Sedução na Net
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fantasia, um meio de estar presente no mundo, sem estar 
fisicamente alí. Facilmente agradava as mulheres com quem conversava. Seduzia sim, mas 
também conhecia o universo delas. Ensinava o que podia e crescia no contato com outras 
pessoas. Descobria sentimentos, desejos e sonhos, mas raramente deixava que um encontro 
virtual se transformasse em uma aventura real. Isso só acontecia quando alguém lhe parecia 
muito interessante. Invariavelmente, essas pequenas aventuras lhe davam novo ânimo e ele 
voltava para Giulia, mais doce e carinhoso do que nunca, cheio de saudades. 
Seu maior problema vinha sendo exatamente a dimensão de sua vida. Chegara onde 
queria. Tinha tudo o que planejara ter. Começava a sentir que estava renunciando ao 
mundo, como se nada de diferente pudesse mais lhe acontecer: 
- Quem não tem nada, tem um mundo de possibilidades. Quem tem tudo, esgotou 
todas elas. 
. 
Inúmeras vezes ele lhe repetira essa frase. Agora, servia exatamente para o que ele 
estava sentindo. 
Felipe tinha uma visão muito especial da vida, o que lhe permitia calcular riscos e, 
ao mesmo tempo, viver de acordo com a vontade de seu coração. Encontrara um meio 
termo entre o mundo material e o espiritual e o resultado disso era uma constante paz. Não 
que ele nunca sofresse. Tinha seus momentos de tristeza sim, mas sabia superá-los. Desde 
que conhecera Giulia, ele lhe ensinara muito do que aprendera ao longo da vida e de suas 
reflexões. 
Quando começou a ter dúvidas quanto à vida que eles estavam levando, ele 
esperava que ela mostrasse o quanto havia aprendido com ele. Queria abrir seu coração e 
ser compreendido. Não estava certo de que separar-se dela era a melhor solução, mas 
também, não podia continuar sentindo-se preso daquela forma. Quis conversar, imaginando 
que, juntos, poderiam encontrar uma solução que fosse boa para ambos 
A reação dela, contudo, foi inesperada. Ela revoltou-se e não quis ouvir o que ele 
estava sentindo. Ela já tirara as suas conclusões e não abria mão delas. Para ela, tudo era 
simples como uma equação matemática. 
- Você quer que eu vá embora para poder ficar com outra \u2013 acusava. 
- Não, não é isso. Estamos quase no século XXI, precisamos remodelar os 
relacionamentos , ele tentava lhe dizer. 
 
- Sim, é isso \u2013 ela teimava .A vida deles transformou-se em eterna discussão. 
 
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Ela, então, evocava cada uma das pistas que, por mais cuidadoso que Felipe fosse, 
acabava deixando. 
- Seu celular tocou, ontem, a uma da manhã. Eu vi o número no identificador de 
chamada e liguei para ver quem era. Atendeu uma tal de Renata. Aliás, outro dia eu fui 
trocar dinheiro na sua carteira e vi um papelzinho com esse número. Quem é ela? 
 
Quando ele achava que ia ter um pouco de paz, Giulia recomeçava: 
 - De quem é esse número do Rio, que aparece tantas vezes na nossa conta 
telefônica? Sim, você havia guardado na sua pasta para pagá-la, mas eu fui busca-la lá, 
porque achei que vencia hoje. 
 
Felipe estava desistindo. Ela não conseguia entender o que estava tão claro, porque 
enxergava a situação somente a partir de si mesma. Ele não estava interessado em outra 
mulher. Estava interessado em viver do jeito que ele bem entendesse, sem restrições, sem 
dar explicações para ninguém. Ela, com toda aquela vigilância, estava limitando sua 
liberdade. Não que ele não quisesse aquela vida, que não quisesse Giulia. Queria sim. Mas, 
planejara isso para muito, muito mais tarde. Contudo, o encontro deles aconteceu naquele 
momento, quando ele estava perto dos 40 anos e pensava em quanto tempo ainda teria para 
aproveitar a vida integralmente. Grande parte de sua juventude fora gasta construindo um 
futuro onde pudesse ter conforto e tranqüilidade financeira. Quando conquistou seu 
objetivo, olhou para trás e viu o quanto isso lhe custara. Sentia que estava em uma fase de 
transformação. Uma metamorfose, como preferia dizer. Olhava ao redor e via que, nessa 
nova fase, ele já não era o mais jovem. Mas, questionava se não era cedo demais para ter 
feito escolhas definitivas. Se continuasse vivendo daquela maneira, certamente suas 
escolhas seriam cada vez mais irreversíveis. 
- Você não compreende isso, Giulia, porque é muito mais nova, tem muito mais 
tempo pela frente. E eu, lhe dou toda a liberdade. Você não tem vida própria porque não 
quer. 
 
