantando muito por lá.\u201c- ela 
pensava, tentando se alegrar. 
 
 Muito mais tarde, ela ainda estava ouvindo a mesma música. Não saíra de casa 
aquele dia. Dera uma desculpa qualquer e não fora trabalhar. Ligou o computador, em 
busca de seus amigos virtuais. Quem sabe achasse algum, online àquela hora. As amizades 
virtuais têm mesmo características interessantes. Não é preciso marcar hora e nem lugar 
para os encontros. Eles acontecem, na maior parte das vezes, de forma espontânea. Na rede, 
estamos sempre prontos para ouvir nossos amigos, sempre dispostos a compartilhar com 
eles o que eles têm a nos oferecer. Falamos a verdade, se quisermos, ou fugimos da 
realidade e dos nossos problemas, se acharmos conveniente. Os amigos virtuais não 
duvidam, não desconfiam. Tratam a realidade que nós lhes contamos como verdade e 
dividem conosco a nossa fantasia. Assim, são úteis tanto nos momentos em que queremos 
falar sério quanto nos momentos em que queremos simplesmente esquecer os problemas e 
viver, por alguns instantes, em um mundo completamente diferente do real. Naquele 
momento, não havia ninguém online na lista do ICQ de Giulia. . 
 Restavam as salas de bate-papo. Enquanto entrava em uma, ela ainda pensava nas 
amizades virtuais. 
 Concluiu que realmente as pessoas precisam aprender a conviver virtualmente. 
Porque se por um lado o anonimato do computador possibilita uma série de vivências 
interessantes, por outro lado, se a pessoa não souber separar fantasia e realidade, pode vir a 
ter problemas. Ao vestir uma personagem diferente daquilo que é, a pessoa tem que estar 
muito ciente de que aquele momento é passageiro. Pessoas que mentem nas salas de bate-
papo, assumindo a personagem que criam como sendo elas próprias, podem acabar 
seriamente frustradas quando a realidade se impuser e elas tiverem, de novo, que conviver 
com aquilo que as machuca e que elas ocultam no chat. Essas pessoas, que mergulham na 
fantasia para substituir o mundo real, serão as que certamente darão trabalho aos psiquiatras 
quando tiverem que encarar a realidade nua, crua e solitária. Cara a cara, as máscaras são 
mais frágeis e imperfeitas. 
 
 Felipe, naqueles dias, não andava muito disposto a conversar com os amigos 
virtuais. Mantinha-se, na maior parte do tempo, no status \u201cinvisible\u201d26 do ICQ. Pensativo 
demais, preferia outras pessoas, outras idéias, outras conversas, diferentes daquelas de 
sempre. Não que ele desprezasse esses amigos. Mas, aquele momento era de isolamento 
para ele. Queria tranqüilidade para escutar o que o seu coração lhe pedia. Naquele dia, saiu 
com os amigos, mas voltou cedo para casa. Viu quando Giulia conectou-se, mas ficou em 
dúvida se falava com ela. E, indeciso, não se manifestou pelo ICQ. 
 
 A conversa fluiu diante da insistência de Giulia. O Bad Boy, que ela encontrou em 
um chat brasileiro, custava a lhe responder e quando o fazia, suas respostas eram curtas. 
Ela, teimosa, insistia em manter o contato com ele, quando soube que ele morava no Rio de 
Janeiro. Era enorme a saudade que ela sentia das praias cariocas, das paisagens lindas 
daquela cidade.