Semin.11.Ministro.Saúde
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no setor da saúde, presentes no nosso Sistema 
Único de Saúde e que defendemos com veemência, vem sendo 
questionado em muitos países. 
Porém, é na crise de regulação que os 
conflitos florescem. Esta crise deriva do confronto de 
quatro lógicas que se tensionam no sistema de saúde: a 
lógica de mercado, produtores, fornecedores, distribuidores 
e usuários, como consumidores de um bem de mercado que 
genericamente se denomina saúde, que pressionam e demandam 
por produtos e serviços de modo contínuo e progressivamente 
crescente. 
A lógica profissional, pela qual se dá por 
motivos diversos à pressão pela incorporação de novas 
tecnologias, muitas das vezes de modo acrítico e nem sempre 
com a devida segurança técnico-científico assegurada, a 
lógica técnico-científica, que tenta imprimir racionalidade 
ao setor da saúde, defendendo a utilização de critérios de 
eficácia, efetividade, eficiência, equidade e segurança, a 
atenção à saúde e aos serviços prestados, e a lógica 
política que, em consonância com as normas, atuação do 
governo, por exemplo, ou de forma corporativa, por exemplo, 
a atuação de representantes de setores constituídos em prol 
dos seus próprios interesses forçam à acomodação ou à 
mudança das políticas públicas vigentes, levando a execução 
dessas políticas para dentro ou para fora de critérios e 
parâmetros nacional ou internacionalmente estabelecidos. 
Se bem analisarmos, as visões destes dois 
estudiosos contemplam os múltiplos interesses intrínsecos 
ao sistema de saúde, que se faz mais vulnerável, se ele é 
de abrangência universal e subfinanciado. Com isso não 
quero dizer que o SUS não deva ser universal, nem tampouco 
que a injeção de mais recursos, por si mesma, supere os 
conflitos e resolva, por exemplo, a questão que se 
apresenta do excessivo número de ações judiciais. Nem que a 
justa alocação de recursos dispense a racionalidade 
responsável, como já foi dito, aqui, no primeiro dia desta 
Audiência Pública. 
 
E por racionalidade deve-se entender a 
aplicação de recursos materiais e humanos, não somente 
financeiros, naquilo que origine maiores e melhores 
resultados aos menores custos e gastos, o que garante a 
sustentabilidade do SUS como uma real política pública de 
saúde, que verdadeiramente impacte as condições de saúde da 
população. 
No Brasil, saibamos todos, o que mais tem 
alterado os perfis de morbidade e mortalidade, a partir dos 
anos 40 do século passado, foi a urbanização intensa com as 
conseqüentes melhorias das condições socioeconômicas dos 
brasileiros, mudanças nos hábitos de vida, envelhecimento 
populacional, acesso ampliado aos serviços e políticas e 
programas continuados, como o da vacinação em massa e do 
combate à mortalidade infantil, por exemplo. 
Porém, mantemos uma condição sanitária na 
qual convivem as doenças do desenvolvimento com as do 
subdesenvolvimento, e não são ações isoladas ou a prestação 
isolada de serviços que mudarão essa realidade dos 
indicadores de saúde de nosso país. 
Nesse ponto, expõe-se o desperdício do uso 
ilimitado da alta tecnologia e da excessiva medicalização 
que temos observado, e que, em certa medida, também são 
resultantes de determinadas decisões judiciais. 
Acho que a via judicial bem educa o gestor 
omisso que não provê dentro da sua competência e 
responsabilidade os bens e serviços de saúde, mas também 
acho que ela não pode se constituir em meio de quebrar os 
limites técnicos e éticos que sustentam o Sistema Único de 
Saúde, impondo o uso de tecnologias, insumos ou 
medicamentos, ou sua incorporação à crítica, desorganizando 
a administração, deslocando recursos de destinações 
planejadas e prioritárias e o que mais surpreende, muitas 
vezes, colocando em risco e trazendo prejuízo à vida das 
pessoas. Lidar com todos esses conflitos e tentar pôr 
limites é interpretado por muitos como insensibilidade com 
os que sofrem e necessitam do sistema, ou como prova de 
omissão. Esta é uma interpretação errônea dos fatos. 
