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interesse público e justifi ca a restrição de prá-
ticas de comércio.
Para realizar esse objetivo, o legislativo não apenas exi-
giu um rótulo adequado, mas proibiu a venda do produto. 
Proibir, no entanto, é um dos mais drásticos meios ima-
gináveis para proteger o consumidor de confusões e prá-
ticas comerciais enganadoras. O regulador pode prevenir 
essas ameaças ao interesse público de forma efi caz e efi -
ciente pela simples exigência de um rótulo adequado.
No caso em exame, não há justifi cativa aceitável para 
impor uma restrição mais ampla do que seria necessário 
para proteger o consumidor de falsos rótulos. Então, a 
regulação deveria tomar apenas as medidas necessárias 
para a proteção do consumidor. Para alcançar esse fi m, 
seria sufi ciente exigir uma rotulagem adequada.200
Percebemos que, nesse caso, o BVerfG declarou a 
inconstitucionalidade da disposição impugnada a partir do 
seguinte raciocínio: se era claramente possível que as fi na-
lidades da norma fossem alcançadas por um meio menos 
gravoso, o legislador não tem a possibilidade de escolher 
um que implique maior restrição à liberdade dos cidadãos. 
Podemos, então, descrever o critério da necessidade como 
a exigência de que, entre as diversas soluções possíveis \u2014 
de acordo com o critério da adequação \u2014 o Estado tem o 
dever de escolher aquela que traga menor desvantagem 
para os titulares dos direitos atingidos. Como bem obser-
va Canotilho , esse princípio normalmente não coloca em 
questão a necessidade de se adotar alguma medida para 
200. KOMMERS, The Constitutional jurisprudence..., p. 280. 
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a efetivação do interesse público (necessidade absoluta), 
mas a necessidade relativa, ou seja, se era possível adotar 
outro meio efi caz embora menos gravoso. A diferença en-
tre os critérios de adequação e necessidade foi bem defi ni-
da pelo BVerfG quando, em um caso sobre armazenagem 
de petróleo julgado em 1971, afi rmou que:
O meio empregado pelo legislador deve ser adequado e 
necessário para alcançar o objetivo procurado. O meio 
é adequado quando com seu auxílio se pode alcançar o 
resultado desejado; é necessário quando o legislador não 
poderia ter escolhido um outro meio, igualmente efi ciente, 
mas que não limitasse ou limitasse de maneira menos sen-
sível o direito fundamental.201
c) Proporcionalidade em sentido estrito
O terceiro subprincípio é o da justa medida ou da pro-
porcionalidade em sentido estrito. Como exemplo da utili-
zação jurisprudencial desse critério, podemos citar o Caso 
Lebach 202. Lebach participou de um assalto a um quartel 
das forças armadas alemãs, no qual vários dos soldados que 
estavam de guarda foram mortos ou feridos. Por esse crime, 
ele foi condenado a 6 anos de prisão, em um julgamento 
que atraiu bastante a opinião pública. Alguns anos depois, 
às vésperas da sua liberação, uma rede de televisão plane-
jou gravar um documentário baseado no crime. O programa 
usaria a fotografi a de Lebach, seu nome e faria referência a 
sua tendências homossexuais. Sabendo disso, Lebach ten-
tou impedir judicialmente a transmissão do programa, mas 
a decisão do Tribunal de Apelação de Koblenz não lhe foi 
favorável. Recorreu, então, ao Tribunal Constitucional Fe-
201. 30 BVerfGE 292 (1971) apud RESS, George. Der Grundstaz des Verhält-
nismässigkeit in europäischen Rechts-Ordnungen. Heidelberg, 1985, p. 13. Ci-
tado por BONAVIDES, Curso de Direito Constitucional, p. 372.
