CCJ0009-WL-PA-05-T e P Narrativa Jurídica-Antigo-15852
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Título 
3 - Teoria e Prática da Narrativa Jurídica 
Número de Aulas por Semana 
 
Número de Semana de Aula 
3 
Tema 
Narrativa jurídica simples e narrativa jurídica valorada. 
Objetivos 
O aluno deverá ser capaz de: 
- Dis\u19fnguir a narra\u19fva jurídica simples da narra\u19fva jurídica valorada; 
- Iden\u19f\ufb01car as caracterís\u19fcas que marcam esses dois \u19fpos de narra\u19fva; 
- Compreender a relação entre o \u19fpo de narra\u19fva e a peça processual produzida; 
- Conhecer as principais caracterís\u19fcas da narra\u19fva jurídica. 
Estrutura do Conteúdo 
1. Algumas caracterís\u19fcas da narra\u19fva jurídica 
1.1. Impessoalidade 
1.2. Verbos no passado 
1.3. Paragrafação 
1.4. Elementos cons\u19ftu\u19fvos da demanda (Quem quer? O quê? De quem? Por quê?) 
1.5. Correta iden\u19f\ufb01cação do fato gerador 
2. Narra\u19fva jurídica simples 
3. Narra\u19fva jurídica valorada 
4. A construção de versões 
Aplicação Prática Teórica 
Como vimos anteriormente, a s peças processuais têm um denominador comum: precisam, em primeiro lugar, narrar os fatos importantes do caso concreto, 
tendo em vista que o reconhecimento de um direito passa pela análise do fato gerador do con\ufb02ito e das circunstâncias em que ocorreu. Ainda assim, vale dizer 
que essa narra\u19fva será imparcial ou parcial, podendo ser tratada como simples ou valorada, a depender da peça que se pretende redigir. 
Pode -se entender, portanto, que valorizar ou não palavras e expressões merece atenção acurada, pois poderá in\ufb02uenciar na compreensão e persuasão do 
auditório.[1] Essa valoração das informações depende dos mecanismos de controle social que in\ufb02uenciam a compreensão do fato jurídico. 
É preciso lembrar que são diferentes os obje\u19fvos de cada operador do direito; sendo assim, o representante de uma parte envolvida não poderá narrar os 
fatos de um caso concreto com a mesma versão da parte contrária. Por conta disso, não se poderia dizer que todas as narra\u19fvas presentes no discurso jurídico são 
idên\u19fcas no formato e no obje\u19fvo, visto que dependem da intencionalidade de cada um. 
  
  
Para o exercício desta semana, recorremos a um trecho de importante romance da literatura jurídica \u2013 Em segredo de Jus\u19fça[2] \u2013 cujo enredo versa 
sobre o possível assédio sexual pra\u19fcado por um conhecido advogado carioca contra sua jovem secretária. Sugerimos a leitura do livro. 
  
Leiamos a narra\u19fva extraída desse romance. 
  
