Sedução na Net
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inquietava e Giulia achou que ele estava acordando. Olhou o 
relógio e achou melhor desconectar-se. No dia seguinte, certamente encontraria o Bad Boy 
no chat., como vinha acontecendo todos os dias, desde que se conheceram. 
 
 No Rio de Janeiro, Felipe desconectou o seu computador também àquela hora. 
Ficou algum tempo pensativo, embora agora estivesse muito mais sereno do que nos 
últimos dias. Então, abaixou o volume do som e escolheu um outro CD. Apagou a luz e 
deitou-se. O sono chegou rápido, com a música tocando ao fundo. 
 
 \u201cWhy worry/ There should be laughter after pain/ There should be sunshine after 
the rain/ There things have always been the same/ So why worry now\u201d32 
 
 
Capítulo XV 
 
 À meia-luz, em seu quarto, Giulia buscou um arquivo MP3 no seu computador. 
Procurou uma música brasileira, para matar as saudades, cada vez maiores, do seu país. 
Mas, a música que agora tocava a remetia a Felipe. Tentava a todo custo esquecer o seu 
amor, porque tinha medo de voltar ao Brasil e encontrá-lo apaixonado por outra mulher. Ela 
percebeu que ele, depois que fora visitá-la, não havia mais falado de sua vida, de suas 
companhias. Ela sequer sabia onde ele ia passar o Ano Novo. 
 
 \u201cMeu amor, juro por Deus/ Que a luz dos olhos meus/ Já não pode esperar/ Quero 
a luz dos olhos teus / Na luz dos olhos meus...\u201d33 
 
 Ultimamente, Giulia vinha dormindo cada vez mais tarde. Quando não estava 
teclando com o Bad Boy, estava refletindo em tudo o que lhe acontecera nos últimos 
tempos. Muitas coisas haviam mudado na sua vida em pouco tempo. Há poucos meses, ela 
vivia em um verdadeiro paraíso, onde reinava absoluta. Contudo, as contradições do seu 
modo de vida acabaram por ruir o seu castelo. Porque, ao mesmo tempo em que ela estava 
aberta a todas as inovações tecnológicas, usufruindo delas, ela mantinha-se travada em um 
modelo de comportamento ultrapassado. Tempos atrás, as pessoas preparavam-se 
arduamente para uma vida futura, se instruindo nos anos de faculdade, buscando alguém 
para acompanhá-las pelo resto da vida, uma vez que as separações não eram bem vistas. 
Quando se formavam, não eram cobradas para aperfeiçoarem-se e dificilmente retomavam 
os estudos. Hoje, elas entendem a necessidade de passar a vida em constante busca e 
aperfeiçoamento, porque as coisas mudam com uma velocidade impressionante. Não 
podemos mais viver em um modelo velho e ultrapassado de relacionamento, enquanto todo 
o resto no mundo muda. 
 Novos desafios se impõem a cada dia. Com a quantidade de informação que se tem 
e a velocidade com que ela circula, o ser humano possui uma grande oportunidade de 
 
