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autoridade razoável poderia ter chegado a 
ela\u201d27. E o sentido de irrazoabilidade foi defi nido por Lord 
Diplock no caso Tameside como denotando uma \u201ccondu-
ta que nenhuma autoridade sensata, atuando com a devi-
da apreciação de suas responsabilidades, teria decidido 
adotar.\u201d28. 
27. WADE e BRADLEY, Constitutional and administrative law, p. 676. 
28. WADE e BRADLEY, Constitutional and administrative law, p. 676. 
O C o n t r o l e d e R a z o a b i l i d a d e n o d i r e i t o c o m pa r a d o
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A referência à discricionariedade está presente na 
própria defi nição do princípio da razoabilidade em matéria 
administrativa, enunciado por Celso Antônio nos seguin-
tes termos: \u201ca Administração, ao atuar no exercício de dis-
crição, terá de obedecer a critérios aceitáveis do ponto de 
vista racional, em sintonia com o senso normal de pessoas 
equilibradas e respeitosas das fi nalidades que presidiram 
a outorga da competência exercida\u201d29. Um conceito como 
esse não ser aceito sem reservas, especialmente na sua pres-
suposição de que existe e é cognoscível um senso normal 
de pessoas equilibradas. E, tal como Wade e Bradley afi r-
maram sobre o conceito de razoabilidade de Lord Diplock, 
trata-se de uma fórmula que dá margem a interpretações 
confl itantes30. De qualquer forma, a defi nição proposta por 
Bandeira de Mello evidencia que o controle de legitimi-
dade somente pode ter como objeto atos administrativos 
discricionários \u2014 aqueles em que é necessário que o ad-
ministrador faça uma escolha valorativa \u2014 e nunca os atos 
plenamente vinculados.
4. Discricionariedade do legislador 
A transposição do conceito de discricionariedade dos 
atos administrativos para os legislativos é possível, mas são 
necessárias algumas ressalvas. Em primeiro lugar, deve-
mos ressaltar que não existem atos legislativos plenamente 
vinculados. A vinculação relaciona-se com a aplicação de 
normas gerais a casos concretos, atividade que nada tem a 
ver com a função legislativa. Logo, não se pode opor atos 
discricionários a vinculados no âmbito legislativo: todo ato 
legislativo é discricionário, embora a liberdade de confi gu-
29. BANDEIRA DE MELLO, Curso de Direito Administrativo, p. 66.
30. WADE e BRADLEY, Constitutional and administrative law, p. 676.
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ração do legislador possa ser maior ou menor, conforme as 
disposições constitucionais, os imperativos de sistematici-
dade do ordenamento, as tradições de um país, os valores 
dominantes etc. 
A constituição estabelece os parâmetros aos quais a 
legislação deve-se adequar, oferecendo uma orientação que 
se opera em dois planos distintos. No plano formal, é es-
truturado o poder legislativo e feita a divisão de competên-
cias entre os diversos entes federativos. A observância das 
regras de competência e dos procedimentos estabelecidos 
pela constituição \u2014 em especial o processo legislativo \u2014, 
é um requisito formal para a validade dos atos estatais, que 
podemos incluir no campo da vigência. Tais critérios ofe-
recem-nos uma regra de reconhecimento dos atos que são 
prima facie válidos. 
Já as regras constitucionais que criam direitos funcio-
nam de outra forma: estabelecem certas normas que a legis-
lação comum não pode alterar \u2014 ou ao menos não pode su-
primir. Tratam-se de regras que estabelecem limites rígidos 
à liberdade de conformação do legislador. Se a Constituição 
afi rma que ninguém pode \u201cingressar na casa de outrem sem 
consentimento do morador, salvo em caso de fl agrante de-
lito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, 
por determinação judicial\u201d(Art. 5o, XI), o legislador não 
pode estabelecer uma norma que contrarie essa disposição. 