202. 35 BVerfGE 202 (1973)
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deral que resolveu a questão utilizando os seguintes argu-
mentos:
[Um] programa de televisão sobre a origem, execução e 
investigação de um crime que menciona o nome de um 
criminoso e contém uma representação de suas feições ne-
cessariamente toca a área dos seus direitos fundamentais 
garantidos pelo artigo 2 (1) em conjunção com o artigo 1 (1) 
da Lei Fundamental. Os direitos ao livre desenvolvimento 
da personalidade e da dignidade humana asseguram para 
qualquer pessoa uma esfera autônoma para o desenvolvi-
mento de sua vida privada e proteção da sua individualida-
de. Isso inclui o direito a permanecer sozinho, de preservar 
sua individualidade dentro dessa esfera e de excluir a intru-
são e a inspeção de outros. Isso também engloba o direito 
sobre a própria fi gura e opiniões, especialmente o direito 
de decidir o que fazer com retratos seus. Em princípio, to-
dos têm o direito de determinar até que ponto outros podem 
tornar públicos certos incidentes ou toda a história de sua 
vida. [...]
Na resolução do confl ito [entre a liberdade de imprensa e o 
direito de personalidade], deve-se lembrar que [...] ambas 
as previsões constitucionais são aspectos essenciais da livre 
ordem democrática da Lei Fundamental, nenhum pode pre-
tender precedência em princípio. [...] Em caso de confl ito, 
deve-se harmonizar os valores constitucionais, se possível; 
se isso não puder ser feito, deve-se determinar qual interes-
se cederá frente ao outro, à luz da natureza do caso e suas 
circunstâncias especiais. E ao fazê-lo, devem-se considerar 
ambos os valores constitucionais na sua relação com a dig-
nidade humana, enquanto núcleo do sistema de valores da 
Constituição. Conseqüentemente, a liberdade de imprensa 
pode ter o efeito de restringir as pretensões baseadas no di-
reito de personalidade; no entanto, qualquer dano à \u201cperso-
nalidade\u201d resultante de uma transmissão pública não pode 
ser desproporcional à signifi cação da publicação para a livre 
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comunicação. [...] Deve-se considerar até que ponto o legí-
timo interesse a que serve a transmissão pode ser satisfeito 
sem uma invasão na esfera íntima de outras pessoas. [...] 
Na harmonização de interesses [...] o interesse público em 
receber informações geralmente prevalece quando crimes 
atuais estão sendo noticiados. Se alguém quebra a paz ao 
atacar e ferir outros cidadãos ou os interesses públicos le-
galmente protegidos, ele não deve apenas sofrer a punição 
criminal estabelecida em lei; ele também precisa aceitar, 
por uma questão de princípio, que em uma comunidade que 
adere ao princípio de liberdade de comunicação, o público 
tem interesse em receber informações, através dos canais 
normais, sobre um ato criminoso que ele próprio tenha cau-
sado. 
No entanto, o interesse em receber informações não é ab-
soluto. A importância central do direito de personalidade 
exige não apenas a proteção da íntima e inviolável esfera 
pessoal [do acusado], mas também uma estrita observân-
cia do princípio da proporcionalidade. A invasão da esfera 
pessoal é limitada pela necessidade de satisfazer adequada-
mente o interesse público de receber informações, enquanto 
o mal infl igido ao acusado deve ser proporcional à gravi-
dade da ofensa ou à sua importância para o público. Con-
seqüentemente, não é sempre permitido revelar o nome, 
publicar uma foto ou usar algum meio de identifi car o autor 
[da ofensa]. [...]
De qualquer forma, um programa de televisão sobre um 
grave crime que não é mais justifi cado pelo interesse do 
público em receber informação sobre eventos correntes 
pode não ser retransmitido se ele coloca em perigo a reabi-
litação social do criminoso. O interesse vital do criminoso 
a ser reintegrado à sociedade e o interesse da comunidade 
em reconduzi-lo a sua posição social original devem geral-
mente ter precedência frente ao interesse público em uma 
discussão posterior sobre o crime.203
203. KOMMERS, The Constitutional jurisprudence..., p. 417. 
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Se já é complexa a aplicação desse critério a atos que, 
prima facie, violam direitos fundamentais, a sua aplicação 
a atos normativos apresenta ainda mais difi culdades. Ve-
jamos, por exemplo, o julgamento do Caso das Universi-
dades , no qual se discutiu a possibilidade da participação 
de estudantes e