1- A autora, conforme se veri\ufb01ca de sua própria quali\ufb01cação, detém o grau de bacharel em administração de empresas. 
2- Esse diploma foi conquistado não sem esforço, melhor se diria até, com grande sacri\u130cio. Órfã de pai aos nove anos de idade, mais velha de três 
irmãs, teve a autora muito cedo que começar a trabalhar, para ajudar sua mãe no orçamento domés\u19fco; ainda adolescente, menor de idade, aceitava 
pequenas tarefas remuneradas, posando para comerciais de televisão, ocasionalmente desempenhando pequenos papéis dramá\u19fcos em telenovelas. 
3 - Terminado o curso colegial, procurou e encontrou emprego estável, indo trabalhar como secretária em conhecida empresa industrial. 
4-               Foi progredindo em suas funções e logo, mercê de seu esforço e competência, já atendia a um dos mais graduados diretores da 
empresa. 
5- Trabalhava há algum tempo, quando, desejosa de ter formação superior, ingressou, após passar no concurso ves\u19fbular, na faculdade de 
administração. 
6- Foram mais quatro anos e meio de luta árdua e a autora, trabalhando durante o dia e estudando. à noite, conseguiu \ufb01nalmente o ambicionado 
diploma. 
7- Faltava-lhe agora trabalhar na pro\ufb01ssão que escolhera e para a qual se capacitara. Era, porém, uma opção di\u130cil. Como secretária, era uma 
pro\ufb01ssional experiente, tendo a\u19fngido o topo da carreira; como administradora, \u19fnha um diploma de curso superior completo, mas nenhuma experiência. 
Onde quer que fosse trabalhar, provavelmente deveria começar com uma remuneração inferior àquela que auferia na empresa industrial. 
8- Uma tarde, a autora foi procurada por seu então chefe, Sr. Horácio de Melo Alencar, que lhe perguntou se ela gostaria de ir trabalhar como 
administradora em um escritório de advocacia, por um salário igual ao que então percebia como secretária. 
9 - A autora, de início, manifestou surpresa, chegando a duvidar do que julgava ser tanta sorte. O Sr. Alencar, porém, tranqüilizou -a: tinha um amigo 
- o Sr. Ranulfo Azevedo - homem sério, advogado conceituado, que procurava justamente uma administradora pro\ufb01ssional para seu escritório de 
advocacia. 
10- Como se tratava de \ufb01rma ainda pequena, não fazia questão o Sr. Ranulfo de um ou de uma pro\ufb01ssional experiente: queria alguém que \u19fvesse 
um diploma, bom senso, disposição para trabalhar, e, sobretudo, vontade de crescer junto com a organização. 
11- Lembra-se a autora de que, já naquela ocasião, comentara com o Sr. Alencar que \u201cpobre quando vê muita esmola, descon\ufb01a" e que estava 
achando a oportunidade "boa demais para ser \u201cverdade \u201d. 
12- O Sr. Alencar disse , contudo, que já \u19fnha conversado a respeito com o Sr. Ranulfo e que \u19fnha sido, aliás, o próprio Sr. Ranulfo o primeiro a 
dizer que estava procurando alguém para administrar seu escritório e que se manifestara entusiasmado, ao saber que ela, autora, a secretária de seu 
amigo Alencar, \u19fnha recentemente se formado em administração. 
13- O ex -chefe da autora chegou' até a acrescentar que fora o próprio Sr. Ranulfo que, ao mesmo tempo em que elogiava os atributos \u130sicos da 
autora, perguntara quanto ela ganhava e pedira permissão ao Sr. Alencar para convidá-la para trabalhar com ele, Ranulfo. 
14- Por aí já se vê, desde o primeiro momento, quais fossem as intenções do réu, misturando indevidamente, como quali\ufb01cações para preencher o 
cargo vago em sua empresa, dotes de beleza \u130sica e ap\u19fdões pro\ufb01ssionais. 
15- Permite -se a autora, nesse passo, a bem da precisão da narra\u19fva dos fatos, transcrever a expressão exata que teria sido usada pelo réu: de 
fato, segundo o Sr. Alencar, seu amigo Ranulfo teria dito: 
  
\u201c_ você quer me dizer que sua secretária é formada em administração? Mas ela é 'gostosa demais'! Você ia \ufb01car muito chateado se eu convidasse 
ela para trabalhar comigo?" 
  
16- A frase desrespeitosa foi transmitida ipsis litteris à autora pelo Sr. Alencar. A autora, porém, infelizmente, não a tomou devidamente em conta. 
17- A oportunidade que se apresentava era excepcional: atendia rigorosamente àquilo com que a autora vinha sonhando, desde que ingressara na 
faculdade. O réu, além disso, era amigo de longa data do Sr. Alencar, um pro\ufb01ssional conhecido, muito bem sucedido na pro\ufb01ssão, \u19fnha reputação de 
homem sério. Usara por certo apenas por troça, "de brincadeira\u201d, em conversa com um amigo, a expressão chula, mas certamente, em seu escritório, 
jamais ousaria ultrapassar os limites do respeito e da conveniência. 
18- Assim pensando, e encorajada por seu chefe, a autora aceitou a oferta e, em fevereiro de 1990, foi contratada para o cargo de gerente 
administra\u19fva da \ufb01rma: "Escritório de Advocacia Ranulfo Azevedo". 
19 - Os primeiros meses foram gratificantes. A autora dedicava-se com a\ufb01nco .às tarefas que lhe eram come\u19fdas. Sua posição era especialmente. 
delicada, cabendo-lhe gerenciar um grupo que incluía pro\ufb01ssionais de nível superior, sobre os quais não \u19fnha qualquer ascendência hierárquica. 
20- Mas a autora: parecia vencer o desa\ufb01o: organizou novas ro\u19fnas, mudou a decoração do ambiente, pôs em dia e modernizou a cobrança de 
honorários aos clientes, imaginou e implantou métodos modernos e e\ufb01cientes de administração. 
21- Em verdade, a despeito de sua pouca idade, a autora logo se impôs no ambiente de trabalho, ganhando o respeito e a consideração das cerca 
de trinta pessoas que trabalhavam na \ufb01rma, entre advogados, estagiários, secretárias e funcionários. 
22- O próprio réu, de início, parecia encantado, mais com a competência pro\ufb01ssional que com os alegados atributos \u130sicos da autora, 
comportando-se geralmente de forma respeitosa, formal,quase cerimoniosa. 
23- A seriedade do