Como os direitos fundamentais expressados por re-
gras estabelecem limites ao conteúdo possível da legisla-
ção, já não podemos falar de uma limitação meramente 
formal. Contudo, eles não funcionam como critérios para o 
controle de legitimidade, pois apenas defi nem o campo de 
vinculação do legislador e a sua aplicação se dá por meio de 
operações dedutivas. Se o Congresso Nacional aprovasse 
uma lei que permitisse que nos casos de crimes hediondos, 
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agentes públicos munidos de mandato judicial poderiam in-
gressar na residência de um suspeito durante a noite, essa 
lei seria inválida por ferir uma regra constitucional. Mesmo 
que houvesse motivos razoáveis e aceitáveis para uma regra 
como essa, a rigidez da norma constitucional não dá ao le-
gislador a liberdade de fazer essa opção valorativa.
Mas, além de direitos fundamentais, a constituição 
estabelece princípios que orientam e limitam os possíveis 
conteúdos da legislação. Os princípios constroem a moldu-
ra dentro da qual os agentes estatais podem operar deter-
minações das normas jurídicas positivas. Nesse sentido, os 
princípios contribuem para a delimitação do espaço em que 
a atividade estatal pode validamente ser exercida. Todavia, 
ao contrário das regras, os princípios têm uma dimensão 
que Dworkin chama de peso: quando dois ou mais princí-
pios incidem sobre a mesma questão, é preciso buscar uma 
solução que não elimine os princípios em jogo, mas que 
harmonize essas diversas orientações. E cada princípio de-
verá ter uma importância para o caso proporcional ao seu 
peso. Nas palavras de Dworkin:
A diferença entre princípios e regras é uma distinção 
lógica. Ambos os conjuntos de standards, dadas certas 
circunstâncias, apontam para decisões particulares so-
bre obrigações jurídicas, mas eles diferem no caráter da 
orientação que eles proporcionam. Regras são aplicáveis 
de uma forma tudo-ou-nada. Se ocorrem os fatos previs-
tos na regra, então essa regra é válida, caso em que a 
resposta que ela oferece deve ser aceita, ou ela é inválida, 
caso em que ela não contribui para a decisão.31
Mas esse não é o meio pelo qual operam os princípios. 
Mesmo aqueles que mais se aproximam das regras não 
estabelecem conseqüências jurídicas que se operam au-
31. DWORKIN, Taking rights seriously, p. 24. 
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A l e x a n d r e A r a ú j o C o s ta
tomaticamente quando ocorrem as condições previstas. 
Afi rmamos que nosso direito respeita o princípio de que 
ninguém deve benefi ciar-se da própria torpeza, mas não 
queremos dizer com isso que a lei nunca permite que um 
homem possa tirar vantagem dos atos ilícitos que ele co-
mete. De fato, as pessoas se benefi ciam, de forma per-
feitamente legal, das ilegalidades que comentem. O caso 
mais notório é a servidão de passagem \u23af se eu atravesso 
a sua terra durante bastante tempo, algum dia eu ganharei 
o direito de cruzá-la quando eu assim desejar.32
A primeira diferença entre regras e princípios gera outra. 
Os princípios têm uma dimensão que falta às regras \u23af 
a dimensão de peso ou importância. Quando princípios 
colidem (a política de proteger os consumidores de au-
tomóveis colidindo com o princípio de liberdade de con-
trato, por exemplo), alguém que deve resolver o confl ito 
precisa levar em consideração o peso relativo de cada 
um. Não é possível, certamente, uma medida exata, e o 
julgamento de que um princípio ou política particular é 
mais importante que outra pode muitas vezes ser bastan-
te controvertido. No entanto, é uma parte integrante do 
conceito de princípio que ele tem essa dimensão, que faz 
sentido perguntar quão importante ou pesado ele é. Re-
gras não têm essa dimensão.33
Devemos ressaltar que não há uma hierarquia a priori 
entre os princípios e que o peso é sempre medido em rela-
ção aos casos concretos. Assim, um princípio pode prevale-
cer sobre outro em algumas circunstâncias e em outras não. 
E é essa dimensão de peso que faz dos princípios os princi-
pais topoi utilizados para fundamentar as opções valorati-
vas que orientam a determinação das normas \u2014 e é por isso 
que os princípios assumem um papel de grande destaque no 
32. DWORKIN, Taking rights seriously, p. 25. 
33. DWORKIN, Taking rights seriously,