Embora ele não quisesse perdê-la, a vida que havia fora do mundo deles começou a 
parecer atrativa demais para Felipe. Ele sentia-se forçado a fazer uma opção. 
- A vida é feita de trocas, Giulia. Do jeito que estamos vivendo, só eu, que tenho 
minha vida e meus interesses, tenho coisas a acrescentar no nosso relacionamento. 
 
Pela última vez, ele tentou encontrar uma solução para os problemas que vinham 
enfrentando. Se ela fosse capaz de compreendê-lo, de dar-lhe aquilo que ele precisava 
naquele momento, poderiam preservar o relacionamento deles. Resguardariam o que 
haviam construído naqueles anos de convívio e que lhes fazia tão bem: a amizade, a 
confiança mútua, o companheirismo, o amor. Poderiam continuar juntos, seguindo seus 
caminhos lado a lado, mas sem cobranças, sem compromissos, sem prisão. Ela, contudo, 
não entendia o seu anseio por liberdade e nem queria ouvi-lo. Se o fizesse, talvez pudesse 
ter a certeza de que era ela quem ocupava o coração dele. Sentindo-se mais segura, seria 
mais fácil para ela compreender o seu comportamento. 
- Seu problema, Giulia, é que se as coisas não acontecem exatamente iguais ao 
padrão ideal que você tem na sua cabeça, você conclui que elas estão erradas. 
 
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Houve um dia que ela quis saber como era o comportamento de Felipe nos chats. 
Escolheu criteriosamente um nickname que, ela sabia, chamaria a sua atenção. Criou uma 
personagem perfeita, em medidas e opiniões. Frente a frente, cada um em seu computador, 
ela o provocou na sala de bate-papo, para conhecer a vida virtual dele. Preparou-se para 
tudo. Estava disposta a ir até onde não agüentasse mais. 
 
(16:50:00) Loirinha RJ : entra na sala 
(16:58:39) Loirinha fala reservadamente com Felipe RJ: Que lugar do Rio? 
(16:59:01) Felipe RJ fala reservadamente com Loirinha : Parati, princesa, mas tenho um 
apartamento em Copacabana. E vc, é de onde? 
(16:59:15) Loirinha fala reservadamente com Felipe RJ: Lagoa, Rio. Quantos aninhos? 
(17:00:11) Felipe RJ fala reservadamente com Loirinha RJ: Lagoa é legal, já morei aí. 38 e 
vc? 
(17:00:36) Loirinha fala reservadamente com Felipe RJ: 25. 
(17:01:09) Felipe RJ fala reservadamente com Loirinha : É gatinha? 
(17:01:50) Loirinha fala reservadamente com Felipe RJ: Sou. Vc está muito ocupado ou dá 
prá conversar com mais uma? 
(17:02:28) Felipe RJ fala reservadamente com Loirinha: Vc tem prioridade total . Como vc 
é fisicamente? 
(17:03:04)Loirinha fala reservadamente com Felipe RJ: Acredito na 
prioridade....hehehe...E vc, é gatinho? Fale a verdade, hein... 
(17:06:30) Felipe RJ fala reservadamente com Loirinha: Eu sou gato tb. Moreno, 1.80m, 
75Kg, cabelos lisos meio compridos e muito malhado. E vc? 
(17:07:31) Loirinha fala reservadamente com Felipe RJ: Mais baixinha que vc, muito mais 
magrinha que vc, se vc é muito malhado, eu sou malhadinha . Cabelo comprido o seu? 
Como assim? 
 (17:08:35) Felipe RJ fala reservadamente com Loirinha: Não é compridão, mas tb não é 
batido, na nuca. Tem foto? 
 (17:09:04) Loirinha fala reservadamente com Felipe RJ: É liso??????? 
 (17:09:42) Felipe RJ fala reservadamente com Loirinha: Meio liso...ondulado pra liso... 
(17:10:13) Loirinha fala reservadamente com Felipe RJ: Ahhhhh...tem homem que não fica 
bem com cabelo liso... 
(17:10:28) Felipe RJ fala reservadamente com Loirinha: Tô sentindo que tu deve ser uma 
princesinha.Tem tel? A gente podia trocar uma idéia... 
(17:10:51) Loirinha fala reservadamente com Felipe RJ: Calminha, né? Pq a pressa? Vai 
sair do chat? 
(17:11:09) Felipe RJ fala reservadamente com Loirinha: Se vc me conhecer por foto, vai 
ficar apressadinha.. risos 
(17:12:05)Loirinha