32 \u201cWhy Worry\u201d, de Mark Knopler (Dire Straits) 
33 \u201c Pela luz dos olhos teus\u201d, de Vinícius de Moraes 
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tornar-se a cada dia melhor e mais evoluído. Não só no aspecto intelectual. Se por um lado 
a tecnologia incentiva que se formem indivíduos cada vez mais completos, por outro lado 
ela também propicia que nós cresçamos como pessoas. Isso porque, trabalhando a nosso 
favor, ela nos liberta de trabalhos repetitivos e pouco produtivos, para que possamos aplicar 
nossa inteligência e toque humano onde realmente é necessário. Sistemas inteligentes, hoje, 
cuidam de dados rotineiros, enquanto que as pessoas pensam sobre as exceções, as 
estratégias, os lançamentos, as análises mais complexas. 
 Giulia havia, definitivamente, mudado. Ela própria hoje, não mais se adequaria a 
um relacionamento onde houvesse cobranças e restrições à sua liberdade. Por mais que 
viesse a amar alguém outra vez, sabia que evoluíra a tal ponto que exigiria que o outro 
respeitasse integralmente a sua liberdade, mesmo que ela nunca a usasse ao extremo. 
 Pensou em Felipe. Nunca amaria outra pessoa tanto quanto o amava. Mesmo depois 
de tanto tempo separados e dela ter-se envolvido com outra pessoa, o amor que sentia por 
ele continuava com a mesma intensidade. Era como se ele estivesse presente em cada 
momento de sua vida, porque tudo o que ela fazia, fazia melhor por causa dele, como ele 
lhe ensinara. 
 A vida ao lado de Felipe era muito mais colorida, mais alegre. Quando estavam 
juntos, a vida tinha um sabor diferente. Muitas eram as vezes em que Giulia sentia falta da 
sua companhia. Não era saudade daquela que entristece, que faz chorar. Não, ela não 
poderia entristecer-se, porque agora ele era livre e vivia do jeito que queria. Mas, os 
momentos deles voltavam sempre à sua mente e ela sentia vontade de vivê-los outra vez. 
 E havia, também, a atração física que um sentia pelo outro. Ninguém mais mexia 
com ela como Felipe. As noites de amor deles transcendiam o lado físico e beiravam o 
misticismo. Entregavam, um ao outro, corpo, alma e coração. Sentiam a mais pura energia 
fluir de suas almas cada vez que faziam amor. 
 Se pudesse voltar no tempo, ela teria dado a ele toda a liberdade que precisava para 
viver plenamente. Teria incentivado Felipe a ir buscar tudo o que ele desejasse, mesmo que 
ela não estivesse presente em todos os seus desejos. Hoje, ela, acima de tudo, respeitava as 
vontades e o coração de Felipe. Crédula que era de que estamos em um longo aprendizado, 
onde esta vida é apenas uma etapa, ela via nele um companheiro antigo de jornada. 
Precisou que a tecnologia mostrasse a Giulia, através da sua falta de barreiras, que o 
respeito ao próximo é a base de qualquer relação. A tecnologia, colocando todas as 
possibilidades ao nosso alcance, por incrível que pareça, vai nos fazer mais humanos. 
Porque nós vamos ter que ser cada vez melhores para também termos as melhores pessoas 
ao nosso lado. Porque não há dúvidas que haverá, no mundo, os que usarão a tecnologia 
para o mal. 
 Ela cogitou conversar com Felipe quando voltasse para casa. Eles poderiam pensar 
em estabelecer um relacionamento onde até vivessem novamente juntos, mas baseados na 
imensa amizade e confiança que um nutria pelo outro. Poderiam viver na mesma casa, 
podiam ser parceiros na vida e no trabalho e até mesmo ter filhos. Mas, nunca um poderia 
interferir na vida do outro no sentido de coibir. Dessa forma, fariam juntos tudo o que lhes 
desse prazer e preservariam seus momentos de privacidade, sem culpas e sem cobranças. 
Não haveria mais a insegurança da perda. Não se reprimiriam quando quisessem ir em 
busca de algo que o outro não podia lhe dar no momento. Não que isso significasse a 
garantia da felicidade. Lógico que um ou outro poderiam, em algum momento, optar 
novamente por caminhar sozinho. Mas, significava que, enquanto estivessem juntos, 
estariam integralmente ali, porque era exatamente onde queriam estar. 
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 Havia, também, o Bad Boy. Em outra situação, jamais teria deixado as coisas irem 
tão longe sem antes conhecê-lo pessoalmente. Mas, ele a envolveu de tal forma com seu ar 
misterioso que ela nem percebeu quando ele começou a ocupar seus pensamentos. 
Sentindo-se protegida pela distância que os separava e acreditando ser capaz de controlar 
completamente seu coração através da razão, ela não se precaveu. E, na ausência de Felipe, 
ele se parecia com ele e roubava-lhe os pensamentos. . 
Ela nunca imaginou que fosse protagonizar tal situação. Cada vez mais, ouvia 
histórias diferentes de pessoas que se apaixonaram pelo namorado virtual sem nunca tê-lo 
visto. Os finais dessas histórias podiam ser alegres ou tristes. Contudo a verdade é que uma 
nova cultura, nitidamente, se impunha neste final de século. Tempos atrás, ela teria ficado 
preocupada ao perceber que não parava de pensar em uma pessoa que nunca viu. Nem 
mesmo teria coragem de comentar,com quem quer que fosse, que conheceu o seu amor na 
internet. Hoje, felizmente, isso era cada vez mais comum. 
Não era a situação mais cômoda do mundo. Em alguns momentos, ela acreditava 
nas palavras dele e o imaginava tão bonito quanto Felipe. Em outros, achava que ele podia 
estar mentindo. Mas, o envolvimento entre eles chegara a tal ponto, que ela sofreria se ele 
não correspondesse às suas expectativas.