Devo dizer que deste pecado não sofre o 
Ministério da Saúde. Para que se tenha uma ideia, os 
recursos para ações e serviços de saúde, em fevereiro de 
2002, eram de mais de cerca de vinte e oito bilhões de 
reais, passando para mais de quarenta e seis bilhões em 
março de 2009. Exclusivamente com medicamentos de 
dispensação excepcional, os recursos, em fevereiro de 2002, 
ano que se formalizaram Protocolos Clínicos e Diretrizes 
Terapêuticas para esses medicamentos, foram de cerca de 
quatrocentos e cinqüenta milhões de reais. Já em 2009 
gastamos praticamente dois bilhões de reais. Já na 
assistência farmacêutica, como um todo, passamos de dois 
bilhões de reais, em 2002, para seis em 2009. 
Porém, para mim, o que fica em xeque são os 
gastos feitos com procedimentos ou medicamentos, ainda 
experimentais, ou sem a necessária comprovação de 
efetividade, custo/efetividade, custo/benefício e custo/ 
utilidade o que, em última análise, nós faz a todos 
cúmplices, além do desperdício de recursos públicos de algo 
que é ainda mais grave: da maior exposição de pessoas a 
risco. E não se pode querer resolver questões eminentemente 
técnicas e científicas por meios administrativos ou, embora 
não se discuta a importância e o papel do Judiciário, por 
meios judiciais, pois o que à primeira vista parece solução 
pode ser, na verdade, um contrato formal de futuros 
problemas. 
Saibamos todos que os resultados obtidos em 
estudos de investigação científica, que são experimentados 
sob condições controladas, não são, obrigatoriamente, 
repetidos quando do uso rotineiro, individual do 
procedimento ou medicamento pesquisado. Coloca-se, 
portanto, a necessidade de estudos bem desenhados, com 
material e métodos bem definidos, resultados comprováveis e 
reproduzíveis para que se garanta a validade do seu uso 
fora das condições exigidas para a pesquisa. Ou seja, é 
essencial que haja evidência científica, de que os 
resultados se repetirão e que o erro ou desvio aceitável na 
análise dos resultados dos estudos experimentais não se 
expresse de forma dramática na vida real. 
Por isso, fazemos corpo contra a utilização 
ex abrupto de procedimentos ou medicamentos ainda sob 
experimentação ou não registrados, sem validade demonstrada 
pelas medidas padronizadas para determinação de segurança, 
efetividade, custo/efetividade, custo/benefício e custo/ 
utilidade. E essas medidas não são de conhecimento 
corriqueiro, fáceis de entender e interpretar, mesmo por 
farmacêuticos e médico; pelo contrário, exatamente por isso 
são facilmente manipuláveis e utilizáveis para propaganda e 
marketing dos produtos. 
Tudo isso porque vivemos sub judice de três 
grandes vertentes que organizam a nossa existência: o 
direito, a necessidade e o desejo que demandam de sábia 
arbitragem para que se equilibrem e impulsionem a 
humanidade. 
Nessa ideia, o SUS deve-se voltar para a 
garantia do direito e para o atendimento das necessidades 
dos cidadãos. Assim, não se trata de negar os anseios e 
desejos legítimos. Trata-se, isso sim, de discutir demandas 
irreais ou artificialmente criadas, que muitas vezes se 
confundem com desejos. E é nessa artificialidade que com 
frequência se encontra a intersecção entre as expectativas 
dos pacientes, as fragilidades do médico e o trabalho de 
marketing de produtores e fornecedores do complexo 
industrial da saúde. 
Por isso, todos os países do mundo 
civilizado adotam mecanismo de avaliação de incorporação de 
novas tecnologias em saúde. No Brasil, essa instância é a 
Comissão para Incorporação de Tecnologias do Ministério da 
Saúde, a CITEC. 
 Assim, quanto às situações que se 
apresentam na que costumamos denominar \u201cjudicialização da 
atenção à saúde\u201d, apresento algumas posições que defendemos 
no Ministério da Saúde para, por fim, reafirmar e detalhar 
o conjunto de propostas a esta Corte, aqui apresentadas,